A arquitetura não é o único legado de Oscar Niemeyer para o mundo. Tanto quanto suas criações, a defesa por ideais invencíveis são marcas registradas de sua presença. Niemeyer passou anos a fio debruçado em sua prancheta, transformando paisagens. Contudo, seu entendimento do que é a vida – libertária e humana – o levou para muitos outros horizontes e dimensões.
Nascido em 1907, Niemeyer respirou quase todo o século 20, protagonizando a história da arquitetura moderna, costurando novas e velhas ideologias e mantendo-se fiel às mesmas crenças políticas que o guiaram até o fim de sua vida. Filho de fazendeiros, era o único ateu e comunista da família. Diz que foi levado a esse caminho pela revolta em relação à situação de miséria e desigualdade no mundo.
Não por acaso, Niemeyer apoiou diversos movimentos sociais, em especial o movimento pela reforma agrária e o estudantil, encabeçado pela União Nacional dos Estudantes (UNE). Na área da educação, construiu a Universidade de Brasília e, anos depois, mais de 400 Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), durante o governo de Leonel Brizola. Era um gênio brasileiro vestido de arquiteto. Foi ele o responsável pelos traços da nova sede da UNE, na Praia do Flamengo, 132.
Niemeyer sempre fez questão de reafirmar aos jovens profissionais – e seu exemplo marcou gerações e gerações de arquitetos brasileiros e estrangeiros – a importância de uma formação genérica, de uma ampla base cultural que vá muito além das noções de cálculo e equilíbrio: “Aos jovens não basta sair da faculdade como um ótimo arquiteto, mas como um homem que leu, que conhece as misérias do mundo e contra elas vai saber se manifestar.”
No campo das áreas humanas, afirmava que toda escola superior deveria oferecer aulas de filosofia e história, para fugir da figura do especialista e ganhar profissionais capacitados a conversar sobre a vida.
Juventude e começo da carreira
Niemeyer nasceu em 15 de dezembro de 1907 no Rio, filho de Oscar Niemeyer Soares e Delfina Ribeiro da Almeida. Sua família tinha ascendência portuguesa, árabe e alemã.
Cresceu no bairro de Laranjeiras, onde se casou com Annita Baldo, em 1928. Um ano depois, iniciou os estudos na Escola Nacional de Belas Artes, dirigida pelo também arquiteto Lucio Costa, com quem Niemeyer começou a trabalhar em 1932.
Em 1934, obteve diploma de engenheiro e arquiteto. Dois anos depois, conheceu o arquiteto modernista Le Corbusier. A obra do francês o influenciou de forma decisiva.
Viajou aos Estados Unidos em 1938 e elaborou o projeto do Pavilhão do Brasil na Feira Mundial de Nova York. Niemeyer sempre afirmou que entrou para o Partido Comunista abraçado pelo pensamento humanitário de Marx.
Regressou a Nova York em 1947, onde participou, ao lado de arquitetos do mundo todo, do projeto da sede da ONU (Organização das Nações Unidas). Em 1950, foi publicada a obra “The Work of Oscar Niemeyer” (“O Trabalho de Oscar Niemeyer”), do arquiteto e historiador grego Stamo Papadaki, que ajudou a divulgar o arquitetura de Niemeyer no exterior.

Em 1954, fez sua primeira viagem à Europa, onde conheceu França, Itália, Alemanha, República Tcheca e a União Soviética.
No ano seguinte, fundou a revista “Módulo”, que circulou, em edições mensais, até 1965, quando sua publicação foi interrompida pelo governo militar -a revista foi retomada em 1975 e editada até 1987.
Ironicamente, atribuía ao regime militar parte da grande repercussão e dispersão de seu trabalho no exterior. Afinal, foi em função das pressões da ditadura que optou pelo autoexílio. “Eles, que queriam me calar, deram-me a oportunidade de levar minha arquitetura para a Europa e fazê-la conhecida, como desejava. Para isso tive apoio de Maurois, que conseguiu de De Gaulle uma lei especial para trabalhar na França”, disse em entrevista.
Algumas obras de Niemeyer
A coluna de 28 metros sustentada por uma estátua do presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, feita por Honório
Peçanha, do lado de fora do Memorial JK, inaugurado em 1981 e projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer em 1980, em Brasília;
O edifício sede da Editora Mondadori, projeto de Oscar Niemeyer de 1968, localizado em Milão, na Itália;
O Centro Cultural de Le Havre, também chamado de Le Volcan, projeto de 1972 e inaugurado em 1982 em Le Havre, na França;
A Passarela Professor Darcy Ribeiro, também conhecida como Passarela do Samba, Marquês de Sapucaí ou Sambódromo do Rio de Janeiro, projetada por Niemeyer em 1983;
Memorial da América Latina, localizado próximo a estação de metrô Palmeiras Barra Funda, em São Paulo, projetado em 1987;
Concebido em 1991, o Museu de Arte Contemporânea (MAC) de Niterói (RJ) foi inaugurado em 1996, com uma vista panorâmica para o Rio de Janeiro;
Projetado por Niemeyer em 1999, o Auditório do Ibirapuera fica no parque do Ibirapuera, em São Paulo ;
O Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, foi projetado em 2001;
O Terminal das Barcas de Charitas, inaugurado em 2004, é parte integrante do Caminho Niemeyer, um conjunto arquitetônico em construção na cidade de Niterói (RJ), com diversos projetos assinados por Oscar Niemeyer;
O Centro Niemeyer, inaugurado na cidade de Avilés, na Espanha, no aniversário de 103 anos do arquiteto.