A data de 8 de março representa um momento muito importante de organização do movimento feminista. Para a diretora de Mulheres da UNE, Lays Gonçalves,  a pauta feminista não diz respeito apenas à Diretoria de Mulheres, mas à União Nacional dos e das Estudantes, porque é nesse período que movimento estudantil se junta aos outros para ir às ruas e organizar ações de enfrentamento ao machismo na sociedade.

“Acreditamos numa universidade de caráter interventivo na sociedade, logo, nossa luta é para acabar com toda forma de machismo nas universidades. Combate a trotes machistas, racistas e homofóbicos; a busca por reformulação dos currículos que deem visibilidade para as mulheres; às violências sexistas vividas nos campi; ausência de mulheres nas direções de reitorias, departamentos e cursos; pois estes fatos fazem com que as mulheres não se sintam parte da universidade”, aponta.

Para a presidenta da UNE, Vic Barros, cresce cada vez mais a presença de mulheres no movimento estudantil. “Mas, embora sejamos hoje maioria nas escolas e universidades, ainda não existe uma estrutura que dê assistência às nossas necessidade específicas, como creche para a estudante mãe e assistência de saúde específica. Bem como ainda persiste um sistema político eleitoral que não reflete a representatividade femina no Congresso Nacional, colocando as pautas mais caras às mulheres em segundo plano. É preciso seguir na luta para, aprofundar cada vez mais a conquista por nossos direitos, com uma reforma política que garanta a representatividade feminina. Lugar de mulher é na política e em todos os lugares”, destaca.

Hoje, a atual diretoria da UNE é composta por um grande time de mulheres, que, mais do que fazerem política, vivem sua vida na política. Para a secretária geral da UNE, Iara Cassano, o Brasil vem avançado nos últimos anos com relação a participação das mulheres nos altos cargos de trabalho em empresas e no poder público. “Apesar disso, ainda existem muitas dificuldades para as mulheres exercerem sua participação nesses espaços, pois mesmo empregadas temos os salários mais baixos, além de sermos a grande maioria desempregada e ainda a grande minoria no Congresso Nacional. O mesmo ocorre no movimento estudantil, as mulheres estudantes ainda são a minoria na liderança dos centros acadêmicos e DCEs. A UNE dá uma importante contribuição para esse momento, tendo sua mesa diretora por duas gestões consecutivas, majoritariamente, composta por mulheres”, lembra.

AVANÇAR É PRECISO

De acordo com Lays, é urgente uma política de Assistência Estudantil e uma Ação Afirmativa com recorte de gênero que vise o empoderamento das mulheres estudantes. “É preciso se levar em consideração o grande número de mulheres jovens, negras, da classe trabalhadora que ingressaram no ensino superior no último período”, diz.

A diretora destaca ainda o embate dentro e fora da universidade, por um Plano Nacional de Educação (PNE) que reestruture o sistema educacional com pilares que empoderem as mulheres, principalmente mulheres negras e indígenas. “Um PNE que dê centralidade ao debate de gênero e que em seu texto trabalhe a flexão de gênero”, explica.

De acordo com a diretora de Mulheres da UNE a Reforma Política também é um assunto central na disputa da UNE por uma sociedade igualitária, por um Estado Laico, com participação e empoderamento das mulheres.”Na Jornada de Lutas da Juventude vamos colocar a construção do Plebiscito Popular Por Uma Constituinte Exclusiva e Soberana como estratégica para o avanço do feminismo em nosso país”, afirma Lays.

UMA LUTA QUE NOS UNE

Não é recente a luta pelo direito das mulheres dentro do movimento estudantil. A UNE denuncia a violência em todas as suas formas de expressão, como a opressão sexista, os baixos salários e a invisibilidade do trabalho feminino. Lúcia Stumpf, a quarta presidente eleita para a entidade (2009), teve sua gestão marcada por importantes questões, como a legalização do aborto, o combate ao machismo e à homofobia, a defesa de mais direitos para as estudantes grávidas e com filhos e a promoção de mais mulheres aos espaços de direção do Movimento estudantil.

Outra importante liderança feminina do movimento estudantil que sempre atuou com o debate como centro para outras questões sociais é Manuela d´Àvila, atual deputada federal, que foi vice-presidente da UNE no Rio Grande do Sul. Ela defende inclusive a descriminalização do aborto. “Porque a ilegalidade do aborto mata milhares de mulheres no Brasil e as coloca na ilegalidade. Coloca as mulheres como criminosas”, afirmou em entrevista a Revista Marie Claire.

A diretora de Mulheres da UNE concorda. “O Estado hoje nos oprime e nos pune junto a um poder político conservador. A clandestinidade do aborto não impede que ele aconteça, é preciso legalizar!”, afirma.

Recentemente, Manuela também destacou a falta de mulheres nos espaços de poder. “Nunca tivemos uma mulher presidente da Câmara [dos Deputados]. Aliás, quantas CPIs foram presididas por mulheres? E quantas líderes partidárias são mulheres? Não bastasse ser masculino, esse mundo é, também, machista: quando uma mulher cobra resultados e fala alto, é ‘histérica’; o homem é ‘firme’. Dilma é tida como ‘dura’; homens, ‘obstinados’ “, alerta.

MAIS CONQUISTAS VIRÃO

A UNE se orgulha de ter participado ativamente de todas essas conquistas, sempre discutidas em plenárias, grupos de debates, congressos e no próprio Encontro de Mulheres Estudantes da UNE (EME). Contudo, reconhece que muitos anos de lutas internas, nas ruas e nos espaços de construção política ainda serão necessários até que se consiga efetivamente assegurar a autonomia da mulher sobre sua própria vida e garantir sua real representatividade em todas as instâncias de poder e decisão deste país.

No último EME, realizado em março de 2013, a principal mesa de debates trouxe como convidada Tatau Godinho da Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM). Durante o encontro, ela ressaltou que todos os avanços, inclusive a criação de uma Secretaria específica, foi fruto de um processo de lutas que foi construindo um espaço de autonomia das mulheres e que este nunca é um processo sem possibilidades de perdas. Ou seja, é preciso cuidar também para que não aconteça retrocessos.

Com esse espírito de vigilância e combatividade, neste sábado (08/03) as mulheres estarão nas ruas, em luta contra a violência, pela igualdade, liberdade e por mais direitos.

Em São Paulo, a concentração começou as 9 horas no vão livre do MASP na Avenida Paulista seguir  e vai seguir até a Praça Roosevelt.

Estão programadas marchas por todo o Brasil. No Rio de Janeiro, o ato será nos Arcos da Lapa, região central, com concentração às 13h 

Da Redação