
Cuidar do planeta e interferir nas ações para a relação harmoniosa entre ser humano e o ambiente é uma obrigação de toda a sociedade, principalmente dos acadêmicos. Pensando nisso, a UEE-SP incluiu o tema “agricultura sustentável” no ciclo de debates do Circuito UniverCidade, nesta segunda-feira (23/04).
A cidade não poderia ser outra. Batizada no passado como a capital do café, Ribeirão Preto se consagra nos dias de hoje como a “Capital Brasileira do Agronegócio”. E não é para menos. A agricultura na região ganha um papel de destaque como um todo, sendo a principal atividade econômica do município, exercendo o cultivo e a industrialização da cana-de-açúcar.
Convidados para debaterem este assunto de extrema importância para o desenvolvimento econômico e sustentável do país, estiveram presentes o chefe geral de Meio Ambiente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), Celso Manzatto, o membro da direção estadual do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Paulo Soares Freire e o professor de Política e Gestão Ambiental da USP, Marcelo Pereira.
Criado há mais de 50 anos, o campus da USP foi o local escolhido para abrigar o debate. Localizado na antiga fazenda de café Monte Alegre, o espaço cujo proprietário era o imigrante alemão Francisco Schmidt, considerado na década de 20 do século passado o maior produtor do mundo do grão, hoje abriga um grande complexo educacional com um excelente centro de pesquisas e de atendimento médico, que corresponde a 5% de toda a produção científica nacional.
A mesa conduzida pelo coordenador do Circuito UniverCidade, Rafael Lacerda se propôs a falar sobre o atual panorama agrícola, pensando com esta composição apresentada hoje, soluções futuras.

Paulo Soares do MST citou não apenas a questão da estrutura fundiária e a necessidade da reforma agrária, mas também a situação do trabalhador rural envolvendo exploração da mão de obra. “Existe hoje dentro das plantações mortes por exaustão, aposentadoria por invalidez ou auxílio doença em torno do corte de cana, que é contabilizada por toneladas”.
A utilização intensa de agrotóxicos por conta do agronegócio também foi abordada por Paulo. Segundo ele, atualmente o brasileiro consome em média cinco litros de produtos químicos por ano, número que coloca o país em primeiro lugar no consumo destas substâncias. “Tudo isso acontece pela obtenção de maior produtividade, padronização e rentabilidade no comércio exterior. Este é o modelo que vem prevalecendo, infelizmente, nos últimos anos”.
Para ele, os grandes empresários afirmam que o salto da produtividade é a solução para o problema da fome no mundo, o que contraria as estimativas, já que o aumento no preço dos alimentos coloca todos os dias pessoas na lista de famintos.
O que fazer com os nossos recursos naturais?
Trabalhando com pesquisa ambiental há 17 anos, Manzatto colocou em pauta na discussão a climatização necessária para a produção alimentícia. Com o aquecimento global, produzir nos trópicos tem sido um grande desafio para os trabalhadores rurais. A alteração climática exige a policultura nas propriedades, o que acaba gerando a proliferação de pestes e pragas no campo.
Mesmo assim, para ele a tendência é de expansão e deve ser aliada à agronomia sustentável, de modo a repensar estrategicamente como será o ambiente produtivo do país. “O produtor rural que investe na conservação dos recursos naturais, com custos adicionais de produção, deve ser reconhecido e recompensado pela sociedade que se beneficia da produção de alimentos, fibras, energia e dos serviços ambientais”.

Neste sentido, a biodiversidade não deve ser suprimida de maneira alguma para o desenvolvimento do agronegócio brasileiro, conforme apontou o professor Marcelo, que introduziu aos estudantes o processo histórico do valor ambiental. “O valor ambiental precisa estar no processo decisório. As soluções no ponto de vista técnico são muito simples e testadas, porém os interesses são muito maiores do que essa prática”, acredita o professor.
Colocar o estudante em contato com diversas opiniões e abrir espaço para que ele acrescente a sua é um dos objetivos do Circuito UniverCidade. Para Alexandre Silva, a iniciativa vem cumprindo ao longo do seu trajeto o papel de incluir a juventude nos assuntos pertinentes de cada região. “Construir a caravana é uma ousadia e um passaporte para conhecer as diferenças realidades, contemplando a diversidade cultural do nosso povo”, conclui .
Thatiane Ferrari, de Ribeirão Preto
Foto: Leo Souza