Nesta última quinta-feira, 04 de dezembro, a diretoria executiva da União Nacional dos Estudantes (UNE) se reuniu na sede das entidades estudantis para discutir a nova data da 9ª Bienal da UNE, maior festival estudantil da América Latina, e aprovar uma resolução de conjuntura para o próximo período.

Essa foi a última reunião da executiva no ano de 2014 e contou com considerações sobre o atual momento do Brasil, como a necessidade da realização de uma reforma política. O encontro também foi importante para estabelecer metas precisas em relação ao calendário de atuação do movimento estudantil ao longo do primeiro semestre de 2015.

Ivo Braga, diretor de Humanas, explicou que o documento representa a opinião da UNE nesse período pós eleição: “Ele aponta os desafios da entidade nesse próximo ano que chega e a necessidade da luta unitária do movimento social pela reforma política e pelo fim do monopólio dos meios de comunicação.”

Confira abaixo a íntegra do documento:

O segundo turno das eleições presidenciais foi marcado por um antagonismo que tem se tornado cada vez mais acirrado. Este processo eleitoral colocou ao Brasil a disputa entre dois campos políticos distintos. O projeto vitorioso foi respaldado por uma ampla parcela dos movimentos sociais e da classe trabalhadora, que acreditam na possibilidade de angariar mais conquistas sociais no próximo período.Essa vitória foi pautada na luta pelas liberdades individuais e no compromisso com reformas estruturais fundamentais para a conclusão da transição democrática nacional.

Essas eleições estão marcadas ainda pelo processo desencadeado pelas Jornadas de Junho de 2013, momento este que tem destaque na história das lutas e mobilizações do povo, em especial da juventude brasileira, e que deu eco para reinvindicações que já eram pautadas pelos movimentos sociais organizados, mas que ganharam um lastro ainda maior através da mobilização de milhões de jovens em todo o Brasil. As eleições de 2014 se configuram nesse sentido, colocando em voga nessa disputa polarizada temas como a criminalização da homofobia, a regulação econômica dos meios de comunicação, o fim dos autos de resistência, a Reforma Política democrática, dentre outras reinvindicações da juventude.

Mas esses são alguns dos elementos da disputa política que está colocada em jogo hoje em nosso país. Além da polarização no cenário da disputa presidencial, assistimos também à emergência de um discurso conservador, reacionário e proto-fascista que tenta de forma equivocada deslegitimar o resultado soberano das urnas insuflandoalgumas parcelas da população em torno de temas conservadores. Neste sentido, nos espaços institucionais de poder, destaca-se a nova formatação que nosso Congresso Nacional toma a partir de 2015 com a eleição de parlamentares que pautaram seus programas nesses discursos, dando forma à um legislativo que, depois de 1964, nenhuma outra geração ousaria enfrentar.

Não é menor a influência que os grandes meios de comunicação tem tentado criar de forma cada vez mais raivosa nos processos políticos e democráticos de nosso país, na tentativa de garantir seus próprios interesses e o status-quo dos grupos políticos e econômicos as quais representa. A exemplo disso, pudemos observar a forma criminosa com que veículos da imprensa,como a Revista Veja, Estadão, Folha e O Globo, de forma mentirosa tentou o tempo inteiro intervir e influenciar de forma conservadora e oportunista o resultado eleitoral. O monopólio da informação, que concede à grande mídia uma carta em branco, também possibilita a disseminação da desinformação e do discurso de ódio, nos colocando também frente à urgência da democratização dos meios de comunicação, através da mudança da forma de concessão e da regulação econômica dos veículos de imprensa.

Todavia, já no bojo das contradições desse novo governo que se avizinha, a Taxa de Juros Selic, que, contando inclusive com a pressão da luta dos movimentos sociais e da União Nacional dos Estudantes, em outubro de 2012 atingiu o menor patamar de sua história, de 7,25%,já chegaa um novo reajuste com o anuncio do novo Ministro da Fazenda Joaquim Levy e o alvoroço do mercado financeiro, atingindo um valor de 11,75%, o maior desde outubro de 2011, sendo um dos maiores do mundo.

A elevação da taxa básica de juros emperra o desenvolvimento do país e dialoga com mercado financeiro que não tem interesse algum no crescimento econômico do país sob uma perspectiva democrática. Com o argumento de combate da inflação, emerge um discurso de fortalecimento do tripé macroeconômico pautado em juros altos, câmbio flutuante e elevado superávit primário. Não concordamos com esta fórmula, pois, para nós, inflação se combate com mais desenvolvimento. Só assim daremos sustentação às políticas sociais em curso e avançaremos na conquista de mais direitos.

Tudo isso, somado as recentes denúncias  de corrupção com destaque para a Operação Lava-Jato, ainda sob investigação da Polícia federal, que envolvem além das empresas púbicas e empreiteiras, figuras políticas e partidos dos mais diversos campos políticos-ideológicos nos último vinte anos, reforçam ainda mais a necessidade de uma Reforma Política democrática, realizada através de iniciativas como o Projeto de Lei de Iniciativa Popular da Coalizão Democrática pela Reforma Política, ou mesmo de uma Assembleia Constituinte exclusiva e soberana convocada através de plebiscito,que supere essa estrutura arcaica do sistema político-eleitoral em nosso país, que aprofunde a democracia e a participação popular nos espaços de poder e que corte pela raiz os problemas de corrupção dentro do poder público, acabando com o financiamento empresarial das campanhas eleitorais, em especialatravés do financiamento público.

O resultante desse último período foi uma expectativa das forças de esquerda e dos movimentos sociais que, com o cenário de acirramento da polarização entre esses projetos,houvesse o fortalecimento de bandeiras da esquerda. Dilma foi eleita comprometida com um programa de reformas estruturantes e mudanças democráticas na política econômica. É seu papel, a partir de agora, atender a essas expectativas, sobretudo com a reforma política, a regulação econômica da mídia, o combate ao extermínio da juventude negra sobretudo através do fim dos autos de resistência,e a superação do tripé macroeconômico neoliberal, tão exaltados em seu discurso eleitoral.

Por isso reafirmamos: na formação do nosso povo, no seio de nossas batalhas, nenhum direito nos foi concedido de graça, mas conquistados através de muita luta, e os estudantes nunca se furtaram de estar na vanguarda desses processos. Portanto, só seguiremos avançando cada vez mais nos direitos dos trabalhadores, dos estudantes, da juventude, das mulheres, dos LGBT, negros e negras, bem como de todos os demais movimentos sociais, através de uma ampla frente de esquerda e popular com mobilizações nas ruas,impulsionarmos mudanças cada vez mais radicais por parte do governo, enfrentando em unidade, qualquer tipo de tentativa de retrocesso que negue todas as vitórias que tivemos na história do povo e dos/das estudantes brasileiros.

São Paulo, 04 de Dezembro de 2014
Diretoria Executiva da UNE