Sem aulas presenciais por quase dois anos, movimentações culturais universitárias ficaram prejudicadas

Por Daline Ribeiro

Para além das aulas, o espaço universitário é potencializador dos artistas em construção. As calouradas, os saraus, os festivais universitários e eventos dos centros acadêmicos acabam tornando-se o primeiro contexto de apresentação para muitos estudantes. O contato com o público é o que forja as experimentações que, um dia, passam de hobbie para profissão. Os ensaios nos corredores e espaços de convivência da universidade, os feedbacks dado pelos amigos em momentos de descontração são partes importantes da formação desses universitários.

“Foi na universidade que tive a oportunidade de pela primeira vez produzir um evento, ser um produtor cultural. Desenvolvi a pré-bienal da UFF. Foi assim que mudei de curso, antes eu fazia Biologia e agora faço Produção Cultural com muito orgulho!” conta o estudante de Produção Cultural da UFF, Luga Nascimento.

De norte a sul, o sentimento é compartilhado pelo Rodrigo Oliveira, 25, estudante de Licenciatura em Dança da UFPA “Nas salas de aula a gente alimentava a nossa arte, falávamos sobre a nossa pesquisa. Daí do nada, a gente se vê parado”, relata.

Com quase 2 anos de pandemia e uma longa pausa na convivência universitária, quais os impactos desse hiato na vida e produção desses artistas? Ao responder essa pergunta, Luga comenta sobre o impacto direto na sua saúde mental, logo afetando toda sua vida “Durante esses dois anos de pandemia, não consegui produzir absolutamente nada em relação ao meu trabalho enquanto DJ. Eu não consegui, segui abalado, voltei para a terapia. Tive que me reformular enquanto artista.”, relata.

Segundo a pesquisa Juventude e a Pandemia do Coronavírus da CONJUVE- Conselho Nacional de Juventude, 6 a cada 10 jovens relataram ansiedade durante o período de isolamento. Exaustão, uso exagerado de redes sociais e insônia também apresentaram porcentagens alarmantes na pesquisa.

Apesar das complexidades e injustiças de viver a maior crise sanitária do século, a interrupção das aulas foi necessária para a segurança de todos “Com o ensino remoto, me sinto mais segura em relação à Covid-19, além disso, consigo me dedicar aos compromissos no meu ritmo. Algo que não conseguiria tendo que pegar quatro ônibus lotados por dia para estudar e trabalhar.”, confessa a artista Aline Guimarães, 24, estudante de Artes Visuais da UFPI. “Sinto falta quando é em relação às disciplinas práticas pela estrutura que a universidade me oferece”, completa.

E já se passaram 4 semestres, com a redução da curva de casos do novo coronavírus, algumas instituições de ensino superior pública estão, aos poucos, retomando as aulas presenciais. “A arte produz ciência sim, estamos ali pra falar com o corpo. Me preocupa como vamos ser recebidos no volta às salas de aula. Principalmente, nós que precisamos de laboratórios corporais, estar em contato um com o outro. Como isso vai ser colocado pra gente?” questiona Rodrigo.

“A minha expectativa é que a volta às aulas seja da forma mais segura possível, com muita cultura, com assistência estudantil para nós estudantes pretos e pobres, que estamos na universidade. E que as pessoas fiquem mais felizes!” esperançou Luga.

A contar pelos semestres, são 4 gerações de calouros que não puderam viver as dores e as delícias que é o ambiente universitário presencial. A UNE segue na luta por um retorno presencial seguro e por um orçamento justo, para que as universidades tenham condições de oferecer todos os materiais e cuidados necessários para receber os estudantes.

E você artista estudante, saiba mais sobre o Circuito Universitário de Cultura e Arte da UNE!

O CUCA da UNE é núcleo de produção, debate e experimentação cultural que compõe a rede nacional da UNE e existe há mais de 20 anos. O circuito também pode atuar na perspectiva da extensão universitária em ações com a comunidade. Organize-se em rede! 

Leia aqui os documentos das Premissas Básicas para um retorno seguro das aulas.

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