Dentre todas as atividades promovidas pela Bienal da UNE, o chamado Lado C, para mim, é uma das mais interessantes. Visitar as comunidades locais e conhecer sua realidade parecia ser uma experiência sem igual.

Por isso, no dia 5 de fevereiro, embarquei num ônibus com mais 50 estudantes de todo o Brasil para conhecer a favela do Jacarezinho, na zona norte do Rio de Janeiro. Recentemente pacificada pela Polícia Militar, é uma das favelas mais pobres da cidade e a segunda maior do Estado. A visita teve apoio e coordenação da Agência de Notícias das Favelas.

Logo na chegada era possível avistar milhares de propagandas de políticos. Já é quase carnaval, mas os sorrisos dos candidatos ainda resplandecem ironicamente pelos muros da favela, bem diferentes das expressões dos policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Empunhando fuzis os homens fardados inspiram tudo menos paz.

A visita corria bem, todos sendo bem recebidos e contentes em poder conhecer a fundo a vida na favela. Em um determinado ponto, chamado Beira Rio, fomos surpreendidos com um policial abordando um menor. Os moradores gritavam agitados tentando impedir agressões. Percebendo nossa presença com câmeras e celulares em punho, o PM interrompeu a abordagem e exigiu os documentos daqueles que estavam filmando. Dali por diante foi um show de horror: mais policiais chegando afoitos e fortemente armados para ‘’lutar’’ contra estudantes e jornalistas que apenas carregavam câmeras.

Após duas horas de espera pelos documentos retidos tive a certeza de que ali o medo vem daqueles que deveriam nos proteger.

 ‘’A gente não pediu polícia e mandaram polícia. A gente não pediu drogas e mandaram drogas. Não pedimos armas e mandaram armas. Estamos cerceados, por isso é importante que mais pessoas conheçam e entendam a favela’’, falou o líder comunitário e nosso guia na ocasião, Rumba Gabriel.

Apesar dos altíssimos índices de homicídio de jovens negros, o tema é em geral tratado com indiferença pela mídia nacional. Repensar nossas ações como cidadãos passa por lutar pelos direitos de nossos semelhantes. As consequências do preconceito e dos estereótipos negativos associados aos territórios das favelas e das periferias devem ser repudiadas.

Afinal, o morro é pacífico pra quem?

Renata Bars