Algumas bandas são as mais bonitas da cidade. Outras, as mais explosivas. Verónica Decide Morrer tirou o pino da granada. O impacto irrompeu o imaginário de mais de 2.500 pessoas que (re) tomaram a Concha Acústica da UFC para salvar a personagem Verónica Valenttino, uma travesti que, de cima do palco, provocou a realidade e despejou toneladas de lirismo, teatro, rock e rhythm&blues. Às 21h10 daquele dia 20 de abril, no primeiro acorde da clássica “Sweet Transvestite”, que abriu o show do grupo no encerramento da Caravana UNE Brasil+10, a até então insuperável Lady Green do Pará, virou passado.

A luta pela vida de Verónica e a sobrevivência da cultura e da liberdade artística estavam representadas naquele dia também pela retomada da Concha Acústica, uma imponente construção inaugurada em 1959 com a presença do Presidente da República Juscelino Kubitschek. Há três anos que não ocorria uma atividade do movimento estudantil naquele palco. Com uma noite de luta pelo direito de festejar e de festa pelo direito de lutar, a Caravana da UNE devolveu o espaço para os estudantes e para toda a população de Fortaleza.

Com as arquibancadas, as laterais e todos os outros lugares possíveis preenchidos pelo grande público presente, a Caravana se despediu do Ceará também ao som regional da banda Sol na Macambira e do grupo de reggae Donaleda.

Do Cariri para a Caravana

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O fim da tarde chegava mas o Sol na Macambira rachava também no cocuruto de quem parou e contemplou, das arquibancadas ainda silenciosas da Concha Acústica, o som delicado da banda vinda de Juazeiro do Norte e que levou para a Caravana da UNE a cultura da região cearense do Cariri.

A banda, criada em 2005, tem uma estrutura familiar e, por isso mesmo, traz esse cuidado ao contar a sua história e de sua região. O pai canta, toca flauta transversal e pife. Os dois filhos, ainda moleques, seguram os tambores. A esposa é percussionista e ao lado dos seus instrumentos um pequenino novo membro da família dorme já embalado pela musicalidade da trupe.

No palco, eles brincam de espada e reisado, declamam poemas, cantam cirandas. Nesse ambiente, a música transcende para uma apresentação teatral cheia de referências carirenses contando a história de seu povo, a crença, a fé, o sofrimento e as manifestações culturais.

O reggae do Ceará

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Para os que gostam do som, sabem que a cena reggae brasileira é bem forte e atuante. O que boa parte não sabe é que o Ceará é um representante fiel dessa cultura. Bandas daqui, como Rebel Lion e Tribe of Lions, já representam a regueira há algum tempo. E casas de shows, como o Reggae Club, localizado perto do Centro Cultural Dragão do Mar, são especializados neste gênero musical e dão espaço para a batida raiz e autoral de bandas locais. Uma das noites famosas do lugar é batizada de “Na ponta da agulha” e só toca pedradas jamaicanas em vinil. Quem passar por lá, vale a pena conferir.

Representando o reggae cearense, foi convocada a banda Donaleda, com mais de 10 anos de estrada, três discos nas costas e reconhecimento do público universitário não só em Fortaleza como em todo o Brasil. O show na Concha Acústica teve momentos de hits e empolgou com todos cantando refrões que falam de problemas sociais e cotidianos, natureza, amor e paz.

Verónica não morreu

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Já com a Concha Acústica completamente lotada, a expectativa era para a entrada no palco da banda Verónica Decide Morrer, que tem recebido elogios no cenário musical de Fortaleza e causado frisson entre os mais moderninhos e também entre quem curte um bom rock’n’roll. O repertório da banda inclui Roberto e Erasmo Carlos, Rita Lee, Amy Winehouse, Etta James e adentra o universo “travesti transexual da transilvânia” do filme “Rock Horror Picture Show”.

Ao lado do seu parceiro nos vocais, Jonas Sampaio, transfiguração de Renato Russo com Julian Casablanca, Verónica Valenttino é a personagem travesti do cearense Jomar Carramanhos. É ela quem conduz o público para uma viagem perturbadora a um cabaré do anti-amor, sem romantismos.

Embora tudo possa parecer impactante, o que Verónica quer mesmo é não morrer e se divertir curtindo um bom rock, como diz a letra de uma de suas músicas, Aqui Jazz Você: “Eu vou dançar no seu velório / E mijar no seu caixão / Fumar as suas flores / E por fogo no salão”. Mais inocente e divertido, impossível. O resto é bobagem.

Assista aos vídeos dos shows de Verónica e Dona Leda na Caravana

De Fortaleza, Rafael Minoro
Fotos: Fábio Bardella e Ivan Russo