Desde quando firmou sua parceria atômica com Jorge Mautner e outros visionários na década de 70, até os dias de hoje quando enobrecia as fileiras da Orquestra Imperial, o compositor Nelson Jacobina demonstrou ser um artista atento aos movimentos da arte e da brasilidade. Autor do “Maracatu Atômico”, imortal pelas vozes de Gilberto Gil ou de Chico Science, Jacobina era considerado, por quem conviveu com ele, uma pessoa de inteligência doce e sutil. Segurou com louvor o porta-estandarte e terá, eternamente, a arte reconhecida, parafraseando o seu verso mais famoso. O artista morreu de câncer, aos 58 anos, no Rio de Janeiro, nesta quinta (31).

Entre os muitos capítulos de criatividade e perspicácia, Jacobina empreendeu, ao lado de Mautner, uma parceria valiosa com a UNE e com o resgate do projeto cultural do movimento estudantil brasileiro nos últimos anos. Além disso, colaborou com a movimentação dos Pontos de Cultura no Brasil, uma das principais políticas públicas desse setor na última década. Jacobina e Mautner presentearam os estudantes e os movimentos culturais com interações estéticas memoráveis.

Em 2008, o artista participou da “Caravana da UNE – Saúde, Educação e Cultura” em apresentações no Amazonas, Pernambuco e São Paulo. Jorge Mautner comentou sobre essa iniciativa em entrevista ao site do Circuito Universitário de Cultura e Arte da UNE (CUCA): “Fizemos [eu e Jacobina] com a caravana da UNE um show na USP em São Paulo, depois no Amazonas lá em Manaus, com os Pontos de Cultura reunidos na praça aonde fica o fabuloso Teatro Amazonas”.
            
Ao relembrar o espírito da dupla nesses momentos de encontro com os estudantes, Mautner relata: “Construindo o novo mundo, entrelaçando as Universidades e os pontos de cultura, injetando otimismo e revelando os tesouros culturais que o continente chamado Brasil tem para a sua população e para os povos do planeta.” Durante a Caravana de 2008, Jacobina e Mautner também se apresentaram e debateram com os jovens no Recife.

 No ano seguinte, Jacobina voltou a trocar experiências com o movimento estudantil ao participar da 6ª Bienal da UNE, em Salvador. Interagindo com os milhares de estudantes de todo o Brasil em uma conferência-espetáculo, emprestou seuviolão, sua voz e suas ideias em um bate papo que terminou em uma grande ciranda para saudar as Raízes do Brasil. Para quem esteve presente, este foi um dos pontos mais altos do festival.

Segundo o presidente da UNE, Daniel Iliescu, a sensibilidade e o apoio do artista ao movimento estudantil não serão esquecidos: “Nelson Jacobina era uma pessoa sintonizada com as melhores expressões da diversidade cultural brasileira, em diálogo com os movimentos sociais, humildemente doador de toda a sua genialidade aos grupos da juventude brasileira e às gerações mais novas. Fica o nosso muito obrigado, não apenas por deixar hinos como o Maracatu Atômico, mas por ter sido sensível e protagonista na construção do novo Brasil que queremos.”

Artênius Daniel