De diminutivo, Vinicius de Moraes carrega apenas o apelido, carinhosamente registrado pelo seu grande amigo e parceiro de composições, Tom Jobim. O “poetinha” tem importância única na história da Bossa Nova, da música, do Brasil e, particularmente, na trajetória da União Nacional dos Estudantes (UNE).
A arte foi o seu porto, numa vida de feliz tormenta. Vinícius de Moraes era um boêmio inveterado, apreciador de um bom uísque, “o melhor amigo do homem”. Romântico incorrigível, ganhou a fama de ser um conquistador, fato atestado por um número curioso: nove casamentos. Viveu movido à paixão, permanentemente em busca do amor ‘‘que não seja imortal, posto que é chama,/mas que seja infinito enquanto dure”.
E embora a UNE seja assumidamente “brega”, a favor do amor que move as montanhas, não foi esse lado do poeta que marcou a história da entidade e do movimento estudantil. Vinicius também era militante e engajado politicamente nas questões que moviam o Brasil à luz da época.
Ele contava com 50 anos quando deixou para a juventude um dos seus maiores legados: o Hino da UNE. Morreria anos depois, em 1980, mas sua obra permanece e o hino marca essa fase de sua trajetória junto às lutas para ajudar na construção de um país novo, livre, que valoriza a cultura de seu povo e busca caminhos de erguer a tábua do saber. O autor da melodia, Carlos Lyra, tinha apenas 27 anos.
“A nossa mensagem de coragem é que traz um canto de esperança”
Cada linha do hino da UNE ainda reverbera por todo Brasil, cinquenta anos após sua composição. Quem frequenta as atividades da entidade sabe que a palavra de ordem mais cantarolada veio das mãos do poetinha: “A UNE é nossa voz, nossa força e nossa voz”.
Carlos Lyra, inclusive, sempre fala do hino com muito orgulho.“É um trabalho bem formulado, no qual música e letra se casaram tão perfeitamente que é impossível entoar sua melodia sem lembrar da letra ou ler a poesia sem assobiar a canção”, acentuou.
A parceria Carlos Lyra e Vinicius é de longa data. Dois anos antes de ter seu hino, a UNE criou o Centro Popular de Cultura (CPC), que buscava compreender o país e seu povo para ajudar a superação da miséria e da ignorância. Foi nesse embalo que os músicos, dois expoentes da música ligados CPC, imortalizaram a força e a voz dos estudantes.
“Nós tínhamos ditadura militar, mas nós tínhamos resistência. As coisas aqui no Brasil eram feitas com harmonia, com melodias bonitas. Eram feitas com a intenção de, além do protesto, fazer arte”, destacou Carlos sobre o período.
100 anos do poetinha
Marcus Vinícius da Cruz de Melo Moraes nasceu em 19 de Outubro de 1913, na cidade do Rio de Janeiro – RJ, e pertenceu à segunda geração do Modernismo no Brasil. Era filho de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, funcionário da prefeitura, poeta, violonista amador, e de Lídia Cruz de Moraes, pianista também amadora.
Viveu toda a sua infância no Rio. Nasceu no bairro da Gávea e aos três anos se mudou para Botafogo para morar com os avós e estudar na Escola Primaria Afrânio Peixoto. Foi também na sua infância que escreveu seus primeiros versos. Em 1924 entrou para o Colégio Santo Inácio, onde cantava no coro da igreja e montava pecinhas de teatro.
Em 1929, concluiu o curso ginasial e a família retornou para a Gávea. Nesse mesmo ano ingressou na Faculdade de Direito do Catête e se formou em Direito em 1933, ano em que publicou “O Caminho para a Distância”, seu primeiro livro de poesia.
Em 1935, recebeu o prêmio Filipe d’Oliveira pelo livro Em 1935, seu livro Forma e exegese. Em 1936, empregou-se como censor cinematográfico, representando o Ministério da Educação e Saúde. Dois anos depois, em 1938, ganhou bolsa do Conselho Britânico para estudar língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford, e nesse ano publicou os Novos Poemas. Com o inicio da Segunda Guerra Mundial, retornou ao Rio de Janeiro.
Apesar do estudo, da erudição e da convivência com a intelectualidade foi na exaltação do cotidiano, da alegria, da beleza, do amor e como compositor popular que ele decidiu viver. E também como músico sua obra reverberou. Foi um dos responsáveis pela modernização da música popular brasileira em parcerias memoráveis com Tom Jobim, Baden Powel, o próprio Carlos Lyra, Toquinho, Edu Lobo, entre outros. Com cada parceiro, uma nova faceta do poeta e a capacidade de se reinventar.
“Garota de Ipanema”, composta junto com Tom Jobim, é até hoje uma das músicas mais tocadas no mundo. Ainda da dupla, “Chega de Saudade”, tocada por João Gilberto, é tida como um marco na MPB, tanto n formato quanto na letra.
Vinicius se declarava o branco mais negro do Brasil. É na brasilidade, no refinamento erudito misturado às raízes do samba brasileiro, na paixão pelas mulheres e pelo nosso país que lembramos de sua obra. Que Vinicius viva mais 100 anos na memória do Brasil
Patricia Blumberg
