Ele é, inegavelmente, um mestre em humildade e simpatia, contador de histórias por excelência, narrador convincente da vida cotidiana e do nordestino. O xilogravurista J Borges contou um caso na tarde desta sexta-feira (25), durante o encontro que teve com estudantes na oitava Bienal da UNE, que ilustra o quanto é bom em cativar e convencer os outros pela sua criatividade.

Quando era cordelista e vendia sua produção na feira, no interior de Pernambuco, em um dia muito ruim para os negócios – “ era aqueles dias em que o povo não queria saber de poesia”, explicou – Borges teve uma ideia para não sair na pior. Improvisou um novo ofício e começou a ler a mão das pessoas para ganhar os trocados. Cigano não é nem nunca foi. Porém, segundo ele, não foi difícil: “A vida do sertanejo da roça é muito parecida”.    

A prosa rolou solta no espaço Forrobodó, na praça do Carmo, com o homenageado de artes visuais da Bienal. No bate papo descontraído, o artista falou da vida e contou causos como aquele no qual afirma ter morrido por três horas, devido a complicações em uma cirurgia na perna. Falou também sobre o começo de seu trabalho:

“Quando entrei na arte, eu era tão ingênuo que nem sabia o que estava fazendo. Era época de ditadura, eu tinha medo de levarem o meu trabalho para Brasília, acharem alguma coisa que não gostassem e me castigarem. Eu só despertei que era artista quando comecei a trabalhar para galerias”, disse ele.

Borges trabalhou de feiras em feiras vendendo cordéis para sobreviver durante 20 anos. E afirma que foi lá que aprendeu muito e que viu a cultura nordestina “desde a poeira até em cima”. O artista que introduziu as cores na xilogravura e que disseminou esse tipo de arte, mostrando o sertão e nordeste mundo afora, não aceita muitos elogios ou elucubrações sobre sua genialidade. “Eu faço um bocado de caretices e gosto de escrever e gravar a história do nordeste. Em 1970 o Ariano Suassuna viu o meu trabalho, disse que eu era o melhor e o povo acreditou”, conta

Mas ele admite ter seu nome espalhado pelo mundo. “Aonde eu chego tem trabalho meu. Eu me considero um artista realizado. Não sou professor, mas já dei aula em Marselha na França, em Santiago de Cuba e no México. Hoje eu vejo lá em casa intelectual, poliglota me chamando de mestre. Eu consegui trazer o mundo para mim, e continuei trabalhando. Continuei batendo nessa tecla da literatura de cordel”, disse.  E continuou: “o que fica velho em nós é só o físico e a carne”.

Em meio à conversa, também falou com os estudantes sobre o futuro do cordel. Se dependesse dele, esse tipo de arte nunca acabaria. Por isso, ele afirma que trabalha ainda, tentando incentivar essa cultura. Atualmente, o maior acervo de cordel à venda no Brasil é dele. “E eu continuo publicando. Quando eu era criança, a única diversão era a leitura do cordel, a gente não tinha acesso a rádio, livros ou revistas. Eu acho que esses alunos novos, crianças que estão aprendendo comigo, vão perpetuar minha arte.  Enquanto nascer menino vai ter arte no mundo”.

Cristiane Tada