“É muito massa estar aqui nessa Concha Acústica, eu que fui estudante dessa ‘porra’ dessa UFPE, estudei jornalismo, fui diretor de imprensa do DA de Comunicação e uma vez fui pego pichando o muro, era um protesto, e fui suspenso. Então, é muito bom poder voltar aqui e tocar para vocês”.

Fred Zero Quatro é punk. E foi assim que o vocalista da banda mundo livre s/a, uma das cabeças pensantes mais interessantes da cultural brasileira, ex-aluno de jornalismo da UFPE, deu as boas vindas ao público de 2 mil estudantes presentes ao show de encerramento da Caravana UNE Brasil+10 em Recife, no dia 27 de abril, na famosa Concha Acústica da Universidade Federal de Pernambuco.

E dá-lhe “Jorge Ben e Johnny Rotten no mesmo groove” para balançar a rapaziada e promover uma bonita ocupação daquele espaço histórico para o movimento estudantil, que há quase três anos estava abandonado por causa de um proibição da instituição para a realização, ali, de atividades culturais. Em Fortaleza, a Caravana já havia também retomado a Concha Acústica da UFC.

Antes do mundo livre lançar o seu novo disco “Novas Lendas da etnia ToshiBabaa”, passaram pelo palco a revelação Pois Zé, que recentemente ganhou um concurso de bandas promovido pela União dos Estudantes de Pernambuco (UEP), e o grupo Bongar, preparando terreno com o legítimo coco pernambucano.

Vem aí a 8ª Bienal da UNE

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O show na Concha Acústica da UFPE, para o movimento estudantil, tem muitos significados. Era o encerramento da Caravana da UNE em Recife, iniciativa que já está na estrada há quase dois meses percorrendo as principais capitais do país e, também, chegava ao final a Caravana da UEP, que seguiu o mesmo conceito rodando o interior do Estado.

O momento era especial ainda pelo fato de ser o lançamento oficial da 8ª Bienal da UNE, o maior festival estudantil da América Latina, que será realizado em janeiro de 2013, em Recife e Olinda. Já tradicional no calendário do movimento estudantil, a Bienal é hoje a principal vitrine para os estudantes mostrarem o que está sendo produzido dentro das universidades brasileiras, não apenas na área da cultura já que engloba também ciência e tecnologia e muitas outras áreas.

“Mostras universitárias e convidadas, shows, teatro, exposições, cinema e toda a diversidade da juventude brasileira vão se encontrar no verão do ano que vem em Pernambuco”, convocou o presidente da UNE, Daniel Iliescu. (veja aqui como foi a 7ª edição da Bienal, no Rio de Janeiro)

Da Concha nasce o CUCA

Era também o retorno da UNE para aquele espaço que, durante dois anos, abrigou a sede de uma das experiência mais bacanas e ousadas do movimento estudantil nos últimos tempos: o Circuito Universitário de Cultura e Arte.

O CUCA-PE foi fundado em meados de 2005/06. Do modesto iglu da Concha Acústica, que passou por uma reforma, eram propagadas as ideias de um novo movimento que surgia, relembrando o Manguebeat (claro, guardando as suas devidas proporções), com a proposta de fincar uma parabólica dentro da universidade e de lá dar um “choque rápido” ou a academia morreria de infarto.

Hoje um dos coordenadores nacionais do CUCA da UNE, o pernambucano Rafael Buda conta que na época foram realizadas ali uma série de ações. Do iglu e das cabeças que naquele instante fervilhavam, nasceram duas edições do Sonora (Festival de Bandas Universitárias), uma revista literária de contos e poesias publicada pela editora universitária e o Cine Clube no hall do Centro de Artes e Comunicação.

É o mesmo Cine Clube que, ainda na ativa, mesmo agonizando por um novo choque, exibiu durante a passagem da Caravana por Recife o filme “O afeto que se encerra em nosso peito juvenil”, do diretor Silvio Tendler. O documentário conta a história cultural do movimento estudantil, desde a formação e atuação do lendário Centro Popular de Cultura até chegar às atuais Bienais da UNE.

“Cursei sete anos de faculdade aqui na UFPE e a Concha Acústica era uma promessa. Diziam: isso vai ser a redenção da cultura. Até rolou e, depois, deu uma morgada. Ficou abandonada. É um estrutura fuderosa. Então, me sinto agradecido de estar me integrando a uma das ações da UNE para reerguer esse espaço, reerguer a militância estudantil que eu acho que é fundamental na cidadania brasileira”, comentou Zero Quatro após o show.

Tecnologia e Titanic

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Por onde passa, a Caravana tem feito uma pergunta pertinente aos seus convidados. Como vocês imaginam o Brasil daqui a dez anos? “Penso um Brasil onde cada cidadão vai ter mais autonomia e pensar por si próprio e não pela mídia, por meios de comunicação que são propriedades privadas. Penso também ao mesmo tempo essa noção de consumo sustentável e coletividade”, respondeu Zero Quatro.

No seu primeiro disco, “Samba Esquema Noise”, Zero Quatro canta em Manguebit: “Sou eu um transístor. Recife é um circuito. O país é um chip”. Ele também usava no começo da carreira uma espécie de chip acoplado em seu peito (veja aqui). Tudo uma brincadeira ou incitação como forma de chamar a atenção para a popularização da tecnologia e seus desdobramentos na sociedade.

Antenado, ele tem uma opinião sensata quanto a esse assunto. “Li o que um filósofo francês disse na época em que o Titanic fez cinquenta anos. ‘Quando se inventa um grande transatlântico, inventa-se também um grande naufrágio’. A tecnologia não é tudo. Tecnologia é ‘ducaralho’, é massa. Mas quando inventaram o raio x por exemplo os primeiros operadores da máquina morreram de câncer. Tecnologia tem que ser bem dosada e bem avaliada antes de a gente ter todo esse deslumbramento”, pontou.

Facebook, pelada e Morrisey

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“E hoje tem toda essa história de ter dois, cinco mil amigos no facebook. Mas são amigos, cara, virtuais. Voltando àquele coisa do Brasil daqui a dez anos, acho que temos que voltar a ter atenção na carne. Acho que um dos caminhos é voltar a prestar atenção em quem você confiaria para comer um churrasco ou para bater um bola. Ninguém bate uma bola com cinco mil amigos”, brincou.

Sobre o trabalho do mundo livre s/a, curioso por perambular entre o mainstream, ganhando prêmios e sendo trilha de comercias de sandálias, e o underground, lançando discos independentes e sem muito alarde na mídia, o músico, que para muitos ainda mantém a verve punk-militante, diz que conseguiu muita coisa na base da coletividade, da camaradagem que ele próprio pregou no manifesto Caranguejos com Cérebro de 1992 e, ao que parece, é um dos últimos mangueboys originais que ainda circulam pela manguetown.

“Qualquer um que tiver uma mensagem um pouco mais alternativa e revolucionária está completamente condenado”, disse e citou um artistas do qual é fã: “O Morrisey, que para mim é um dos maiores compositores, tem dois novos discos que nenhuma gravadora quer lançar. Assim como Morrisey eu questiono essa história dessa redenção que a música digital provocaria para os compositores. Então, eu acho que um mundo onde o Morrisey tem dois discos prontos que nenhuma gravadora quer lançar é um mundo fucking shit. Acho que a gente tem que repensar as coisas”.

Ensinamentos de Fred Zero Quatro, que, recentemente, reescreveu o manifesto Caranguejos com Cérebro e, agora, está pronto para voltar às aulas. E por que, não, como professor? Fica a provocação.

Assista ao documentário “O mundo é uma cabeça”, sobre o Manguebeat

De Recife, Rafael Minoro
Fotos: Fábio Bardella e Ivan Russo