Uma em cada três mulheres no mundo já sofreu violência física ou sexual, cerca de 120 milhões de meninas já foram submetidas a sexo forçado e 133 milhões de mulheres e meninas sofreram mutilação genital, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU).
Embora essas violações sejam comuns ao cotidiano de milhares de mulheres, muitas vezes elas se tornam invisíveis ou são tratadas como algo relativo à esfera familiar. Para romper esse silêncio, desde 1981 o movimento feminista comemora, com luta, em 25 de novembro, o Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher.
Neste ano, o assunto ganha ainda mais destaque por conta dos recentes casos de violência contra a mulher nas principais universidades do país. Carina Vitral, presidenta da União Estadual dos Estudantes de São Paulo (UEE-SP), tem acompanhado de perto a violência e o abuso sexual denunciado na festa estudantil de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
A faculdade está em processo de investigação dos casos de denúncias de estupros de alunas e outros tipos de violência nas festas promovidas pelos estudantes. Em reunião no Ministério Público na noite desta segunda-feira (25), o diretor da FMUSP informou que a instituição recebeu quatro denúncias formais. No inquérito civil, a promotora relata oito casos de denúncia registrados desde 2011.
“É absurdo o número de estupros e violência contra mulheres em universidades públicas e privadas brasileiras. Não há clareza ou precisão sobre o número exato, pois tais casos muitas vezes não são registrados. Faltam dados e sistemáticas de monitoramento. Faltam segurança e atendimento específico sobre o tema. Há um machismo estrutural na sociedade brasileira que nos impede de tratar isso como uma questão de política pública e política universitária. Os próprios alunos de Medicina tratam com deboche essa questão”, enfatiza Vitral.
A presidenta pede mais efetivo feminino na Guarda Universitária, a contabilização e divulgação dos casos de violência dentro da faculdade. “O que assusta em todos esses relatos nas universidades brasileiras não é só a violência e a agressão de determinadas pessoas, verdadeiramente criminosas, mas sim a falta de tratamento do problema. E é preocupante as recentes declarações feitas pela diretoria e pela reitoria. As vítimas de abuso vem sendo tratadas com desrespeito até pelos próprios dirigentes das instituições, que querem silenciar o problema.”
Carina Vitral se refere à declaração do reitor da Universidade de São Paulo, Marco Antonio Zago, que afirmou nesta segunda-feira (24) que os casos de violência na instituição são um reflexo do que acontece na sociedade. Segundo Zago, os casos de violência “são questões de natureza policial, são criminais”. “Elas devem ser tratadas com a devida atenção, tanto pela universidade pelo aspecto educativo como pelo Ministério Público no que diz respeito a crimes.”
A Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) vai promover uma nova audiência pública para discutir as denúncias de estupro, tentativa de estupro e ameaças conta estudantes de medicina da Universidade de São Paulo (USP). O reitor da USP e o diretor da FMUSP foram convidados, mas não deverão participar da audiência pública.
“É como se os reitores e gestores dessas universidades ainda estivessem presos a um paradigma personalístico de crimes e violências. Eles afirmam que é uma questão para a polícia analisar, mas deixam de perceber as questões estruturais que reforçam tais ações sociais. O problema não está na responsabilização penal de quem comete a violência contra a mulher, mas sim na completa omissão e falta de estruturação de políticas universitárias que busquem reduzir as violências”, pontua.
25 DE NOVEMBRO
A data de 25 de novembro de 1960 ficou conhecida mundialmente por conta de um dos maiores atos de violência cometida contra mulheres registrados. As irmãs Dominicanas Pátria, Minerva, e Maria Teresa, conhecidas como “Las Mariposas”, que lutavam por soluções para problemas sociais de seu país (República Dominicana) foram perseguidas, diversas vezes presas, até serem brutalmente assassinadas por agentes do governo militar. A ditadura simulou um acidente.
Em 1981, durante o I Encontro Feminista da América Latina e do Caribe, realizado em Bogotá, na Colômbia, o dia 25 de novembro foi escolhido como Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher, em homenagem às três irmãs ativistas políticas.
“A luta dessas mulheres nos inspira para lutarmos por mais justiça social e por um mundo sem violência contra a mulher. Uma vida sem violência é um direito de todas as mulheres. E é crime”, disse Carina Vitral.
Se você já sofreu ou conhece uma mulher que está sendo violentada, ligue 180 ou procure o CREAS: 3735-4062.
Da Redação