Notícia em todo o mundo no ano de 2011, devido às suas gigantescas mobilizações juvenis, o Chile é um dos países de maior tradição na luta popular da América Latina. Os movimentos sociais chilenos, seus estudantes e trabalhadores já enfrentaram uma das piores ditaduras do continente, conquistaram direitos e continuam mobilizados pelas mudanças estruturais do país.

Um dos atuais líderes estudantis da juventude chilena, o diretor de Relações Internacionais da Confederação de Estudantes do Chile (CONFECH) Paul Floor Piquil, alerta para o momento que o país enfrenta: ”Os estudantes têm evidenciado a profunda crise do sistema educacional que se implementou à força durante a ditadura e a impossibilidade do nosso sistema democrático para resolvê-lo”, afirma nessa entrevista exclusiva ao site da UNE.

Na última quinta-feira (19), um novo protesto nas ruas da capital resultou mais uma vez na repressão violenta do governo do presidente Sebastian Piñera, com 21 estudantes presos nos arredores da Universidade de Santiago. A pauta de reivindicações do movimento continua a mesma: educação pública, de qualidade e gratuita.

Leia abaixo a íntegra da entrevista:

Quando tiveram início as manifestações e que setores da sociedade estão apoiando o movimento?

Na realidade, nossa mobilização se iniciou em abril de 2011 com pouco mais de 10 mil estudantes e tem alcançado níveis de convocação que superam as 500 mil pessoas em todo o Chile. Hoje, mais de 90% da população apóia as demandas do nosso movimento. Temos fortes alianças com a central e sindicatos de trabalhadores, com os acadêmicos, reitores e trabalhadores das universidades públicas, e também trabalhadores da educação básica. Somos um movimento amplo que marcha ao lado do mundo social e cultural do Chile. Porém, todos os grandes empresários e a direita se opõem a essas transformações a partir dos meios de comunicação e também a maioria das universidades privadas que vêem ameaçados seus grandes negócios.

Qual é a situação atual da luta dos estudantes chilenos pela educação pública no país?

Hoje os estudantes chilenos estão em um momento de grande dificuldade, mas com uma grande responsabilidade. Depois de mais de seis meses de mobilização social, o governo de Sebastian Piñera não quer ceder às grandes demandas estudantis pela educação pública, gratuita e de qualidade, devido a sua grande intransigência ideológica e à pressão da ultra-direita e dos grandes grupos econômicos do país. A possibilidade de uma consulta popular como plebiscito está proibida pela constituição aprovada durante a ditadura, o que nos deixa com uma democracia muito pobre que não permite a participação cidadã e dá exclusividade ao governo para apresentar leis ao congresso. A representação política do Parlamento está completamente viciada pelo sistema binominal, já que exclui as minorias e permite às duas coalizões políticas – a Concertação [bloco que governou o Chile por aproximadamente 20 anos e teve como última presidente Michele Bachelet] e a Direita -, dividirem entre ambas as vagas parlamentares.

Então, para que exista educação pública, gratuita e de qualidade no Chile, deve-se mudar a constituição, deve-se mudar de Governo, deve-se “renacionalizar” [sic] os recursos naturais que foram privatizados e explorados por empresas privadas durante 30 anos, entre muitas outras coisas. A responsabilidade dos estudantes é justamente se aliar ao resto dos atores sociais para realizar essas grandes transformações, ainda que nos tome vários anos.

Na sua opinião, qual o próximo passo que os estudantes devem dar?

Pessoalmente, creio que é momento de passar a uma fase mais avançada na forma de luta da nossa organização. Devemos ter a capacidade de seguir trabalhando e debatendo nas bases para nos fortalecer como movimento social; continuar a luta e as mobilizações nas ruas; devemos também começar a interpelar fortemente todos os atores políticos e sociais a respeito dessa conjuntura para que em um futuro não muito longe possamos recuperar a confiança que nos permita construir um projeto político para um governo avançado, que melhore as condições de organização dos setores populares. Contudo, tudo isso continua sendo um debate aberto na nossas universidades, que se definirá de maneira democrática por meio  das assembléias realizadas a cada período na CONFECH.

Fale um pouco sobre você, sua história, trajetória no movimento estudantil, seus estudos e um pouco dos gostos pessoais.

Para mim, a política e a militância sempre foram algo bastante próximos. Minha família militou e apoiou a Unidade Popular, de Salvador Allende. Tenho grande admiração por minha mãe que, apesar de ter perdido dois companheiros para a Ditadura Militar, um deles meu pai, segue militando nas organizações de Direitos Humanos no Chile. Eu comecei a militar no ensino médio em 2001, quando tinha 14 anos e nesse ano já saíamos às ruas para pedir melhorias para os colégios e para os estudantes mais pobres do Chile. Em 2003, fui encarregado de presidir o Centro de Estudantes do Internato Nacional do Chile, onde me dei conta da responsabilidade que nós, jovens, tínhamos em transformar a triste realidade educacional, política e social do nosso país. Em 2008 comecei a participar da CONFECH [Confederação dos Estudantes do Chile].

Hoje, curso o quinto ano de Engenharia de Aviação na Universidade Técnica Frederico Santa Mari. Em relação às minhas atividades e gostos pessoais, leio sobre política e história, mas também gosto de ciência e ficção desde o épico até o futurista. Sobre música, escuto de tudo um pouco, desde música popular como Vitor Jara ou Luiz Carlos da Vila, até musica clássica passando também por um pouco de rock, jazz e a imprescindível cumbia do Chile e Argentina. Quando o tempo me permite gosto de correr, ir ao teatro, cinema e tudo que tenha haver com a cultura popular.

Fale sobre sua atuação na CONFECH

Hoje, a tarefa que me cabe desempenhar como Secretário de Relações Internacionais é muito importante para o movimento, entendendo que o Chile tem sido um laboratório de políticas neoliberais para sua posterior implementação em outros países latino-americanos, sobretudo no âmbito educativo. Há mais de seis anos que a Confederação esteve ausente do debate internacional, entretanto, isso tem mudado substancialmente. Atualmente, somos parte ativa da Organização Continental Latino-americana e Caribenha de Estudantes (OCLAE), trabalhando lado a lado com as demais entidades do continente para que eventos e discussões de grande magnitude como foi o XVI Congresso da Oclae tivesse uma grande repercussão e participação, tanto do Chile como o resto do mundo, além de evidenciar a profunda crise social e política que existe no país, pela decisão dos governos de implementar políticas neoliberais.

Em entrevista ao site da UNE, a líder Camila Vallejo afirmou que a diferença entre a geração de vocês atualmente e a geração da Revolução dos Pinguins é a variedade de setores sociais mobilizados e envolvidos. Você concorda com ela? Qual é a sua análise sobre o momento histórico do Chile?

Eu também sou dos que compartilha dessa análise, já que no ano de 2006 o movimento estudantil colocou no centro do debate a crise da educação, mas faltava uma organização que lhe permitisse continuar com as lutas. Contudo, creio que a “Revolução dos Pingüins” construiu muitas das condições subjetivas que hoje nos permitem ter esse nível de massividade e amplitude, já que esses estudantes secundaristas de 2006 hoje são universitários convencidos de que as transformações devem se fazer de maneira organizada e coletiva. O histórico movimento estudantil do Chile em 2011 não é mais que o resultado do processo de acumulação que há mais de 10 anos vem se dando por parte dos estudantes através das organizações estudantis.

 Qual a análise da conjuntura política atual que você faz do Chile?

Hoje, o Chile se encontra em um claro ponto de quebra da estabilidade política que vinha se mantendo há 20 anos depois da democracia, onde os estudantes têm evidenciado a profunda crise do sistema educacional que se implementou à força durante a ditadura e a impossibilidade do nosso sistema democrático para resolvê-lo. A partir da nossa trincheira é que também estamos denunciando a enorme pobreza e desigualdade que existe no nosso país que, apesar das boas cifras macro econômicas de crescimento, tem aprofundado o desemprego com o tempo. Esse conflito tem criado as condições para um crescimento importante dos setores políticos, sociais e populares que rechaçam hoje o modelo neoliberal. A direita hoje vê reduzida a quase zero suas possibilidades de governar no próximo período. Entretanto, falta muito ainda para construirmos as condições objetivas que possibilitem as transformações que aguardamos.

A imprensa internacional noticiou com bastante destaque as atividades do movimento estudantil chileno no ano passado. Como você avalia o papel da imprensa do Chile e do exterior na cobertura das mobilizações?

A cobertura internacional do conflito tem sido muito mais profunda e séria do que a que se dá no Chile. No nosso país, temos um duopólio dos meios de comunicação, controlados pela direita e os grandes grupos econômicos, esses, lamentavelmente têm se preocupado em criminalizar o movimento social mudando o foco da discussão e se centrando na violência. Sabemos, também, que os meios internacionais, que são propriedade de grandes grupos econômicos, têm caracterizado da mesma maneira o nosso movimento. Porém, no geral, o restante dos meios, principalmente, os não ligados a grandes grupos econômicos, destacaram os conteúdos, as propostas e a alegria da nossa mobilização, o que nos têm trazido muita solidariedade e apoio internacional, o que hoje é fundamental para pressionar ao governo. Creio que hoje os meios de comunicação alternativos são muito melhores para buscarmos informações, já que seu enfoque parte da cidadania e não dos interesses criados pelo mercado, por isso é que devemos nos apoiar de todas as formas possíveis e também fazer o debate de como democratizamos os meios para evitar estas situações monopolistas.

Em uma das últimas grandes paralisações, a imprensa local noticiou a atividade de grupos de encapuzados, que atearam fogo em ônibus. O governo tentou ligar esses indivíduos aos manifestantes e tomou medidas violentas durante a paralisação. Como você vê essa situação?

Desde o princípio estamos denunciando, com evidências, o Ministro do Interior, Rodrigo Hinzpeter, que utiliza a polícia e a infiltra em nossas marchas para começar a violência e justificar a repressão policial. Nós condenamos os atos violentos já que hoje nossa luta é política e pacífica, mas aqui há uma clara intenção por parte do governo através do Ministério do Interior de criminalizar e perseguir politicamente aos estudantes, para que a população deixe de nos apoiar.

O movimento Occupy Wall Street tem se espalhado por diversos países do mundo, inclusive aqui, no Brasil. Esse é um movimento que se autodenomina apartidário e não apresenta nenhum projeto político de mudança. Apesar disso, está reunindo pessoas de diferentes classes sociais, idades, formações etc. Qual a sua opinião sobre esses movimentos?

Creio que hoje esses tipos de movimentos são a expressão de que o povo está se dando conta da grande repercussão da crise do sistema capitalista em nível mundial, mas com a ausência de um projeto político próprio que lhes permita passar da indignação à proposta. Quando se disse ao mundo que era o fim das ideologias e as pessoas deixaram de discutir política, gerou-se uma automatização muito grande da sociedade e esta ficou totalmente vazia de conteúdo. Hoje, acredito que não devemos temer a recuperar as antigas bandeiras por um mundo mais justo e igualitário e voltarmos a ser atores políticos relevantes com ideologias e propostas para superar esta etapa capitalista.

Na América Latina, vivemos também um momento de intensas mobilizações sociais da juventude e o Chile é o maior exemplo. Nesse contexto de unidade e protagonismo dos jovens, que caminhos você enxerga para o continente?

Nos encontramos em um momento histórico no nosso continente e é importante fortalecer os processos dos países onde nossas demandas estão avançando, creio que os atores sociais e a juventude devemos trabalhar em conjunto por fortalecer os laços bilaterais e multilaterais entre nossas organizações de maneira que possamos enfrentar em conjunto os problemas que compartilhamos na América Latina, como a pobreza, a desigualdade, a crise mundial do capitalismo, a militarização, o narcotráfico, a falta de educação pública de qualidade, que são só alguns dos desafios que temos que enfrentar. O caminho que devemos tomar é o do cooperativismo regional e criar as condições para seguir nos encontrando em congressos, mobilizações, atividades que nos permitam nos identificar como um só grande povo.

Como você vê a atuação do movimento estudantil no Brasil?

Sempre admiramos o movimento estudantil brasileiro e sua luta histórica social a favor da educação pública e todas as lutas sociais, políticas e culturais, sobretudo no período da ditadura. Venho tendo a oportunidade de ver seu forte compromisso e participação estudantil, como no CONEB e na Bienal de Cultura, nas lutas que atualmente levam a cabo pelo investimento de 10% do PIB e de 50% do fundo social do pré-sal em educação. Os estudantes brasileiros ainda têm o grande desafio de parar a privatização do seu sistema educativo para que não existam mais jovens excluídos da universidade pública. Acredito que hoje a solidariedade que nós estudantes chilenos temos recebido por parte dos estudantes brasileiros devemos agradecer e retribuir nas futuras mobilizações e lutas que nos encaminhem para essa América Latina que queremos.

Da Redação