Olga Benário, Rosa Luxemburgo e Maria Bonita. Mulheres fortes, combativas e revolucionárias que mudaram o seu tempo, sem nunca se esquecerem da sua feminilidade. Com estas referências é que cerca de 90 meninas, entre 13 e 28 anos, fazem parte do acampamento #OcupeBrasília. São mulheres de diversas localidades do país, com sotaques, gostos e costumes diferentes que se complementam na luta por mais investimentos para a educação.
Cabelos, cheiros e cores. A particularidade de cada estudante está presente na organização de sua barraca, na maneira de se vestir e nas fortes e convictas opiniões sobre temas como diversidade sexual e legalização do aborto.
Muitas delas estão na estrada desde a semana passada, quando participaram do 39º Congresso da UBES em São Paulo e, depois, vieram para a capital federal engrossar o movimento #OcupeBrasília, que começou na última terça-feira, 2 de dezembro. Por isso, as trocas de roupas de muitas não estava muito adequada para a total mudança de clima, que pulou de 16° da capital paulista para mais de 30° em Brasília.
Cenas inusitadas
Mesmo com toda estrutura funcional de chuveiros, banheiros, tendas e iluminação já instaladas, acampar em pleno gramado do Congresso Nacional pode trazer algumas situações inusitadas e engraçadas. “Sempre que vou tomar banho, fico pensando se vai passar um helicóptero”, brinca a presidente da União Acadêmica Paraense (UAP), Tamara Figueiredo.
Uma aranha já foi visitar o box do banheiro e vários formigueiros fazem parte do jardim da Esplanada dos Ministérios, agora, jardim também da barraca de cada um dos acampados. Mesmo assim, muitas passam o dia descalças, enquanto participam de plenárias, debates e jogam futebol ou vôlei.
A baiana Letícia Carine Nunes, mesmo sem saber que passaria mais tempo do que o planejado fora de casa, trouxe, extraordinariamente, cinco malas. “Sempre que viajo levo muitas roupas, mas mesmo assim sempre falta. Como não gosto de repeti-las e não estou conseguindo lavá-las, já comecei a criar combinações diferentes”, explica.
Vaidosa, com peças de cores fortes e dona de um estiloso black power, a estudante secundarista não quer descuidar do visual enquanto estiver no acampamento. “Trouxe para o meu cabelo shampoo, condicionador, cremes e pomada. Tenho também várias presilhas de flores que estou combinando conforme a minha roupa”, mostrou.
Acostumada a passar mais tempo fora do que em casa, a diretora da UNE, Carina Vitral, já se habituou com a vida na estrada: “Meu armário é uma mala”, conta, aos risos. Mesmo com a experiência das muitas viagens que faz por causa das agendas do movimento estudantil, a jovem nunca tinha imaginado que tomaria banho de biquíni bem em frente ao Congresso Nacional.
Quando o assunto é unha, a resposta é unâmine: todas precisam fazer. A estudante Kellyn Karoline de Paranaguá (PR), integrante da direção estadual da União Paranaense dos Estudantes Secundaristas (UPES-PR), conta que seu esmalte está em camadas, conforme vai descascando, ela pinta por cima. “É nessas horas que dá a saudade de casa, do chuveiro, secador de cabelos das tomadas na parede…. roupa está complicado, estou usando as menos sujas, lavando as peças menores durante o banho e colocando pra secar na barraca”, conta a estudante, que levou para o acampamento além da sua mala com 8 kg, uma frasqueira de mão.
“Acreditamos nas nossas pautas de reivindicação”
Mas, neste “papo calcinha”, mesmo com a água fria para o banho, a falta de espelho, a chegada da menstruação e a difícil batalha de se trocar dentro da barraca, o olhar de cada garota brilha e o sorriso vem ao rosto quando o assunto é o motivo de estar acampada.
“Mesmo com alguns incômodos, sempre arrumamos um jeito de suportar, tudo isso por acreditar nas nossas pautas de reivindicação”, diz Carina.
As lembranças de cada momento vivido, em especial a chegada ao acampamento é o que marcará para sempre a vida delas. “Fiquei muito emocionada com a nossa chegada, desesperados para montar logo as barracas. Todos ajudando uns aos outros, preparando o acampamento e já pintando com tinta os rostos, reforçando a presença da juventude dos caras-pintadas na Esplanada”, expõe Letícia.
“Não estamos sós, estamos todos juntos, unidos por uma causa que está repercutindo no Brasil inteiro e fora dele”, acredita Kellyn.
O pensamento coletivo e a batalha por conquistas que vão mudar a cara do Brasil e garantir direitos para os jovens é o que move a luta destas mulheres. “Existe algo muito maior do que as necessidades femininas. Este acampamento significa que toda luta, todo sacrifício, tem um objetivo e estamos todos juntos para conquistá-los ”, garante Tamara.
Thatiane Ferrari