Mauro Mateus dos Santos, o Maurinho do Canão, é Sabotage. E Sabotage é Chico Science ou Cássia Eller, outros dois jovens da música brasileira que morreram no auge de seus períodos mais criativos. Sabotage é Bob Marley, totalmente autêntico dentro de um estilo musical, e Che Guevara, que fez a revolução não apenas dentro de si mas em todo o seu redor. Sabotage pode ser ainda o Garrincha do rap, entortando adversários com rimas como o jogador fazia com a bola. Sabota é também o 2 Tupac tupiniquim, outra lenda do rap com ascensão interrompida por um assassinato. Ou, simplesmente, uma criança, com o cabelo espetado e um mel que encantava e fazia sorrir os amigos e admiradores.
Quem faz as comparações acima são figuras como o titã Paulo Miklos, os cineastas Beto Brant e Hector Babenco, o músico Rappin Hood e o produtor Denis Feijão, todos de diferentes áreas, o que mostra um pouco da capacidade e talento que Sabotage tinha de transitar na diversidade.
Para Toni C., autor da biografia oficial do cara que colocou no rap rimas e melodias que se tornaram clássicos da música brasileira, Sabotage é o Zumbi dos Palmares.
Toni não chegou a conviver pessoalmente com o músico. Eles iriam se conhecer durante o Fórum Social Mundial em Porto Alegre, em 2003. Sabotage foi assassinado no dia 24 de janeiro daquele ano, após deixar a companheira no trabalho e no caminho para o aeroporto, onde pegaria um avião e participaria de atividade da Cidade Hip Hop organizada durante o encontro.
Daí, Toni, que lançou recentemente o romance O hip hop está morto, deu início a um longo processo de pesquisa e entrevistas para hoje dar vida à “Sabotage – Um bom lugar – biografia oficial de Mauro Mates dos Santos”. A obra será lançada nesta terça e quarta-feira (9 e 10 de julho), no Itaú Cultural, em São Paulo, com homenagens aos 10 anos da morte do artista.
O prefácio é de Paulo Miklos, com quem Sabotage conviveu por semanas no set de filmagens de O Invasor, filme de Beto Brant. Rappin Hood, Celo X, Ganjaman, Sandrão, Helião e Mano Brown são alguns dos que concederam entrevistas exclusivas para a obra.
A biografia, de 344 páginas, pode ser comprada pelo site www.literarua.com.br, selo criado pelo próprio Toni. Lá, o internauta encontra um hotsite ainda em construção com outras informações sobre o livro. Em breve, será lançado também no formato e-book. Parte da renda será doada à família de Sabotage.
Em meio aos preparativos para o lançamento, Toni C. conversou com o site da UNE e falou um pouco sobre a biografia. Confira abaixo.
Quem é o Toni C. E quem é o Sabotage para o Toni C. E como essas histórias se cruzaram até virar um livro?
Toni C. é um pretenso autor, um militante social, biógrafo de Sabotage, artista ou ativista multimedia entre outras coisas, enfim… um ser humano em construção.
Sabotage é a síntese das maiores mazelas sociais do nosso país: uma pessoa que nasceu em plena ditadura militar, teve a infância na redemocratização e morreu antes de ver as políticas públicas do primeiro metalúrgico presidente. Negro, pobre, favelado, perdeu os dentes por agressão policial, Sabotage é mais um jovem violentamente assassinado que usou todo esse descaso como matéria prima para produzir arte.
Eu iria conhecer Sabotage no dia que ele foi assassinado. Estava no Fórum Social Mundial [onde Sabotage faria uma participação], acabei dando a notícia da morte do Sabotage para as pessoas na Cidade Hip-Hop. Agora, 10 anos depois, tenho a oportunidade de contar sua vida.
Você está lançando o livro por um selo especializado em cultura de rua, a LiteraRUA. Foi uma escolha sua? Como surgiu essa parceira? Chegou a procurar uma outra editora, digamos, grande? Você acha que literatura sobre o rap, sobre um personagem do rap, na sua opinião, ainda é periférica, ainda sofre resistência?
LiteraRUA não é bem uma escolha, é a falta dela. Por mais de uma década corri atrás das tais “grandes editoras”, hoje sabemos sobreviver sem elas.
O livro sai com quantas cópias? Qual a sua expectativa com o lançamento? E como fazer essa história chegar a mais pessoas? Pretende disponibilizar para download?
A tiragem inicial é de cinco mil exemplares. As ações de lançamento serão grandes celebrações à memória de Sabotage. A maneira para essa história chegar para mais gente, é com auxílio da internet e cada leitor que se identificar com a obra pode ajudar a divulgá-la, o boca-a-boca que agora também é digital ainda é a melhor propaganda. Quanto disponibilizar a obra para download gratuito é algo que não me ocorre, este livro tem também a função de gerar renda para a família do Sabotage, metade de toda a verba arrecadada é destinada para eles. Além disso a construção de uma obra como uma biografia envolve custos, equipe e trabalho árduo de mais de um ano de pesquisa. Então mesmo sendo completamente a favor da livre circulação de ideias e com registro Creative Commons, o livro precisa se auto-financiar e gerar recursos para novas ações. Aprendi com Célio Turino, criador dos Pontos de Cultura, que a produção cultural precisa, além da ética e estética, gerar economia.
Em um trecho do trailer do documentário que será lançado sobre a vida do Sabotage, ele diz “Eu poderia morrer amanhã, a minha parte eu já fiz”. O Sabotage sentia que já tinha cumprido um papel importante de transformação social pela arte, sabia da importância da sua música e da sua postura, principalmente, para as crianças… Existe um legado de sua obra, sua arte contaminou outras pessoas que se inspiram nele?
Sabotage exerce tamanha influência a ponto da gente nem se dar conta que já se passaram dez anos de sua ausência física entre nós, e ainda, as pessoas nem se dão conta que ele fez dois filmes, disco, videoclipes e tudo que produziu foi durante uma carreira de apenas dois anos. Neste anos teremos além do livro, capa de caderno, documentário e o CD com canções inéditas. Isso mostra que Sabotage é o Eterno Maestro do Canão.
Como avalia a morte do Sabotage, a atuação da polícia e a opinião pública?
Penso ser difícil avaliar, quiçá perigoso. Por isso, “escondi” isso dentro do livro. Tenho medo, muito medo dos que não leem.
Ao longo da sua pesquisa você deve ter se deparado com histórias marcantes, como achar a filha “perdida” do Sabotage, a Larissa. Qual foi o ponto que mais chama a atenção para a biografia, as pessoas vão se surpreender com uma história de vida até hoje não contada e cheia de controvérsias, até mesmo na data de nascimento dele?
Eu não o tornei, Sabotage é um mito. Tudo em sua vida é envolto em polêmicas e controversas.
Você está envolvido em outras homenagens ao Sabotage? O livro terá desdobramentos?
Tenho conversado com os familiares e o advogado da família, eles tem planos em criar um Instituto e um site oficial do Sabotage, me coloquei a disposição para ajudar nos projetos.
Serviço:
O que? Lançamento do livro “Sabotage – Um bom lugar – biografia oficial de Mauro Mates dos Santos”, de Toni C
Onde? Itaú Cultural (Avenida Paulista, 149 – São Paulo/SP)
Quando? Dias 9 e 10 de julho (terça e quarta-feira)
Quanto? R$ 39,90 pelo site www.literarua.com.br
Programação
9 de julho
17h – Abertura com exibição de vídeos do programa Rumos Música Homenagem 2007-2009, desenvolvidos a partir das canções “Cabeça de Nego” e “Dama Tereza”, de Sabotage.
20h – Show com Celo-X (http://novo.itaucultural.org.br/programe-se/agenda/evento/?id=69675) e debate com Toni C., Família Sabotage, Negra Li e Rappin’ Hood.
10 de julho
18h – Tarde de autógrafos com Toni C. e DJ Hadji.
20h – Show com Versão Rap, Z’África Brasil e Família Sabotage.
Veja o trailer o filme “Sabotage: o maestro do Canão”
Assista ao clipe “Sai da frente”, que ficou de fora da trilha de “Carandiru”
Rafael Minoro