O ano de 2013 marca o aniversário de 95 anos da manifestação estudantil de Córdoba, episódio que alçou a Reforma Universitária à condição de uma das mais importantes bandeiras do movimento estudantil latino-americano. A comemoração vai de encontro com as atividades do 14º Conselho Nacional das Entidades de Base (CONEB) da UNE, um dos principais fóruns estudantis do Brasil, que acontecerá entre os dias 18 e 21 de janeiro em Recife, Pernambuco. Essa edição terá como tema “Reforma Universitária: do manifesto de Córdoba aos nossos dias”.

Naquele junho de 1918, a Europa vivia os últimos episódios da Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa dava seus primeiros passos. Desde o fim do século 19, os estudantes já tinham peso como a parcela mais ativa da juventude quanto às questões políticas. No Uruguai, no Chile e na Argentina iniciavam-se organizações e, especificamente em Montevidéu, já  acontecia o “Primeiro Congresso de Estudantes Americanos”.

Na Argentina, a efervescência estudantil se dava em meio a um momento de renovação política, com a ascensão ao governo de Hipólito Yrigoyen. Menos em Córdoba, província dominada pela Igreja e pela classe alta que, junto com os funcionários públicos, impediam protestos e manifestações a favor da liberdade e da democracia. Em um país cujas universidades eram os centros de discussão, da elaboração e reprodução do discurso moderno, a Universidade de Córdoba se exilava dos impulsos do novo mundo.

O encantamento com esse cenário acadêmico e o sentimento de se viver em uma grande prisão fizeram os estudantes da província se levantarem contra a estrutura vigente: um regime administrativo que contemplava um método docente carregado de autoridade. Esses métodos estavam viciados de um estrito dogmatismo, mantendo a universidade distante da ciência e das disciplinas modernas. A primeira iniciativa foi  o rascunho do belo e comovente “Manifesto de Córdoba” clamando, entre outras melhorias, pela Reforma de Córdoba. Veja um trecho abaixo:

“Nosso regime universitário – mesmo o mais recente – é anacrônico. Está fundado sobre uma espécie de direito divino; o direito divino do professorado universitário. Cria-se a si mesmo. Nele nasce e nele morre, mantendo um distanciamento olímpico.  A Federação Universitária de Córdoba se levanta para lutar contra esse regime (…). Reivindica um governo estritamente democrático e sustenta que, na comunidade universitária, a soberania, o direito de dar-se governo próprio radica principalmente nos estudantes. O conceito de autoridade que corresponde e acompanha um diretor ou um professor em um lar de estudantes universitários não pode apoiar-se na força de disciplinas estranhas à substância mesma dos estudos. A autoridade, em um lar de estudantes, não se exercita mandando, mas sugerindo e amando: ensinando”

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O manifesto e as revoltas dos estudantes levaram à ocupação da universidade. Com tamanha pressão, o governo nacional respaldou as reivindicações estudantis e levou a uma reforma acadêmica que rompeu a estrutura dominante.

CÓRDOBA E A UNE

 Passados 95 anos, a ousadia e o êxito dos estudantes de Córdoba ainda motivam a luta pela Reforma Universitária na América Latina. Revisitar as páginas da manifestação é tarefa inscrita entre as responsabilidades intelectuais de nossa geração, desafiada a intervir como nunca nas mudanças por que passa o país.

Para o diretor de Relações Internacionais da UNE, Mateus Fiorentini, Córdoba ainda vive porque a luta por uma universidade com acesso universal, com pesquisa e extensão, que sirva para o desenvolvimento do país e esteja a serviço do povo, são ainda desafios que se fazem presentes.

“Foi a primeira vez que se pautou de forma mais forte o papel da extensão, da liberdade de cátedra, de uma universidade que paute sua produção de conhecimento, pesquisa e extensão com conteúdo popular e não elitista. Assim, os princípios da Reforma de Córdoba seguem atuais, ainda mais no momento político que vivemos. Temos que gerar independência cientifica e tecnológica do continente e um conhecimento livre a serviço da sociedade e o papel da UNE nesse sentido se faz necessário e imprescindível”, avaliou.

Por isso, a entidade faz o convite a todos os interessados para participar do 14º CONEB da entidade, afim de atualizar a pauta do movimento estudantil para o próximo período e discutir qual a Reforma Universitária que os estudantes almejam.

As inscrições podem ser feitas pela internet até o dia 13 de janeiro de 2013, com preços promocionais para quem efetuar o pagamento antecipadamente. Uma vez inscrito, o participante terá direito a participar de todas as atividades do fórum. No valor estão contemplados o alojamento, alimentação e transporte interno.

Para fazer a inscrição individual, basta acessar o site: http://une.org.br/eventos/

Um e-mail automático será encaminhado ao participante e assim que houver a confirmação do banco sobre o pagamento, a inscrição será consolidada.

Patricia Blumberg