Antes de fazer uma análise sobre a tão comentada conferência Rio + 20, é importante também fazer um resgate sobre outra convenção que deu origem a todas estas discussões, a ECO-92. Em 1992 o mundo vivia uma conjuntura muito peculiar. A recente queda do muro de Berlim, a crise econômica nos países periféricos (gerada pelo FMI), uma intensa desmobilização dos movimentos sociais e a retomada do neoliberalismo globalizado, elencavam o cenário mundial. Algumas consequências relacionadas ao aumento das emissões de gases do efeito estufa, do crescimento do desmatamento das florestas tropicais, sobretudo da Amazônia, somadas a questões atinentes a saúde pública, começaram a sensibilizar a sociedade e organizações a respeito das questões ambientais. Durante uma década pensou-se em uma convenção que convocasse líderes mundiais e a sociedade para evitar uma crise ambiental. Então em 92, a ONU realiza na cidade do Rio de Janeiro a ECO-92. Uma conferência que possibilitou pela primeira vez colocar e responsabilizar as questões ambientais no âmbito da relação sociedade-estado.
Embora esta iniciativa tenha possibilitado um chamado da sociedade civil para os líderes mundiais, a ECO-92 foi o primeiros dos inúmeros fracassos protagonizados pela ONU na temática ambiental. A arrancada do neoliberalismo na década de 90 só intensificou todas as problemáticas levantadas pela conferência. As indústrias automobilísticas, petroquímicas e o agronegócio multiplicaram seus lucros bilionários as custas do aumento exponencial do desmatamento, do buraco da camada de ozônio, da exploração do trabalho indecente, da utilização de matrizes energéticas não-renováveis, geração de resíduos sólidos, entre outros. Dezenove anos após inúmeras conferências ineficazes, a ONU anuncia a Rio + 20, conferência que comemorará os 20 anos da ECO-92, na cidade do Rio de Janeiro.
Contudo, o mundo de hoje, principalmente Brasil e América Latina vivem uma conjuntura muito distinta do começo da década de 90. As crescentes vitórias de governos populares por vias democráticas na América Latina (como o caso do Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Venezuela, Equador e Peru). A derrota do projeto neoliberal norte-americano para a América latina, a ALCA. A crise do capitalismo que vem ocasionando grandes manifestações por toda a Europa. A derrubada de governos ditatoriais apoiados pelos E.U.A no norte da África e Oriente Médio. A rearticulação dos movimentos sociais com a consolidação do Fórum Social Mundial, apresentam um novo cenário global.
A Rio + 20 tem como objetivo unir alguns caminhos trilhados nas muitas conferências realizadas pela ONU e lançar para o mundo as discussões sobre economia verde. A atual crise estrutural do capital está produzindo impactos profundos nas economias centrais. No entanto, essa crise não inviabiliza o sistema capitalista. Um dos eixos da nova reconfiguração do capitalismo é espairar grandes projetos do capital para as economias periféricas emergentes. Antigos mecanismos de industrialização, exploração da mais valia urbana e o avanço do agronegócio estão no centro dessa expansão do capital. Só que há dois elementos comuns aos países emergentes que são grandes atrativos aos interesses do capital: áreas naturais e territórios dos povos tradicionais. Esse é o novo flanco de expansão do capital que por conveniência se chama “economia verde”. Estamos falando do mesmo capitalismo de sempre, com a mesma necessidade de geração de lucro e poder destrutivo. Mas é uma face do capital que busca enganar a sociedade.
A mesma lógica capitalista onde o homem subjuga homens e mulheres, ocorre na relação entre homem e a natureza, onde o homem subjuga a natureza em detrimento da necessidade do capitalismo se expandir. E quando o capitalismo não se expande, ele entra em crise, mas não perde a capacidade de se reinventar. Essa tal economia verde que sugere o sequestro de carbono para o desenvolvimento sustentável da sociedade, é o mesma faceta do capital que pretende transformar as florestas tropicais em áreas de compensação de poluição de outros países. O capitalismo quer que nós sejamos responsáveis pela sujeira alheia. E quem financia essa economia verde? Se não os mesmos que exploram a mão-de-obra das mulheres nas indústrias de cosméticos, que se apropriam do conhecimento dos povos tradicionais e que desenvolvem sementes transgênicas.
Nesta conferência haverá uma grande disputa da sociedade civil e dos povos tradicionais, contra os interesses das grandes potências e de ONGs financiadas pelo mais bruto limbo do capital, que orquestram a extração de mecanismos para a acumulação capitalista as custas dos trabalhadores rurais, das mulheres do campo e da cidade, quilombolas e comunidades indígenas. Um documento apresentado pelo PNUMA aponta para a Rio + 20 “um investimento verde de 2% do PIB mundial para proporcionar um crescimento a longo prazo”. Ou seja, os 98% restantes do PIB mundial continuarão atrelados a mesma lógica de acumulação capitalista.
Estamos em um momento crucial onde os movimentos sociais devem buscar unidade para contrariar a mercantilização do meio ambiente. É de suma importância a articulação de uma frente ampla que repudie os interesses imperialistas e das ONGs que são financiadas por esse capitalismo pintado de verde. A UNE se empenhará em mobilizar o conjunto do movimento estudantil brasileiro, juntamente os movimentos sociais para apontar as verdadeiras soluções para o colapso ambiental que são: agricultura camponesa e familiar, reforma agrária e urbana, justiça social e o fim do capitalismo.
Diego Loiola é Diretor de Meio Ambiente da UNE