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ESPECIAL 50 ANOS DA REDE GLOBO: UM CASO DE AMOR COM A DITADURA

A Rede Globo completa, neste domingo (26), 50 anos de existência com vários atos organizados pelos movimentos populares em todo o país em “descomemoração”. O site da UNE preparou uma série de reportagens especiais sobre o papel da empresa na história política do Brasil, a sua relação com a ditadura civil-militar e a barreira que ela impõe à democratização da comunicação. Leia aqui a primeira parte. 

“Não é mera coincidência o fato das Organizações Globo comemorarem o seu cinquentenário logo após o cinquentenário do golpe. O regime militar garantiu ampla liberdade para o fortalecimento deste veículo. Em contrapartida, a Rede Globo ajudava na legitimidade da ditadura militar”, avalia o diretor de Comunicação da UNE, Thiago José.

Fundado pouco mais de um ano depois do golpe militar de 1o de abril de 1964, o braço televisivo do império de mídia da família Marinho historicamente defendeu os interesses políticos e econômicos dos donos do poder. “A Rede Globo é o cão de guarda da elite brasileira. Eu trabalhei lá e sei bem”, avalia o jornalista e blogueiro Rodrigo Vianna, hoje repórter da TV Record.

Vianna, que deixou a Rede Globo em 2006 por divergir da orientação política da cobertura das eleições daquele ano, vê a empresa como o principal partido de oposição brasileiro. “O Grupo Globo historicamente faz oposição às políticas trabalhistas e a favor de causas liberais. Desde a era Vargas, quando teve um papel fundamental ao cerco que levou ao suicídio de Getúlio, passando pela derrubada de Jango e até a oposição, quase golpista, aos governos de Lula e Dilma”, opina o autor do blog Escrevinhador.

O coordenador do coletivo de comunicação Intervozes, Pedro Ekman, enxerga na relação promíscua entre Globo e Estado, que concede os direitos de radiofusão, a fonte do seu poder político e econômico. “Os privilégios concedidos pela classe política à Rede Globo, que se beneficiaram muito dessa relação, levaram a uma situação de oligopólio da comunicação no Brasil. A Globo controla 70% do mercado, decidindo unilateralmente em quem a pessoa vota, contra quem protesta”, observa Ekman.

UMA MÃO LAVA A OUTRA

Ao lado de outros meios de comunicação, o jornal “O Globo” declarou o seu apoio irrestrito à ditadura instaurada em abril de 1964. Em editorial, sob o título “Ressurge a Democracia!”, a caneta de Roberto Marinho exaltou os feitos da “Revolução Gloriosa”, como viria a fazer pelas próximas décadas. Em um novo editorial publicado em 2014 e lido no Jornal Nacional, a Globo chegou a assumir que o apoio foi um “erro”.

“A ditadura e o golpe existiram como civil-militar pelo apoio que a sociedade civil, principalmente os meios de comunicação, deram aos militares. O apoio da Rede Globo foi um dos pilares para a ditadura ter durado tanto tempo, servindo de aparelho ideológico do regime”, avalia a historiadora e diretora do Arquivo Geral do Rio de Janeiro, Beatriz Kushnir.

Interesses mútuos marcaram a relação entre a família Marinho e os militares ao longo da ditadura, observa a diretora do Fórum Nacional de Democratização da Comunicação, Renata Miele. “De um lado, o grupo Marinho queria construir uma rede hegemônica de comunicação e fazer frente aos Diários Associados de Assis Chateaubriand. De outro, a ditadura precisava de um veículo de comunicação nacional que contribuísse para o seu projeto de nação. Essa relação está na gênese da Globo. É difícil fazer distinção entre o projeto político dos militares e o projeto da Rede Globo”, coloca Miele.

A Rede Globo de televisão viria a realizar a sua primeira transmissão pouco mais de um ano depois do golpe, em 26 de abril de 1965. Desde o início, pode-se perceber o toma lá da cá com os militares. Em troca do suporte ideológico, a ditadura fez vistas grossas à compra fraudulenta da TV Paulista pela família Marinho— que deu origem à Rede Globo —  pelo irrisório valor de US$1 e à parceria, vetada por lei, com a multinacional Time-Life, o que contribuiu para o salto tecnológico da empresa.

“Até então, as televisões não tinham o caráter nacional de hoje. A Rede Globo foi a primeira que alcançou este tamanho, graças ao apoio dos militares. A ditadura investiu muito em telecomunicações e forneceu toda a infraestrutura do recém-criado sistema Embratel. O nome Jornal Nacional não é a toa, pois tinha a pretensão de cobrir o Brasil inteiro dentro do projeto de integração nacional conservadora dos generais”, afirma o jornalista Rodrigo Vianna.

Um telegrama enviado ao Departamento de Estado norte-americano pelo embaixador Lincoln Gordon, recentemente aberto a consulta pública, mostra que a participação da Globo ia ainda além: o próprio Roberto Marinho teria discutido com cérebros do golpe a sucessão e endurecimento do regime em 1965. “Esse tipo de movimentação política da Globo era legítimo dentro do contexto que o país vivia, de jogar com a democracia desse jeito”, observa o coordenador do Intervozes, Pedro Ekman.

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