Ele é o nome da vez. O sucesso na internet abriu o caminho e hoje além de um dos sócios do famoso Porta dos Fundos, ele atua, escreve poesia, é colunista de jornal e um dos artistas que mais tem se posicionado sobre política no cenário atual. Gregório Duvivier tem 28 anos, e desde muito novo quis ser humorista. Ele atendeu ao Jornal Nossa Voz em uma entrevista por email em que falou sobre política, internet, responsabilidade como formador de opinião pública, desmilitarização da polícia e descriminalização da maconha. Confira:
O que a gente percebe é que você é um artista que tem as suas opiniões sobre temas polêmicos e escreve muito bem sobre eles, até com um certo “sucesso” nas redes. A pergunta é, parodiando Tom Zé: existe o tribunal do “feicebuqui”? Você já esteve em um?
As redes sociais são um imenso tribunal, onde os juízes são em sua maioria extremamente desinformados. Tanto a direita quanto a esquerda revelam seu pior lado na internet e atacam as vozes dissidentes de forma irracional e odiosa. Por trás desses ‘haters’ há, muitas vezes, estratégias de marketing e dinheiro de campanha. Muitos são robôs pagos para divulgar ou atacar. Por isso, não caio nessa e não dou importância nenhuma à opinião de pessoas que não tem rosto nem nome.
Você já disse em outras entrevistas que estamos o tempo todo nos posicionando de forma política. Você acha que a sua postura de figura pública pode influenciar outras pessoas, principalmente os jovens, que talvez sejam a maior parte do seu público? Como lida com isso, a ideia de ser um formador de opinião e saber que muitos escutam e levam a sério o que você fala?
A política é inevitável. Minha geração pensa, muitas vezes, que os políticos são todos iguais e a política é um assunto de exclusividade dos políticos. Esses dois pensamentos favorecem muito os péssimos políticos. Acho que é fundamental chamar pra si a responsabilidade de tudo o que acontece no congresso. Vivemos num estado democrático e a responsabilidade pelos nossos políticos é nossa. Acho que estamos começando a perceber isso. Fico muito feliz de contribuir com essa mudança.
Acho que você deve ter assistido ao filme “Her”, do Spike Jonze. O que a gente percebe ali no filme é um futuro problemático em termos de relacionamentos, mas a imagem do diretor sobre o mundo ao redor não é catastrófica. É um futuro até meio ‘vintage’. Ano passado você escreveu um artigo meio brincando de túnel do tempo e conversando com você mesmo. O que pensa, na real, sobre o futuro e as novas tecnologias? É um cara otimista ou tende mais para o pessimismo? O que queria da sua vida o Gregório de 2003? Onde estava o Gregório em junho de 2013? E o que o Gregório estará fazendo em 2023?
Sim, vi o filme Her e adorei. Tudo indica que o futuro vai por aí. As pessoas estão cada vez menos presentes aqui e cada vez mais presentes na nuvem. Em 2003 eu já estava na nuvem, mas era outra nuvem, porque sempre fui muito distraído. Estava começando a fazer comédia, e tudo o que queria era ser comediante, mesmo sem saber o que isso representa. Em 2013 estava nas ruas, mas com muito medo e aflição dos rumos que aquilo podia tomar. Lembro de ver truculência desnecessária dos dois lados e pensar que as manifestações podiam descambar para os dois lados: seja um aumento da violência nas manifestações que levariam a um caos total e a uma anarquia, seja um aumento da violência policial, que levaria a um estado ditatorial que faz prisões preventivas e mata na encolha: foi o que aconteceu. O Estado está matando muita gente, com o apoio de grande parte da opinião pública. Espero, em 2023, estarmos em um Brasil mais consciente e, sobretudo, mais amoroso em relação às diferenças. Dizem que no lema positivista era ordem, progresso e amor. Esquecemos o amor, a parte mais fundamental dessa tríade. Na esfera pessoal, espero a mesma coisa. Mais consciência e mais afeto.
Qual o limite da piada?
Acho que o riso vem junto de uma carga política forte. Você está sempre rindo de alguém. Rir do desfavorecido é um desserviço. Mas não acho que seja crime. Na minha opinião, é uma falta de educação e, claro, de amor.
E a literatura, tem limite?
Acho que são os mesmos do humor, que são os mesmo da vida: o outro.
Ao mesmo tempo em que vivemos uma ultratecnologia e temos diversas possibilidades de criação, acho que você é uma pessoa que preza pela simplicidade. Por exemplo, o filme “Apenas o fim” (2008) talvez seja uma pequena obra prima na sua carreira e ele está muito mais focado na simplicidade de um bom roteiro, uma história bem contada. Viajando nessa onda, o disco de vinil volta com força, o livro resiste com altas nas vendas, os sonetos estão aí presentes… É isso mesmo? O excesso das coisas, da informação, das tarefas do cotidiano nos faz buscar sentido na simplicidade das coisas?
Acho que passa por aí. Já soubemos viver com muito menos. O excesso de coisas traz uma tristeza enorme. Nunca vamos conseguir ter tudo. Nossa tragédia é acumular: informações, coisas, relações. A simplicidade traz uma paz fundamental.
Um artigo seu intitulado “História real” foi bastante difundido pela internet. Nele você conta a saga do seu primeiro ‘baseado’, seguido de uma violência intransigente por parte da Polícia Militar devido ao flagrante. São dois temas que geram polêmica, mas que estão presentes dia a dia no universo do estudante. Qual sua opinião sobre a desmilitarização da PM e também sobre a regulamentação da maconha?
Sou amplamente a favor dos dois temas, com igual intensidade. Acho que ambos representam um enorme passo rumo a uma sociedade mais democrática e menos reacionária.
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Cristiane Tada e Rafael Minoro