“Para que não se esqueça. Para que nunca mais aconteça”. Essas duas frases ganharam novo fôlego e significado após o dia 16 de maio, quando foi instaurada a Comissão da Verdade, que investigará as violações dos direitos humanos durante o período de 1946 a 1988.

Reforçando a importância do trabalho a ser desempenhado pela comissão, grupos e instituições têm se mobilizado em comitês e comissões estaduais para apoiar e realizar suas próprias investigações e acompanhar de perto o trabalho da Comissão Nacional. A Universidade de Brasília (UnB) é uma delas, e organizou um grupo composto por 11 membros, entre eles professores, alunos e ex-alunos, para resgatar a história dos estudantes da universidade desaparecidos durante o período da ditadura militar, são eles: Honestino Guimarães, Ieda Santos Delgado e Paulo de Tarso Celestino.

A comissão da UNB tem como objetivo produzir um relatório baseado em análises de documentos e entrevistas de testemunhas que será entregue à Comissão Nacional da Verdade. “O trabalho é importante para uma política de memória da universidade e para colaborar na comissão”, explicou o professor de direito da UnB e um dos coordenadores da iniciativa, Cristiano Paixão.

A UnB foi uma das instituições mais marcadas pelo regime militar, tendo sofrido sua primeira invasão apenas nove dias após o golpe, em 9 de abril de 1964. O legado de tamanha violência e a retomada do projeto inicial da UnB, na opinião de Matheus Guimarães, sobrinho de Honestino e ex-aluno da instituição, deveria ser um dos grandes objetivos da comissão.

“Apesar de ser sobrinho de um desaparecido, acredito que esse deveria ser um dos focos dessa comissão: retomar a iniciativa do projeto piloto. A UnB pode ser um grande centro propulsor. Foi em torno do projeto de universidade, que meu tio certamente achava muito importante, que ele lutou. Acredito que hoje em dia ele estaria muito preocupado em resgatar esse projeto”, disse.

O professor Cristiano Paixão rebateu: “Concordo que a UnB precisa reencontrar seu projeto, isso pode ser uma consequência do nosso trabalho, mas não é o objetivo direto da comissão. A nossa atividade estará vinculada ao que aconteceu na universidade. Queremos entender a trajetória e todo o funcionamento da comunidade acadêmica na época”, explicou.

Matheus Guimarães, discorda de Paixão. Para ele investigar a trajetória dos estudantes fora da universidade é fundamental. “Os mortos e desaparecidos da Unb, como o meu tio, desapareceram tempos depois de se formarem . Acredito que para conseguir trazer fatos relevantes , como houve esse lapso de tempo, é preciso assumir esse vínculo e fazer um trabalho externo”, avaliou.

A Comissão da UnB tem como objetivo também entender como funcionava a atuação daqueles que estavam à favor do regime militar na universidade, conhecidos como “arapongas”. “Vamos descobrir como funcionavam os mecanismos de repressão na universidade”, finalizou Paixão.

Três invasões na UNB e o desmantelamento da universidade

A UnB talvez tenha sido uma das instituições mais afetadas pelo regime militar brasileiro. Inaugurada em 1962 e conhecida por sua proposta inicial vanguardista, que privilegiava a autonomia e a interdisciplinaridade, ao término do seu 6º aniversário e após três violentas invasões de tropas militares, encontrou-se com um saldo de 80% do seu quadro docente demitido e centenas de prisões de estudantes que lutavam contra o regime e por melhorias na educação.

Foi nesse período que o estudante Honestino Guimarães se destacou como liderança estudantil na universidade protagonizando as mobilizações e protestos de 1968. Após cinco anos, em 1973, já desligado da UnB e vivendo na clandestinidade, foi sequestrado pelo regime e encontra-se desaparecido até os dias de hoje.

Da Redação / fotos reprodução