A 9a Bienal da UNE está na rua! Para provocar o olhar das pessoas que circulam pelas ruas de São Paulo, o festival espalhou milhares de lambe-lambes por diversos pontos da cidade.

É possível encontrar estes cartazes nas paredes da Rua Augusta, Parque Ibirapuera, Barra Funda, Corredor Vergueiro, Avenida Paulista, Vila Madalena, Butantã, USP, na região da Galeria do Rock no Centro, perto da PUC em Perdizes, nas proximidades de várias unidades do SESC e outros locais de concentração de jovens e estudantes.

Esta iniciativa da 9a Bienal dialoga diretamente com o tema do evento, #VozesdoBrasil, um convite à reflexão sobre a linguagem no país. Foram impressas diversas poesias e trechos de música de artistas brasileiros como Noel Rosa, Criolo, Racionais MCs, Oswald de Andrade, Manoel de Barros, Caetano Veloso e Guimarães Rosa.

A impressão dos lambe-lambes ficou por conta do pessoal da Gráfica Fidalga, que produz manualmente os cartazes em uma máquina alemã da década de 1920. Nenhum lambe sai igual ao outro neste maquinário, que é o único deste tipo em funcionamento no mundo.

Antigamente uma gráfica comercial, hoje, a Gráfica Fidalga trabalha apenas com artistas como Ygor Marotta, do projeto “Mais Amor Por Favor”, e galerias como a Choque Cultural, na Vila Madalena. “Hoje fazemos coisas de interesse da gráfica, o que a gente acha legal. Não fazemos mais qualquer trabalho, de publicidade, Igreja e coisas do tipo”, conta Petros, que herdou a gráfica do seu avô. “Trabalhamos só por prazer. E por isso que trabalhamos pra UNE. Gostei de cara do projeto e estamos ai no corre dos lambes.”

Se você ver um cartaz da Bienal em um muro, tire uma foto e envie para gente pelas páginas da UNE e da Bienal da UNE no Facebook! Nos próximos dias, os lambe-lambes também tomarão as ruas do Rio de Janeiro, cidade que receberá a 9aBienal da UNE entre os dias 1 e 6 de fevereiro de 2015. Santa Tereza, Lapa, Flamengo, Botafogo, Copacabana e outros endereços da capital fluminense terão as suas paredes ocupadas.

GRÁFICA FIDALGA

A Gráfica Fidalga tem uma história de luta, que se mistura com as mudanças políticas e urbanas dos últimos 40 anos. Fundada na década de 1960 pelo seu Orlando, a Gráfica Fidalga produzia seus primeiros lambe-lambes principalmente para movimentos sociais, partidos políticos e sindicatos, como o então ilegal PCdoB e o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

Na década de 1970, a repressão da ditadura civil-militar invadiu a gráfica pelo seu envolvimento com pessoas e instituições consideradas subversivas. Todas as quatro máquinas Heidelberg importadas da Alemanha e os tipos de madeira importados da Itália foram quebrados e queimados. O seu Orlando e alguns membros da sua família foram presos e, mais tarde, exilados no Chile e no Senegal.

Contudo, uma máquina estava presa no Porto de Santos havia anos por causa da documentação. De volta do exílio, a mãe de Petros retirou o maquinário da alfândega e o escondeu em Bauru. Após o fim da ditadura, a Gráfica Fidalga retomou as suas atividades com a máquina restante. Os tipos foram refeitos manualmente a partir das impressões antigas.

A gráfica, entretanto, viria a sofrer um novo revés anos mais tarde, chegando a fechar as suas portas. A Lei da Cidade Limpa, implantada em 2007 pelo ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, proibiu outdoors na cidade. A iniciativa acabou com todos os serviços da gráfica na área da publicidade. Na mesma época, o seu Orlando faleceu, a Gráfica Fidalga encerrou as suas atividades e abandou a casa em que funcionou por 40 anos na rua de mesmo nome na Vila Madalena, Zona Oeste de São Paulo.

Dois anos mais tarde, a gráfica reabriu pela iniciativa do pai de Petros e funcionou por algum tempo como um coletivos de tipógrafos que trabalhavam por amor ao ofício. Neste período, surgiu a oportunidade de trabalhar com artistas e galerias. “Foi algo que aconteceu naturalmente. Trabalhamos com artistas muito legais, que expõe no exterior”, conta Petros, que assumiu a gráfica após a morte do pai.

Hoje, a Gráfica Fidalga funciona em uma garagem no Butantã com apenas dois funcionários: Cláudio, um senhor de 70 anos que trabalhou na Fidalga nos idos da década de 1970, e Samay, primo de Petros, que nasceu no exílio, em Senegal. Em breve, eles estarão de mudança para um ateliê perto da USP. Quem tiver alguma ideia boa na cabeça, é só entrar na página da Gráfica Fidalga no Facebook e mandar rodar os seus lambes!

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Da Redação