Abdias Nascimento, negro, economista, deputado, senador, artista, ativista. Morreu em maio, aos 97 anos, sendo um dos mais influentes brasileiros na construção do perfil do negro como cidadão de direitos e do enfraquecimento, mesmo que ainda em pouca escala, do preconceito que assola o país.

Abdias não foi o único. Desde o maior herói desta história, Zumbi, muitos outros se levantaram contra a opressão e foram, de maneiras diferentes, condutores da exaltação de um grito pela igualdade. Mas, ao longo dos últimos 75 anos, Abdias sustenta merecido destaque e tem importância ímpar na afirmação da identidade afro-brasileira.

Defensor ferrenho do sistema de cotas raciais em universidades públicas, já participou de inúmeras atividades da União Nacional dos Estudantes (UNE) com sorriso no rosto e esperança no olhar, na convicção de que é possível construir um Brasil mas justo. Foi escolhido por unanimidade para ser o homenageado da 5ª Bienal da UNE, realizada em fevereiro de 2007 no Rio de Janeiro. O tema central do festival estudantil era “Brasil-África, um rio chamado atlântico” e discutia a relação do povo brasileiro com a cultura africana.

Além de participar da atividade, Abdias fez questão de ir, na época, ao recém ocupado terreno da sede da UNE, na Praia do Flamengo, 132, para encontrar os estudantes e prestar a sua solidariedade e apoio. Mesmo na cadeira de rodas, em razão de sua saúde física, ele não deixou de visitar o acampamento e foi homenageado.

“Meu pai sempre teve um diálogo muito aberto com a juventude, por isso a relação é excelente. Lembro-me dos conselhos dele, não só para mim, como para os netos e bisnetos. Era da maneira dele, com muita liberdade. Sempre deixou fazer do nosso gosto, do nosso jeito. Era assim que ele educava”, lembrou Bida Nascimento, filho do ativista, em entrevista para o site da UNE.

Bida participou, no último dia 13, de uma grande homenagem ao seu pai. No mês da celebração da Consciência Negra e poucos dias após a divulgação do decreto presidencial que tornou 20 de novembro o “Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra”, as cinzas de Abdias Nascimento  foram depositadas ao pé de uma muda de baobá, no maior parque de temática africana da América Latina: o Parque Memorial Quilombo dos Palmares. O local fica em Alagoas, mais precisamente na  Serra da Barriga, berço da liberdade e palco da resistência negra.

Além da muda do baobá, também foi plantada pela neta do ativista uma muda da gameleira branca, outra árvore sagrada para os negros. Bida explicou que a cerimônia na Serra da Barriga aconteceu de acordo com o desejo de seu pai.  “A nação tem que se libertar dos efeitos da escravidão e o movimento que aqui aconteceu será inesquecível para todos. Assim que ele queria, assim que vai ser”, disse o filho, que ainda completou:

“As cinzas do meu pai agora estão com o espírito de Zumbi. Toda comunidade negra do Alagoas, grupos afro culturais e representantes de Gana, Nigéria e Haiti, que trouxeram a sonoridade e os costumes de seus respectivos países, estiveram presentes para selar este encontro”.

Consciência do teatro à política

Neto de africanos escravizados, filho de pai sapateiro e mãe doceira, Abdias Nascimento nasceu em 1914 na cidade de Franca (SP) e, desde criança, aprendeu com sua mãe que nunca deveria deixar sem resposta uma ofensa racial.

No início da década de 1930, participou da Frente Negra Brasileira (primeira tentativa unificada de organização do Movimento Negro no Brasil) e, mais tarde, foi para o Rio de Janeiro, onde a cultura negra pulsava com mais força. Em maio de 1938 organizou, junto com Agnaldo Camargo e Geraldo Campos, o Congresso Afro-Campineiro de Campinas.

As ricas experiências o levariam a fundar, em 1944, o Teatro Experimental do Negro (TEN), que teve presença destacada no cenário cultural do país, abordando a estética e a identidade negra nas artes plásticas. A UNE, na época, cedeu seu espaço cultural para o artista  apresentar suas peças.

Em 1968, em plena ditadura militar, Abdias fundou o Museu de Arte Negra com obras doadas por artistas comprometidos com a luta contra o racismo. Mas sentindo a pressão de vários inquéritos policiais militares, em novembro de 1968, deixou o país às vésperas do Ato Institucional nº 5 (AI5). Ministrou aulas, palestras e conferências em várias universidades norte-americanas e europeias, sempre denunciando as práticas de racismo no Brasil.

De volta ao país, a partir dos anos 1980, Abdias ampliou sua atuação política disputando eleições e ocupando cargos executivos no governo do Rio de Janeiro. Candidatou-se a deputado federal em 1982. Ficou na terceira suplência e assumiu o mandato em março do ano seguinte, tornando-se o primeiro deputado a exercer o mandato defendendo os direitos dos afro-brasileiros.

Dá para entender a grandeza do guerreiro. Deputado, senador, escritor, poeta, dramaturgo, professor emérito e Doutor Honoris Causa em várias universidades no Brasil e no exterior. Tem também um relevante trabalho como artista plástico e sua obra compõe um rico tesouro de referências sobre a ancestralidade africana, abrangendo a luta dos negros escravizados por liberdade, cidadania e direitos humanos.

Sua arte se insere numa visão mais ampla do desenvolvimento milenar da civilização africana em todo o mundo, pois abarca a história do africano como autor de saberes eruditos e criador de uma estética de profundo impacto e significado.

O grande ativista

Abdias Nascimento dedicou seus mandatos à luta contra o preconceito. Foi responsável por projetos de lei que definiam o racismo como crime e pela criação de mecanismos de ação compensatória para construir a verdadeira igualdade para os negros na sociedade brasileira.

Abdias conseguiu importantes resultados na defesa e na inclusão dos direitos dos afrodescendentes brasileiros, principalmente, por meio de políticas públicas. Participou da Comissão do Centenário da Abolição e colaborou para a criação da Fundação Cultural Palmares.

Em 1988, conseguiu que a Constituição do país contemplasse a natureza pluricultural e multiétnica, que a prática do racismo se tornasse crime inafiançável e que pela primeira vez se falasse em processo de demarcação de terras quilombolas.

Novembro negro

A homenagem a Abdias integra as celebrações do Mês da Consciência Negra, que representa um importante momento para a reflexão sobre as contribuições política, cultural e socioeconômica dos africanos e seus descendentes à sociedade brasileira. É no dia 20, deste mês, que se homenageia Zumbi, líder dos quilombolas de Palmares que viveu no século XVII.

Foi pelo simbolismo da Serra da Barriga e do Mês da Consciência Negra que Elisa Larkin, viúva de Abdias, escolheu o dia 13 de novembro para depositar as cinzas dele no Parque Memorial Quilombo dos Palmares.

“No dia 20, todos estarão mobilizados para celebrar a luta e a igualdade dos povos”, pontou Bida Nascimento.

Da Redação