Na madrugada do último sábado (8/11), o procurador-geral do México, Jesus Murillo, anunciou o que todos temiam: os 43 estudantes desaparecidos após um protesto violentamente reprimido pela polícia foram brutalmente assassinados. A informação foi obtida no depoimento de três supostos integrantes de um cartel de criminosos que controla a região, detidos pela polícia na cidade de Iguala, no sul do país. Eles revelaram que os estudantes foram conduzidos até um lixão, onde foram interrogados, assassinados e tiverem seus corpos carbonizados.
Em entrevista coletiva concedida na Cidade do México, a capital do país, Murillo disse ainda que os bandidos admitiram a participação de policiais aliciados pelo tráfico na operação. Os estudantes teriam sido entregues à gangue de narcotráfico Guerreiros Unidos pela própria polícia, depois de serem presos em 26 de setembro durante um protesto em Iguala, no Estado de Guerrero.
Para o diretor de relações internacionais da UNE, Thauan Fernandes, o ocorrido no México é mais que uma barbárie nos tempos de hoje. “A ação militar armada no México tem ingerência conhecida da direita do país e age de maneira injustificável. A punição para esse caso, além da busca implacável para explicar detalhadamente o acontecido e seus motivos, se faz extremamente necessária para garantir o amplo direito democrático no país e acabar com o aparelhamento de qualquer força armada para interesses políticos’’, falou.
Murillo afirmou ainda que pelo menos 15 dos desaparecidos já teriam sido entregues mortos por asfixiamento pela polícia aos traficantes, que então fuzilaram o restante antes de queimar os corpos.
O procurador-geral também exibiu os vídeos com a confissão dos integrantes da gangue.
Oriundos da Escola Normal Rural Raul Isidro Burgos, em Ayotzinapa, no Estado de Guerrero – instituição de orientação socialista – o grupo tinha ido às ruas de Iguala em busca de verbas e transporte para participar de manifestações na Cidade do México. Tais manifestações marcavam o aniversário do Massacre de Tlatelolco, em 1968, quando entre 200 e 300 estudantes foram mortos pela polícia durante um protesto.
Os estudantes foram vistos pela última vez sendo colocados em veículos policiais.
O DIA D
O caso provocou a renúncia do governador Angel Aguirra, no último dia 23. Mas a situação mais complicada é a do atual prefeito licenciado de Iguala, José Luís Albarca.
Policiais de Iguala afirmaram que o prefeito deu ordens para a violenta repressão ao protesto dos estudantes para que eles não interrompessem um comício que sua esposa, Maria Piñeda, faria na cidade no mesmo dia. Piñeda, segundo informações da mídia mexicana, preparava-se para lançar candidatura à prefeitura nas eleições do ano que vem.
Albarca pedira licença do cargo em 30 de setembro e fugiu com a mulher em 22 de outubro quando um mandado de prisão foi expedido contra ambos. O casal estava foragido até a última terça-feira, quando foi preso em Cidade do México.
No dia do desaparecimento, o casal havia organizado, na praça central de Iguala, o ato que deveria servir-lhe como estopim para a candidatura eleitoral. Após pedir reforços para a localidade vizinha de Cocula, também sob controle dos narcotraficantes, a polícia soltou sua fúria e, em ataques sucessivos, como se enfrentasse um grupo inimigo, matou a tiros três jovens.
A barbárie continuou depois em uma estrada federal, onde mataram a tiros outras três pessoas ao confundi-las com estudantes. Enquanto isso, dezenas de estudantes foram conduzidos para a delegacia policial de Iguala. Ali o horror voltou a aparecer. Para apagar rastros, os jovens foram entregues para os agentes de Cocula. Estes, mudando as placas de seus veículos e falsificando suas operações, levaram os jovens e os colocaram nas mãos dos Guerreiros Unidos.
HISTÓRICO DE LUTA
Em 1926, como parte de um projeto de combate ao analfabetismo e à pobreza em comunidades rurais, o governo do México criou uma rede de escolas especiais, chamadas de Escolas Normais, em que o objetivo era formar alunos com potencial de se tornarem líderes comunitários.
Das 29 unidades da rede, apenas 13 sobreviveram. Uma delas é exatamente a Escola Normal Rural Raúl Isidro Burgos, em Ayotzinapa.
Da Redação