Surpresa. Esse, talvez, seja o sentimento comum compartilhado por todos os que têm acompanhado e participado da Caravana da UNE jornada Brasil adentro. É como aquele quebra-cabeça que você ganhou de aniversário mas nunca teve a pretensão de completar. Só que, ao encaixar algumas peças, a coisa começa a ter sentido, um pedaço da imagem aparece e junto vem a vontade de ver o todo. O desafio agora é descobrir novos caminhos, matar a charada.

Em Natal, a brincadeira continuou. As peças atendiam pelo nome de Pau e Lata, PotyAxé e Rosa de Pedra. Três grupos artísticos que promoveram a festa de encerramento das atividades da Caravana da UNE no dia 24 de abril em sua passagem pela capital do Rio Grande do Norte. Foi, na verdade, uma grande celebração e, quem compareceu, não só se divertiu como viu o ambiente acolhedor da pracinha do DCE se tornar uma grande manifestação da cultura popular.

pauelata

O bar do DCE estava bombando, a cerveja gelada e o clima era de confraternização. E ficou melhor ainda. De repente, um bum grave e um pá agudo de galões-tambores vieram em cortejo arrastando as almas felizes que ainda estavam dispersas. A roda se formou, bolinhas de borracha começaram a quicar no chão e os integrantes do Grupo Pau e Lata hipnotizaram o público com batuques silenciosos sobre o corpo. Silêncio depois rompido por maracatu, coco de roda, ciranda, samba e reggae.

O Grupo é ativo há mais de 15 anos e o trabalho que desenvolvem com arte educação e a cultura da sustentabilidade com crianças e adolescentes lhe renderam, desde 2000, o apoio da UFRN. Tornaram-se então projeto de extensão pelo departamento de Artes, passando a ser denominado “Pau e Lata: Projeto Artístico – Pedagógico”, realizando atividades (elaboração de instrumentos musicais a partir da sucata e questionamentos sobre a importância da reciclagem e o reaproveitamento de material) em grupos nas cidades de Natal, Lajes do Cabugi, Mossoró, Pedro Velho, Apodi e Jucuri.

A benção dos orixás, afoxé!

potyaxe

E não precisa entender do candomblé ou dos orixás para brincar e dançar. A energia é autoexplicativa. No momento em que começou a sua apresentação, o Grupo PotyAxé simplesmente transformou a pracinha do DCE em uma grande roda de afoxé. O batuque potiguar trouxe para a Caravana a tradição da cultura Afro-brasileira, abençoando o caminho que ainda se tem pela frente.

Mas, aquele algo que traz um prazer inesperado de que se falou lá no começo, apareceu mesmo foi com a banda Rosa de Pedra. Ângela, a menina-mulher da voz, impressiona com presença e personalidade no palco. Suave e aguda, consegue também ser rock e grave e se sai bem no maracatu, coco ou ciranda. E fez grudar na cabeça de todo mundo um hit, Na Rolé.

O nome da banda é inspirado no livro homônimo da poeta Zila Mamede, paraibana criada no Rio Grande do Norte. Foi o primeiro livro publicado por ela, também bibliotecária e responsável por reestruturar a biblioteca da UFRN, que hoje leva o seu nome e mais cedo foi palco do Aulão Brasil+10 da Caravana, com a presença da deputada Fátima Bezerra.

Zila, o mar e o rolé

A peça que faltava aqui é o mar. Zila nutria fascínio por essa imensidão de água e escrevia versos como o do poema Soneto de fúria Inútil: “Inconsequentemente, o mar avança, avança / armado de mil braços, cem mil dedos / buscando intimidar a praia mansa:/ tão quieta, livre, nela não há medos”.

O mar da banda Rosa de Pedra é o mesmo de Zila e parece continuar a avançar. Na música Meninas de Ponta, elas, que são “as mesmas meninas brincando de boneca sentadas na esquina, se lançam tão prontas para a vida, se jogam no mundo, se lançam no mar”. Temas atuais e cotidianos navegam pelo disco chamado “Demaré”, novo trabalho do grupo que traz músicas como Marés Urbanas, na qual a voz marcante de Ângela canta com uma certa delicadeza que Zila aprovaria: “Duas placas se encontrando, balançando o planeta, o horizonte se abrindo, qual efeito borboleta. É a onda que vem, a maré quando tá cheia, assusta mais que lampião… corre menino”.

A Caravana, que não quer se molhar, pois viagem tem que seguir, tratou de picar a mula ao som do hit Na Rolé: “Eu tenho faca, queijo e café, batuques do Candomblé. Canto, rock, show e fé. E eu vou lá, vou lá no meu rolé…”. Os versos acabaram se tornando também o hino da Caravana, que, em Natal, chegava à sétima cidade visitada e adentrava o nordeste brasileiro rumo à Recife. Quebra-cabeça quase completo.

Ouça a música “No Rolé”, da banda Rosa de Pedra

De Natal, Rafael Minoro
Fotos: Fábio Bardella e Ivan Russo