Pintar as universidades de diversas cores e etnias. Equalizar as diferenças históricas entre negros e não-negros, índios e não-índios ao longo dos séculos. Tudo isso é apenas a primeira parte do desafio que começa a ser superado com a aprovação da lei de cotas pelo Congresso Nacional em 2012.
Há consenso, no movimento estudantil, de que a conquista é fruto de uma série de reivindicações que vem sendo feitas ano após ano. Porém, ainda falta muito para que seja rompido o caráter elitista que as universidades ainda possuem. A democratização do acesso à universidade foi tema de uma mesa, na tarde deste domingo, durante a programação do 14º CONEB, da UNE na Universidade Federal de Pernambuco.
Um dos principais desafios apontados pelos participantes do debate foi o enfrentamento da discriminação dentro das salas de aula por aqueles que chegam por meio das cotas. Hoje, o estudante egresso de ação afirmativa se sente intimidado perante colegas e professores e reluta a assumir a sua condição.
“A universidade ainda reproduz o modelo de desigualdade social e racial da sociedade. Os professores ainda contribuem para a criação da tensão entre os alunos, seja discriminando o cotista, seja agindo de benevolência com ele por sua condição. O grande desafio que se põe é modificar gradualmente este quadro”, afirmou o professor da UERJ e pesquisador da Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais, André Lázaro.
O papel do estado enquanto ator de reparação das distorções históricas foi enfatizado por Felipe Freitas, da diretoria de programas da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR). “As cotas têm cumprido bem esse papel reparador, mas elas não se encerram em si. É importante ressaltar que a visibilidade conseguida com a aprovação do programa de cotas nas universidades federais ajuda na ampliação da cobrança efetiva das políticas públicas. Porém, isso não se reflete nas instituições estaduais, onde o debate ainda é precário”, disse.
A criação de ações afirmativas para a garantia da permanência desses alunos dentro das salas de aula até o fim dos cursos ainda é um desafio a ser ultrapassado. Muitos alunos ainda não conseguem vivenciar a experiência acadêmica como um todo, justamente por precisar criar mecanismos para se manter na universidade até a graduação. “Quando você exige contrapartidas desses estudantes para garantir o acesso a bolsas, você difere os estudantes que tem ou não condições financeiras”, reforçou.
O aluno não tem as mesmas chances de quem tem um suporte familiar para continuar estudando sem precisar trabalhar. Esse ainda é um reflexo da universidade que forma elites e dirigentes com sobrenomes, ascendência e cor identificados”, finalizou Clédisson Júnior, membro do Conselho Nacional de Políticas da Igualdade Racial.
Maria Helena Monteiro. Foto: Adolfo Santos Sonteria