O Dia Internacional da Mulher, comemorado em 8 de março, é sinônimo não apenas de luta por uma sociedade mais justa. É um reflexo de todo um movimento em defesa da igualdade de direitos. O acesso à educação, o direito de votar e ser candidata, as condições igualitárias de ingresso no mundo do trabalho, entre tantas outras vitórias, só foram conquistadas com a união de mulheres que, juntas saíram às ruas em protestos, greves e passeatas. 

Fazem parte do movimento estudantil paulista mulheres assim, com opiniões formadas e que nunca ficaram sentadas esperando que a situação melhorasse. É o caso da ex-presidente da UEE-SP, Renata Petta, que esteve à frente da entidade em 2003. Segunda mulher a presidir a União Estadual dos Estudantes de São Paulo, Renata sabe que a ocupação de um espaço que até pouco tempo atrás era predominantemente tomado por homens, sempre é mais difícil para a mulher. “Como presidente, precisamos trabalhar e provar o tempo todo a nossa capacidade”, diz.

Para ela, o movimento estudantil é constituído por homens e mulheres refletem o pensamento de uma sociedade. “Existe machismo no movimento estudantil, mas temos que romper com isso já que a maioria das militâncias luta por um outro mundo e nesse mundo o machismo não cabe”, completa. 

Quando o assunto é preconceito, a atual presidente da União Paulista dos Estudantes Secundaristas (UPES), Nicoly Mendes, é categórica. “Quando percebo qualquer tipo de preconceito já vou logo dizendo que, dentro do movimento estudantil, isso não tem vez. Aqui as meninas têm a opinião formada sobre as lutas das mulheres e lutamos para derrubar esse muro que separa homens e mulheres”, conta.

A diretora de mulheres da UEE-SP, Marcia Pará, acredita que existe também o preconceito e a não aceitação de mulheres atuantes e engajadas na sociedade. “Um exemplo disso foi a publicação revista Playboy de agosto de 2011, que retratou as estudantes que fazem parte do movimento estudantil como feias, rebaixando assim as mulheres politizadas”, lembra a dirigente estudantil, tecendo críticas à abordagem que muitas vezes a grande imprensa dá à figura feminina na sociedade. 

Lugar de mulher

Uma projeção realizada pelo Instituto Data Popular e divulgada pela Agência Patrícia Galvão revela que o número de postos de empregos formais ocupados por mulheres teve um aumento de 75%, contra 59% dos postos de trabalho masculinos no período de 2002 a 2012. Embora a classe feminina trabalhadora tenha alcançado muitos avanços ainda existe a ideia de que o mundo do trabalho não é lugar de mulher. 

O reflexo disto está na diferença entre os salários oferecidos pelas empresas. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010 as mulheres estavam recebendo cerca de 70% do valor do salário que um homem. 

“É um absurdo a idéia de que mesmo tendo a mesma função e trabalho que o homem a mulher ganhe menos. Não dá para acreditar”, aponta Petta. 

Infelizmente, a desigualdade dos gêneros se repete em todas as regiões do Brasil e a diferença aumenta ainda mais quando o grau instrução da vaga entra em questão já que, entre os brasileiros que ganham mais de 20 salários mínimos, 80% são homens. 

A Constituição Federal é clara quando diz que nenhuma empresa não pode discriminar pessoas por raça, etnia, cor da pele, na hora de contratar ou definir salários e bonificações, o mesmo acontece com a questão de gêneros. Utilizando este discurso como base é que, com muita luta, a Comissão de Direitos Humanos do Senado aprovou, na última terça-feira (6), por unanimidade, o projeto de lei que estabelece multa as empresas que pagarem salário menor para a funcionária do que o valor para o funcionário, quando as obrigações exercidas forem as mesmas. 

Unidas pela classe… de aula

O descaso com a situação das estudantes no ambiente educacional continua. No estado de São Paulo, o maior problema ainda é a questão da falta de creches nas instituições, que muitas vezes acarreta na evasão escolar. 

A diretora Marcia Pará conhece muito bem a causa em que luta. Mãe de um menino de 6 anos, ela se divide entre a vida materna e acadêmica. “Consigo conciliar estudando no mesmo horário que meu filho, mas é muito difícil, sempre tenho que sair correndo da faculdade, para ir buscá-lo a tempo na escola”, relata a diretora. 

Mas, segundo ela, poder harmonizar estas duas etapas tão importante na vida de uma mulher ainda não é algo para todas. “Como na infância é muito importante a participação da mãe, a falta de creches nas escolas e universidades desanimam as mães a continuarem com os estudos”, explica. 

“As mulheres em geral tem vivido uma fase de grandes mudanças, somos “a mulher do futuro”, mãe, esposa, dona de casa, estudante e que trabalha fora”, pontua a diretora que completa: “Mesmo com todos esses atributos da mulher moderna, ainda não conquistamos o respeito que merecemos”. 

Por este motivo é que as entidades nacionais e estaduais vem a cada dia ampliando a pauta sobre os assuntos pertinentes às mulheres não apenas em suas pautas mas também em seus quadros. 

“Tenho muito orgulho de ter presidido uma entidade como a UEE-SP e fico também muito feliz quando vejo hoje a quantidade de quadros de mulheres nas direções das entidades estudantis. Falta muito, mas tenho certeza de que estamos no caminho certo”, comemora Renata. 

Thatiane Ferrari (UEE-SP)
Foto: Cesar Ogata