Para Marcos Bagno, professor do Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução da Universidade de Brasília (UnB), a língua é uma entidade social em constante transformação por nós que a inventamos e reinventamos todos os dias. Uma das principais manifestações da nossa brasilidade, formada por inúmeros sotaques e expressões.

Contudo, a língua também é utilizada como um instrumento de opressão e fonte de preconceito pelas elites, que não aceitam as variedades linguísticas e regionalismos das classes mais baixas, que fogem da norma culta e são consideradas “erradas”. É o que Bagno chama de “preconceito linguístico”.

“Como todo preconceito, o linguístico é a manifestação, de fato, de um preconceito social, porque o que está em jogo não é a língua que a pessoa fala, mas a própria pessoa como ser social”, afirma o linguista. “Rejeitar a língua é rejeitar a própria pessoa e a comunidade de que ela faz parte.”

Confira a entrevista especial com o professor para a 9ª Bienal da UNE:

 O que é o preconceito linguístico?

O preconceito linguístico é a atitude que um indivíduo ou um grupo social assume diante de algum modo de falar que é diferente do seu. Pode ser uma variedade linguística social (usada por determinada classe social) ou regional, mas também pode ser uma outra língua, no caso de sociedades plurilíngues. Como todo preconceito, o linguístico é a manifestação, de fato, de um preconceito social, porque o que está em jogo não é a língua que a pessoa fala, mas a própria pessoa como ser social. Uma vez que a língua é parte fundamental da identidade de um indivíduo e de um grupo social, rejeitar a língua é rejeitar a própria pessoa e a comunidade de que ela faz parte.

 O que é um erro de português?

Na concepção do senso comum, o “erro de português” é qualquer uso linguístico que não esteja previsto nos instrumentos normativos tradicionais, a gramática e o dicionário. No entanto, não existe uma concepção única e homogênea do que seja o português “correto” nesses instrumentos normativos, porque os gramáticos e dicionaristas têm posturas diferentes diante dos usos da língua: alguns gramáticos admitem certas formas inovadoras, enquanto outros ainda as rejeitam, por exemplo. Além disso, a noção de “erro” está muito vinculada à posição que uma pessoa ocupa na pirâmide social. Os usos já bem fixados entre as classes sociais privilegiadas, mesmo quando contradizem as prescrições tradicionais, passam despercebidos e não provocam reações extremadas: ao contrário, a atitude mais geral é do tipo “pode até estar errado, mas todo mundo fala assim”. Por outro lado, se o uso vem das camadas inferiores, nenhuma relativização é possível: é erro e ponto final. Como tudo em sociedade, o que é certo e errado depende de quem utiliza esses rótulos contra o quê e contra quem.

Como se deu o processo de construção da língua portuguesa falada no Brasil? Por quê essa diferença com a língua escrita, formal?

Como país resultante de um processo colonial, a elite brasileira sempre importou seus modelos culturais, e faz isso até hoje. No caso da língua, mesmo após a independência e as tentativas dos intelectuais românticos de valorizar os usos propriamente brasileiros do português, o modelo que acabou vencendo foi mesmo o do português europeu escrito literário. Os linguistas brasileiros sustentam a tese de que já no final do século XIX existia uma gramática própria do português brasileiro, com características bem diferentes da gramática do português falado em Portugal. No entanto, pela rejeição que nossas camadas dominantes sempre tiveram com relação ao que é propriamente nosso, o reconhecimento do português brasileiro como uma língua autônoma e diferente do europeu até hoje encontra forte resistência.

 Qual é a influência dos grandes veículos de comunicação, como a Rede Globo, na criação de um padrão linguístico no Brasil?

A televisão foi um meio de comunicação muito valorizado pela ditadura militar para promover a integração ideológica do Brasil. Com isso, o país se tornou um dos que apresentam a maior cobertura televisiva do mundo. Praticamente toda residência brasileira tem televisão, mesmo as mais pobres e mais afastadas dos grandes centros urbanos. Como braço ideológico da ditadura, a TV Globo se tornou essa potência hegemônica que é ainda hoje, embora já venha sofrendo a concorrência da internet. O padrão linguístico difundido pela TV Globo de fato se firmou como uma espécie de “objeto de desejo” da maioria da população. Ele pretende ser “neutro”, isto é, não ser marcado por nenhum traço regional mais saliente. No entanto, como não existe neutralidade em língua, a pronúncia “global” é de fato uma síntese das variedades do triângulo Rio- São Paulo-Belo Horizonte, com o apagamento das características mais evidentes (como o “S chiado” carioca ou o “R vibrado” do paulistano).

 A criação deste padrão propriamente do Sudeste, o centro econômico e político do país, onde está localizada a própria Rede Globo e os principais veículos de comunicação de massa, incentiva o preconceito linguístico sobre o jeito de falar das outras regiões do país? Existia o preconceito linguístico antes deste padrão determinado pela Rede Globo?

O padrão Globo ajuda a difundir o preconceito, mas é claro que ele já existia desde sempre, como acontece em todos os lugares do mundo: a língua do poder central, a língua de quem detém a riqueza é sempre considerada a boa e a bonita, enquanto todo o resto é jogado na lata de lixo do “erro”.

 No Brasil, nós temos, regionalmente, vários sotaques ou vários dialetos?

Chamamos de “sotaque”, normalmente, diferenças de pronúncia, enquanto o termo “dialeto” é mais amplo, pois inclui diferenças de pronúncia, de construções gramaticais e de léxico. Os sotaques são inevitáveis, porque constituem traços identitários das comunidades de fala. Os dialetos, por sua vez, se formam ao longo do tempo, e a história linguística do Brasil ainda é curta para a formação de dialetos, segundo a definição tradicional do termo. Ainda assim, já é possível detectar características morfossintáticas específicas em diferentes regiões.

Você poderia explicar o que são características morfossintáticas específicas e também especificar em quais regiões é possível identificá-las?

O que chamo de características morfossintáticas é o que se conhece tradicionalmente por “gramática”. Por exemplo, o uso do pronome “lhe” como objeto direto e indireto referido a “você” caracteriza algumas regiões (Nordeste, por exemplo), enquanto é desconhecido em outras (em Minas, por exemplo). No Sul é comum o uso de “nós” como objeto (“ele viu nós ontem na rua”). Na formação do imperativo, predomina no Nordeste o uso das formas derivadas do subjuntivo (“venha, fale, corra”), enquanto no Sudeste-Sul predominam as derivadas do indicativo (“vem, fala, corre”). Em Minas, é comum o apagamento do pronome reflexivo (“eu assustei”, “eu formei ano passado”). Em amplas zonas do Sudeste é comum o não uso do subjuntivo (“você quer que eu faço isso?”), enquanto no Nordeste o uso do subjuntivo está bem preservado, incluindo em construções com “não saber”(“não sei o que diga desse seu comportamento”). E por aí vai…

Da Redação

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