O prédio ON da Universidade Gama Filho carrega agora um valor simbólico para a luta do movimento estudantil carioca. É o “Não” dos estudantes ao Grupo Galileo, mantenedor da instituição e que vem desrespeitando professores, funcionários e os próprios alunos, que se viram obrigados a ocupar a reitoria que funciona no local, no bairro Piedade, para exigir a solução dos problemas e dar continuidade às aulas.
A ocupação do 4º andar do prédio N da Gama Filho teve início no dia 16 de julho, uma terça-feira. Tudo ocorreu de forma pacífica. Os estudantes contam que chegaram em cerca de 40 pessoas, tocaram educadamente o interfone e comunicaram: vamos ocupar a reitoria e todo o prédio N até que nossas reivindicações sejam atendidas. Era o início de um movimento que hoje recebe amplo apoio dos professores, dos funcionários, de sindicatos, das entidades estudantis e chegou a ter até 150 ocupantes, a maioria deles estudantes do curso de Medicina.
A organização é dividida por grupos. Dessa forma, as tarefas ficam mais claras para cada ocupante e é mais fácil de manter a ordem durante o protesto. Existe o grupo da comunicação, importante por ser o responsável em repassar informações sobre a ocupação para o público interno e externo.
Já o pessoal responsável pela alimentação cuida do recebimento das doações de mantimentos, muitas delas vindas do Sindicato dos Médicos, que tem apoiado irrestritamente a ocupação desde o início. Mas, às vezes, ocorre a famosa ‘vaquinha’ entre eles. Um outro grupo cuida a limpeza, para que tudo seja mantido de forma organizada. É importante não serem acusados de depredação do patrimônio da universidade.
Há colchões infláveis nas salas, barracas nos corredores e um chuveiro com água fria no banheiro do térreo. Eles contam também com dois seguranças gentilmente cedidos pelo Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (CREMERJ), outra entidade que tem apoiado a ocupação. O bairro de Piedade, onde fica a Gama Filho, sofre com problemas de violência. Muitos estudantes já foram assaltados. “Essa também sempre foi uma reivindicação nossa, mais segurança para o Campus”, diz o representante do Centro Acadêmico de Medicina, Rafael Collado.
As deliberações e assembleias entre os alunos são realizadas geralmente no fim da tarde, para fazer um balanço dos acontecimentos do dia e o que virá no seguinte. Os alunos estão sem aula, mas as provas finais continuam. “Fazemos muitos grupos de estudo, eu mesmo passei a madrugada estudando”, disse Collado.
O apoio das entidades médicas e do movimento estudantil tem gerado um clima muito calmo na ocupação. “Estamos abertos ao diálogo, mas sem nenhuma solução não vamos sair”, afirma.
Crise vem desde 2011
A crise nas universidades privadas cariocas começaram após o Grupo Galileo Educacional comprar a Gama Filho e UniverCidade em meados de 2011. Em dezembro do mesmo ano, o Galileo demitiu cerca de 800 pessoas, entre professores e funcionários, e ainda não pagou seus direitos trabalhistas.
Logo após, o Grupo Galileu impôs um aumento abusivo na mensalidade. Os reajustes variavam entre 18% e 40%, indo bem acima dos 5,9% determinados pela taxa de inflação da época.
Os professores e funcionários administrativos das duas instituições estão com o salário de junho atrasado. Alguns também não receberam os 33% das férias de 2011, cujo Termo de Compromisso foi firmado entre os profissionais e a gestora, para que eles voltassem às salas de aula em abril do ano passado. Parte dos docentes da UniverCidade interrompeu outra vez suas funções, no último dia 15 de julho. Já os funcionários estão sem receber o vale-transporte do mês corrente.
Cristiane Tada e Rafael Minoro