A juventude brasileira sempre esteve ligada às diversas lutas travadas em nosso país para a construção de um sistema avançado de democracia e construção participativa. Dentro e fora dos diversos movimentos sociais, ela conseguiu criar seus espaços de interlocução com a sociedade de formas inovadoras e trouxe renovação para as construções de base. A saúde é um campo fértil para a intervenção desse setor, vez que o SUS preconiza a participação social para a construção de um sistema que dê conta das inúmeras realidades sociais de nosso país. É central que nossa juventude se organize para ocupar estes espaços e intervir para a solidificação desse sistema, ainda em construção.

O movimento de democratização da saúde lutou árduos anos para garantira Reforma Sanitária Brasileira e a construção do Sistema Único de Saúde – o SUS. Esse movimento se propôs a discutir a democratização das estruturas políticas para garantia de direitos cidadãos através da construção basal de um novo modelo democrático, propondo a saúde como porta de entrada na vida político-socialde qualquer cidadão.

A luta por um SUS fortalecido passa primeiramente pelo entendimento que seu projeto não condiz com o modelo de sociedade que estamos inseridos, onde prevalece a cultura mercadológica e de opressão das minorias sociais. Só através de uma mudança desse paradigma poderemos edificar um sistema de saúde que esteja de acordo com um estado de direitos, que garanta a luta social referenciada em uma cultura de construção coletiva em todas as áreas –educação, cultura, economia etc.

As políticas sociais propostas no último período permitiram que cada dia mais jovens entrassem no mercado de trabalho da saúde, e sua formação para atuar em um sistema público tem que ser o centro do debate. As instituições de ensino do nosso país ainda estão em desconexão com a realidade da saúde pública e não conseguem formar profissionais que realmente se propõem a trabalhar no SUS na perspectiva de construir uma saúde para a sociedade brasileira como um todo. A alteração da formação dos profissionais que vão atuar na saúde é necessária para garantir um serviço mais humanizado e em contato com a realidade dos usuários do nosso sistema de saúde. São fundamentais, nesse contexto, as experiências em loco, desde os estágios obrigatórios até experiências como apromovida pela Rede Unida, o Estágio de Vivência no SUS – VERSUS, que garante uma visão mais abrangente do cenário da saúde proporcionando experiências aos estudantes que serão fundamentais no seu processo de amadurecimento enquanto profissional e reflexão sobre seu papel protagonista na construção de um sistema universal, gratuito e de qualidade.

Mas para além da formação dos profissionais que atuarão no sistema, a construção diária de um modelo que dê conta de cada canto do país só pode ser feita através da interlocução entre profissionais, gestores e usuários. Essa tríade, que é fundamental para o projeto do SUS, ainda não consegue funcionar propriamente. Os usuários ainda são subvalorizados enquanto formuladores, mas nós que estamos do lado de cá da mesa de atendimento percebemos, muitas vezes o vazio que o sistema deixa onde a população mais precisa. A edificação de uma rede de solidariedade entre esses diversos atores sociais, cada um em seu domínio, integrando um plano conjunto que una os saberes e integre os valores é que poderá transformar nossa saúde, que muitas vezes têm seus principais problemas ligados as desigualdades sociais de nosso país.   

A gestão participativa como mecanismo de democratizar as relações institucionais, co-responsabilizando os atores que se inserem na construção compartilhada, acaba por criar espaços coletivos onde a expressão das diferenças é respeitada e correspondida. A sociedade civil assume então um papel protagonista, colocando os movimentos sociais e os cidadãos organizados numa roda de discussão descentralizada, garantindo que medidas a serem aplicadas pelo sistema reflitam sua realidade social e respondam a ela de forma imediata, mas também planejada em longo prazo.

Há um longo caminho a percorrer a construção de uma sociedade majoritariamente atuante. O cenário que vivemos hoje de descomprometimento político e descrédito do poder público, tem que ser transformado, de forma a trazer alternativas para a atuação social de cada um e cada uma. A juventude tem um papel fundamental nesse processo, propondo alternativas para a participação social, buscando a igualdade no acesso aos bens sociais e culturais, o respeito ao bem comum, o protagonismo e a responsabilidade no âmbito público e privado e não só direito em saúde, mas na disputa da educação e na conquista de políticas públicas de juventude (PPJ) mais alinhadas com a nossa realidade.

A formação para potencializar a nossa capacidade transformadora e propositiva é fundamental para garantir as mudanças que nós defendemos para a saúde do nosso país. A conscientização do nosso papel político-social e da nossa capacidade de intervir positivamente em nossas realidades para a criação de políticas públicas mais eficazes são os meios para combater processos políticos de cima para baixo, salvacionistas e autoritários que ainda vivenciamos em nossa sociedade. Criação de espaços que possibilitem a compreensão da estrutura e funcionamento do SUS, os processos de construção de um modelo assistencial adequado a seus princípios e diretrizes, além de uma compreensão ampliada de saúde, na qual seja possível uma maior articulação intersetorial com todas as áreas das políticas públicas e sociais são extremamente necessários para a ampliação do nosso debate e da nossa intervenção.

Os movimentos sociais precisam se integrar ao longo processo deconstrução do SUS e a sua juventude tem muito a contribuir. Os movimentos campesinos, que entendem a saúde de forma diferente têm que encontrar um terreno comum para que sua população tenha cobertura completa e seus saberes valorizados. O movimento negro, que através de sua juventude combativa conseguiu avançar nas políticas públicas, e na saúde fez notar as necessidades especificas da população negra e que junto com inúmeros estudiosos criou um amplo espaço de construção da saúde negra. O movimento de mulheres que mostrou que nós somos mais do que mães, somos mulheres que fazemos sexo com mulheres, somos mulheres que lutamos contra a violência, somos mulheres que lutamos por libertação social e o sistema de saúde tem que repensar seus programas.

Dentro desse espectro, o movimento estudantil também tem um papel muito importante. Além de ser um dos maiores movimentos de juventude organizados no nosso país, tendo na rede – as diversas entidades de base e gerais – a sua força motriz, é o movimento que pode prestar grande ajuda na transformação de toda a cadeia da saúde, pois lida com a formação dos gestores, profissionais e usuários. As entidades estudantis, a UNE, as UEE’s e os Centros e Diretórios Acadêmicos devem se integrar a esse processo, promovendo debates, rodas de discussões e espaços que promovam a democratização do debate.

 A UNE, em sua Caravana da Saúde, cumpriu um significativo papel para o resgate do debate da saúde como política em disputa e fez com que diversos núcleos de estudantes nas universidades se construíssem para debater com centralidade seus temas. Iniciativas como esta devem ser fortalecidas, assim como a própria pauta da saúde dentro dos debates realizados pela entidade, devendo figurar como uma das pautas centrais para o próximo período. Os inúmeros debates que circundam a saúde precisam estar presentes para além das Caravanas e dos cursos de saúde, para além dos grupos de pesquisa e das ligas estudantis. Tem que estar nas salas de aula de todos os cursos efora delas, em debates com os estudantes e a comunidade, para que possamos conseguir mais militantes pra essa luta de construção do SUS.    

Um dos espaços que tem que ser desenvolvido e que permite a inserção dos movimentos sociais são os conselhos de saúde, que são compostos paritariamente por usuários, gestores e profissionais da saúde do município, estado e país. Tivemos no último período a 14ª Conferência Nacional de Saúde, que orientou as políticas nacionais para o próximo período.

Ficou evidente a maior participação popular dessa Conferência, mas o preparo dos movimentos sociais para influenciar na política tirada ainda é limitado frente à capacidade de intervenção que eles demonstram ter para outras políticas. O entendimento do campo da saúde como estratégico para a entrada dos movimentos sociais na dinâmica de transformação social em curso é muito necessário para que os caminhos de construção do SUS sejam de radicalização da democracia e sirva de molde para os demais espaços que hoje estão sendo criados, como os conselhos de comunicação, conselhos de controle social entre outros.

A visão da saúde como espaço estratégico de disputa sobre novo modelo de gestão participativa e democrática é central para a garantia da soberania popular e de outras bases para uma sociedade mais fraterna e igualitária. O SUS, desde sua criação, abre os braços para a edificação de uma rede de solidariedade que fortaleça a sociedade civil organizada, que permita a intervenção para o aprimoramento constante.

A juventude tem sido força motriz de diversos processos contestatórios na história recente do Brasil. Precisamos nos inserir de forma qualificada e organizada no debate do SUS e da saúde pública, deixando de figurar de maneira secundária e ajudando a protagonizar a transformação radical da saúde brasileira, a fim de garantir cidadania e qualidade de vida para o nosso povo.

Yasmin Ferraz é Bacharel Interdisciplinar em Saúde e Graduanda em Saúde Coletiva na UFBa, coordenadora geral do DCE – UFBA, militante do SUS e da juventude PT