Os gritos de ”povo negro unido, povo negro forte”, ecoaram pelo teatro da Universidade Estadual da Bahia (Uneb) na noite da última sexta-feira (3/4), em Salvador, durante a abertura do IV Encontro de Estudantes Negros, Negras e Cotistas da UNE (Enune). Com mais de 500 participantes e uma extensa programação este já é considerado o maior Enune da história da entidade.
”Este encontro faz parte de uma agenda central para intensificarmos a luta anti-racista. Aqui nos propomos a debater políticas educacionais e um projeto de país negro que emancipe os mais de 50% de sua população. Viva o povo negro”, saudou a diretora de combate ao racismo da UNE, Marcela Ribeiro, ao inaugurar a primeira atividade do evento.
Estiveram presentes na mesa de abertura diversos representantes do movimento negro, como o coordenador do Coletivo de Entidades Negras (Cen), Yuri Silva, a coordenadora do coletivo Enegrecer, Geisy Silva, o coordenador do Movimento Negro Unificado (MNU), Erlon Miguel, a representante da Marcha Mundial das Mulheres, Lidiane Samara, o secretário executi da Comissão de Direitos da Comunidade Negras (CCDN), Dj Branco, entre outros.
A presidenta da UNE, Virgínia Barros, o secretário de políticas afirmativas doa Seppir, Professor Ronaldo Barros, o vereador pelo PT/BA, Gilmar Santiago, a presidenta da União dos Estudantes da Bahia (UEB), Marianna Dias, e o reitor da Uneb, professor José Bites também marcaram presença.
Foi consenso entre os convidados a urgência da luta contra o extermínio da juventude negra e a necessidade de barrar o avanço da PEC 171, que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos, foram um dos principais temas abordados pelos convidados.
A presidenta da UNE dedicou sua fala ao menino Eduardo de Jesus Pereira, morador do Complexo do Alemão no Rio de Janeiro, morto aos 10 anos por um tiro disparado por policiais. ”A violência de estado tem classe, cor e endereço certos. Mais um jovem negro e pobre vira estatística numa semana cheia de retrocessos como a aprovação pela Comissão de Constituição e Justiça da PEC 171. Não aceitamos mais esse passo atrás, queremos menos cadeias e mais escolas. Reduzir a maioridade penal é criminalizar a juventude brasileira e negar a ela seus direitos primordiais”, falou Virgínia.
”Não podemos admitir políticas retrógradas. A cada hora dois negros morrem mas a imprensa parece não dar nenhuma valor a isso. Nenhum país sério pode abrir mão de 53% da sua população. A vida do jovem negro não pode ser descartada assim”, reforçou o secretário da Seppir.
UM MINUTO DE SILÊNCIO, MUITOS ANOS DE LUTA
Em fevereiro de 2015, 13 jovens negros e pobres foram mortos pela polícia de Salvador, no episódio que ficou conhecido como a ”Chacina da Cabula”, coincidentemente o mesmo bairro em que acontece o IV Enune.
Para relembrar estes jovens, o secretário executivo da CCDN propôs um minuto de silêncio a todos presentes no local.
”Há muitos anos este bairro, o Cabula,foi um quilombo. Promover este encontro aqui, neste espaço de resistência já é muito simbólico. Precisamos enfrentar o racismo e dizer que chacinas como essa não podem mais acontecer. Querem exterminar nossa juventude e isso não podemos deixar que aconteça”, falou Dj Branco.
PARA FORTALECER
A Uneb foi uma das primeiras universidades a implementar as cotas raciais no Brasil. O reforço desse tipo de política, com ações afirmativas que beneficiem ainda mais a população negra e carente também foi destaque.
Para o reitor da universidade apenas as cotas não são suficientes para atender às demandas e anseios da população negra. ”Tenho orgulho em dizer que a Uneb tem 75% de seus estudantes vindos de escolas públicas. Porém, nossa luta segue para reforçar todos os processos inerentes a estadia na universidade como políticas de assistência estudantil. A estrutura conservadora das instituições no Brasil tem dificultado a popularização, por isso temos que mudar esse quadro reconstruindo os currículos, com cada vez mais participação da população negra. Vamos fortalecer cada vez mais essa luta tão importante”, enfatizou José Bites.
Renata Bars