“O todo sem a parte não é todo. A parte sem o todo não é parte”. Essa simples estrofe de Gregório de Matos mata a charada do que acontece há seis dias no centro de São Paulo. Cerca de 60 manifestantes, alguns sem miltância em organizações e outros representantes de diversos movimentos sociais, estão acampados desde o último sábado (15) no Viaduto do Chá, no Vale do Anhangabaú. Segundo contam os ocupantes, mais de 300 pessoas, na maioria jovens, circulam pelo espaço todos os dias. A reportagem do site da UNE passou por lá para registrar a ocupação e entender um pouco mais do movimento.
São muitos e diversos. Entre os acampados estão estudantes, o Movimento Passe Livre, a Pastoral de Rua, o Coletivo Armas menos Letais, o Movimento Nacional de População de Rua, o grupo Annonymous.org, Matilha Cultural, Rádio Várzea, Movimento Popular Cidadania Ativa, BioUrban e pessoas sem ligação com movimentos. Moradores e menores em situação de rua também participam da ocupação.
O colorido das barracas e cobertores é visto de longe, em um dos pontos mais movimentados da cidade, no chamado Centro Velho da capital paulista, relembrando um pouco a postura jovem dos vinte e sete anos após o histórico Comício pelas Diretas, também no Vale do Anhangabaú.

O movimento é feito aos moldes do “Ocuppy Wall Street”, ação que ocorre em Nova York, nos Estados Unidos, em que milhares de pessoas ocuparam desde setembro, com tendas e barracas, a principal rua de negócios do mundo. Aqui em São Paulo, a atitude nova contrasta com a arquitetura antiga, já que o acampamento ocorre no primeiro viaduto que a cidade construiu. Em meio a beleza do concreto do Vale Anhangabaú, a irreverência dos jovens causa estranhamento e simpatia, tanto que muitos fazem doações para o movimento.
O 15.O-SP, como preferem ser chamados, teve início no dia 15 de outubro, data da manifestação mundial contra o sistema capitalista que ocorreu em mais de 900 cidades em 82 países. A convocatória para a mobilização foi feita pela população espanhola que ocupa as praças do país nos últimos meses reivindicando democracia participativa. Os protestos têm caráter anti-capitalista e, aqui no Brasil, exige mudança completa no sistema político.
As pautas do movimento são diversas. Entre as bandeiras estão demandas ambientais e sociais, contra a criminalização dos movimentos sociais e da classe trabalhadora, a favor das rádios comunitárias, pelo fim da homofobia, apoio às greves dos trabalhadores e pela instalação da Comissão da Verdade. Pedem também 10% do PIB para uma educação de qualidade, bandeira também das entidades estudantis no sentido de mudar a cara do Brasil com mais investimentos no setor.
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“Cada país tem a sua singularidade, a nossa é pacífica e com três princípios: a não violência, o consenso em todas as decisões, e o apartidarismo. As reivindicações da juventude em São Paulo, no geral, são contra a exploração e a injusta desigualdade da realidade brasileira”, explicou uma das manifestantes, Juliana.
Os acampados não têm data para sair e todas as decisões são tomadas por consenso, por meio de uma Assembleia Geral. Isso significa que todas as pessoas presentes têm direito a voz para expor suas propostas, críticas, sugestões e problemas. Quando a reportagem chegou ao acampamento, lá pelas 11h da manhã, muitos ainda dormiam pois haviam discutido as demandas até as cinco da manhã da última madrugada.
“A maioria de nós é estudante. Eu, por exemplo, que trabalho, revezo com alguns amigos e sempre que posso levo alimentos, cobertas e panelas. Assim que saiu do trabalho vou direto para o acampamento. Está sendo um aprendizado ainda sem medidas, e não consigo descrever o que estou passando nesses últimos dias. Todos se ajudam e existem comissões para tudo, como de comunicação e segurança”, explica Thamily, que está participando das manifestações desde sábado.
Aula de Antropologia entre tendas e barracas
A programação do acampamento é vasta e conta com lista de shows, exposições e até aulas temáticas. A professora Rita Alves, da turma de Antropologia VI da PUC-SP, ministrou aulas da disciplina de antropologia nesta última quinta-feira (20).
As aulas foram oferecidas em dois turnos, às 9h30 da manhã e às 19h30. A proposta principal das aulas é levar a universidade ao encontro da movimentação política e o espaço público.
No site oficial do acampamento, é possível ficar por dentro das últimas notícias e ter acesso a programação do evento, bem como fotos e vídeos. Acesse: http://15osp.org
Repressão no acampamento
O grupo vem sofrendo pressão da Guarda Civil Metropolitana constantemente. Na última terça-feira (18), a GCM arrancou todas as faixas de protestos, além de proibir o uso de fogareiros – utilizados para a alimentação – e fogueiras – feitas para proteger os manifestantes do frio.
Os manifestantes divulgaram uma nota repudiando a decisão da justiça de São Paulo, que negou o pedido de Mandado de Segurança. Na nota, o 15.0-SP informou que o pedido do mandado foi feito para “assegurar a permanência deste movimento pacífico e democrático no local com todos os meios necessários para a realização da manifestação, como barracas, para prover abrigo do frio e segurança, e faixas, por meio das quais expressamos nossas demandas e opiniões”.
Doações são bem-vindas
Os manifestantes estão aceitando doações de cobertores, panelas, mantimentos, lanternas e outros itens úteis para acampamento, como lonas e fogareiros. Para doar mantimentos é possível ligar para o celular (11) 8117-4751 e para doar equipamentos o número é o (11) 4114-0525.
Assista ao vídeo do movimento 15.o espalhado pelo mundo todo:
Patricia Blumberg