O ato da Comissão da Verdade no primeiro dia de debates da 9ª Bienal da UNE foi um encontro de velhos combatentes do regime militar. A presidenta da UNE, Vic Barros, recebeu o escritor Arthur Poerner (foto), autor do mais importante livro a respeito do movimento estudantil “O Poder Jovem”; o ex-presidente da UNE, Aldo Arantes; e Sueli Bellato, vice-presidente da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça.
Vic lembrou que ontem (1/2) completou oito anos da retomada da “casa da UNE”, na Praia do Flamengo 132. Foi no dia 01 de fevereiro de 2007 que uma marcha saindo da 5ª Bienal realizou uma ocupação do terreno onde ficava o prédio, incendiado e destruído na madrugada do dia 1 de abril de 1964 pela ditadura militar.
“Nós que não vivemos o período da ditadura podemos não ter dimensão do que significa reorganizar a ‘casa do poder jovem’, como era carinhosamente chamada nossa sede. Mas foi um grande passo para a nossa democracia e hoje a construção da nossa sede é uma realidade”, afirmou ela. No prédio funcionará o espaço cultural Honestino Guimarães, um local permanente para o debate da juventude.
Para a líder estudantil é fundamental que agora completando 50 anos de ditadura possamos contar essas história para as outras gerações, sobre a luta da UNE naquela período.
“Se estamos aqui hoje é para dizer que a luta do movimento estudantil não morreu. Fazemos uma homenagem a todos os líderes estudantis que se foram, reafirmamos nossa defesa pela abertura dos arquivos, pela revisão da lei de anistia e pela punição devida aos crimes da ditadura”, destacou.
VELHOS COMBATENTES
Poerner é figura viva da história da UNE e esteve presente ao longo da história de lutas da entidade. Em sua fala o historiador fez um resgate sobre a importância da UNE em 1968 a partir do assassinato do estudante Edson Luis (1968), no Rio de Janeiro, quando a entidade assumiu a liderança pela resistência a ditadura. Para ele “não havia outra entidade que pudesse assumir esse papel naquela época”.
O ex-presidente da UNE, Aldo Arantes foi autor do projeto que trouxe a UNE para a legalidade após a ditadura em 1982 e da lei dos grêmios livres quando foi deputado federal. Aldo lembrou de sua época à frente da entidade em 1980 e 1981. Ele destacou o projeto “UNE Volante” que em conjunto com o CPC percorreu durante dois meses quase todos os Estados do Brasil, discutindo a reforma universitária, a democratização da universidade, a participação de 1/3 nos órgãos colegiados.
Aldo também é membro da comissão da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para a reforma política. Ele destacou o papel decisivo que a juventude brasileira tem na luta política do Brasil no passado e na atualidade “Hoje nós temos várias lutas, mas a central é a reforma política, a mãe de todas as reformas. A curto prazo está sendo articulada a aprovação de uma reformar altamente conservadora, que não tocam questões como a paridade de gênero e outras tão caras para nós. Para barrar esse retrocesso, precisamos mobilizar a juventude e coletar 1 milhão e quinhentas assinaturas para colocar em votação o projeto da Coalizão pela Reforma Política Democrática e Eleições Limpas, na qual participam UNE, OAB, CNBB e outras dezenas de entidades”, finalizou.
Já Sueli lembrou da grande parceria da UNE com a Comissão de Anistia. Foi durante o 50º Congresso da UNE em julho de 2007, na Universidade de Brasília (UnB), que foi realizada a primeira Caravana da Anistia fora do Ministério. “Tem sido muito satisfatório fazer memória junto com a UNE. Desde que a Comissão de Anistia realiza as caravanas, onde nós passamos a juventude tem nos acolhido e tem nos ajudado a revelar essa história”, afirmou. Ela lembrou que o processo do ex-presidente Aldo Arantes foi o primeiro realizado pela caravana na ocasião. Cerca de 60 mil processos de perseguidos políticos e pessoas atingidas por atos de exceção durante a ditadura já foram julgados desde 2001quando o órgão do Ministério da Justiça foi criado.
Ela comentou sobre o relatório final da Comissão da Verdade Nacional e afirmou que por mais que uma comissão tenha competência e capacidade é impossível que se resgatasse todos os pormenores do longo de 21 anos de ditadura no Brasil. “É muito importante que possamos acessar o relatório, os documentos e saibamos da história para nos precaver de novos ranços da direita existentes ainda hoje”, destacou.
RELATÓRIO DA UNE
Com o objetivo de confrontar a história contada pelo governo militar e resgatar a realidade dos fatos, reconstituir trajetórias individuais e de resistência do movimento estudantil na biografia do país e colaborar com os trabalhos da CNV é que foi instalada a Comissão da Verdade da UNE em janeiro de 2013, durante o 14º Conselho Nacional de Entidades de Base, o Coneb, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) em Recife. Composta por pesquisadores, historiadores, estudantes e colaboradores como Paulo Vanucchi, ex-ministro dos Direitos Humanos e integrante da CNV, a Comissão da UNE se dedica a passar a limpo a história de alguns líderes estudantis.
Cristiane Tada