
Inclusão, políticas públicas e conscientização são alguns dos itens necessários para se construir uma “ciclonação”. Parece fácil, mas não é. Introduzir estas características dentro de uma grande cidade tem sido os maiores desafios dos profissionais da área de urbanização nestes últimos anos.
Ricardo Correa, arquiteto e urbanista vem ao longo de sua carreira, realizando pesquisas na busca de diminuir os impactos do crescimento improvisado, através da tentativa de construir um planejamento urbano cicloviário integrado ao transporte coletivo
É interessante ressaltar que o fruto da sua paixão por duas rodas surgiu ainda na época da faculdade. Constituída em 2007, a TC Urbes , empresa da qual é sócio-fundador, é produto de um processo surgido dentro da universidade, entre o grupo de estudos Ciclovias Urbanas e um projeto de Cultura e Extensão desenvolvido na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).
Para ele, a questão da mobilidade urbana no Brasil anda junto com o fator da instabilidade igualitária. “Planejar uma cidade que tenha uma mobilidade social mais justa, que favoreça a mesma mobilidade para todas as classes é projetar e planejar uma possibilidade de uma nova sociedade”.
A problemática da ocupação do espaço assombra a sociedade brasileira. O não planejamento das construções nas cidades acabaram por excluir os moradores das regiões centrais. A maioria dos trabalhadores moram distantes de seus empregos, o que acaba gerando o caos desordenado em forma de congestionamento.
Dados apresentados pelo urbanista, apontam que só na capital paulista 43% dos empregos encontram-se no centro expandido, entretanto a maioria dos trabalhadores vivem nas periferias. Como as cidades foram projetadas para o transporte automotivo quem sofre com a ineficiência das conduções públicas são os mais pobres.
“Pensar a cidade cicloviária, é realizar um processo que chamamos de humanização das cidades. Andar de bicicleta vai além de circular, possibilitando uma real melhoria em vários sentidos, financeiro, social, ecológico e bem estar, promovendo impactos tanto na vida individual quanto na vida da sociedade”, descreve.

Real mobilidade
As cidades modernas com altos índices de qualidade de vida projetam suas redes de infraestrutura para abrigar as diferentes formas de deslocamento humano (a pé, de bicicleta, transporte coletivo sobre pneus e sobre trilhos e transporte individual) com segurança, qualidade e conforto. Essas cidades possuem redes cicloviárias eficientes, que permitem que a bicicleta seja uma opção de deslocamento para todas as pessoas, independentemente classe social.
Antes da implantação, essas cidades planejam onde, quando e como será criada uma ciclovia, com o objetivo de formar diversas conexões em rede que possibilitem a circulação de ciclistas por toda a cidade. Além disso, a rede cicloviária é constantemente expandida e melhorada sobre o sistema viário.
“Uma cidade ciclável é quando você de qualquer ponto da cidade consegue chegar em qualquer outro lugar, de maneira confortável , segura e ágil”, aponta Ricardo.

Existe solução?
Utilizando exemplos da integração entre o transporte coletivo e a bicicleta, Ricardo cita o caso da Associação dos Condutores de Bicicletas de Mauá (ASCOBIKE). Mais que um bicicletário, a associação é um instrumento para promover o uso da bicicleta como alternativa de transporte para o morador do município e se tornou também um ponto de referência no município.
Promovendo o uso da bicicleta como meio de transporte economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente correto, ou seja, um meio de transporte sustentável, o bicicletrário que começou com aproximadamente 200 bicicletas, atende hoje 1.700 usuários diariamente e é o maior das Américas.
Pensando na mobilidade dos deslocamentos dentro das grandes cidades e nas vias cada vez mais danificadas pelo tempo, após uma longa pesquisa e um projeto de mais de dois anos Ricardo desenvolveu uma bicicleta exclusiva para a realidade brasileira.

Desenvolvida para ser o principal meio de transporte do ciclista dentro da cidade, a bicicleta urbana une características técnicas para bom desempenho em subidas, muito comum nas regiões brasileiras, agilidade nas ladeiras e maior velocidade.
Outra forma encontrada por Ricardo e sua equipe para popularizar a ideia de mobilidade com um ambiente cicloviável, foi através da edição bilingue do livro “A Bicicleta e as Cidades: Como inserir a bicicleta na política de mobilidade urbana”, disponível para download gratuito aqui.
Thatiane Ferrari, de São Carlos-SP
Foto: Leo Souza