Quando se trata de carnaval, poucas pessoas têm mais autoridade do que Leci Brandão. Nascida em Madureira, filha de servente de escola pública, Leci foi a primeira mulher a fazer parte da ala de compositores da Mangueira, escola pela qual se apaixonou ainda criança e que modelou a sua posição frente a vida, fortemente marcada pelas questões políticas e sociais que ainda assolam o país.

Criada nos redutos do batuque e da cuíca, o samba sempre teve primazia em sua trajetória, que completa 37anos com mais de 20 discos lançados. Leci, atual deputada estadual pelo PCdoB, também foi uma das primeiras artistas a entoar músicas de protestos, exaltando as mazelas sociais e afinando a cantoria ao lado de estudantes, operários, homossexuais, mulheres e, principalmente, negros.

Muito antes de pensar em fazer política, no entanto, Leci Brandão já tinha forte ligação com a União Nacional dos Estudantes (UNE). Coincidência ou não, foi na sede da entidade, na praia do Flamengo 132, que Leci fez seu primeiro show, ainda quando o prédio não havia sido incendiado e demolido pela ditadura militar. Depois disso, virou artista profissional e mito pelas rodas de samba do país. Ao contrário do que se poderia esperar, Leci sempre acompanhou o movimento estudantil e participou de inúmeros eventos da entidade. Sua última grande participação foi na 7ª Bienal da UNE, em janeiro de 2011.

Na conversa a seguir, a compositora de “Zé do Caroço” e “Atitude” fala sobre a homenagem que receberá da escola de samba Acadêmicos do Tatuapé, em São Paulo, e faz uma reflexão sobre o carnaval, “a única certeza que o brasileiro tem a cada ano que se inicia”. Confira abaixo:

Leci, seu nome é mais do que consagrado no samba brasileiro e este ano você será a grande homenageada do Acadêmicos do Tatuapé, escola de samba da Zona Leste. Como foi receber esta notícia?

A escola comemora em 2012 sessenta anos de casa. Para celebrar a data, resolveram fazer uma homenagem a minha pessoa. Fiquei emocionada, foi um ato inédito, pois nunca havia sido samba-enredo de nenhuma escola, embora sempre associem meu nome com samba e carnaval. Nunca pensei em ter esse tipo de homenagem. A Acadêmicos do Tatuapé é uma escola da Zona Leste, região de São Paulo, que sempre me recebeu de braços abertos e que eu me identifico muito, apesar de ser carioca. Estou comparecendo aos ensaios, fazendo shows, e todas as vezes que apareci na quadra fui recebida com muito entusiasmo. É só alegria. É uma escola pobre, sem recursos financeiros, mas que está organizando tudo com muito carinho.

 

 

 

 

 

 

Identificou-se com a escola?

Identifiquei-me porque é carnaval, Zona Leste, luta e alegria. Já tive a oportunidade de conhecer a comunidade de lá já há muito tempo e sempre compareço às festas e rodas de samba. Um fato curioso é que fui durante muito tempo comentarista de escola de samba e participei do momento em que Acadêmicos do Tatuapé, em 2003, foi campeã do grupo de acesso. Depois de 28 anos, finalmente voltou ao Grupo Especial de São Paulo e esse fato me marcou.

Como foi a escolha do samba- enredo? Participou de algum processo? Sua opinião foi decisiva?

Estive presente na final, mas quero deixar claro que a escolha foi feita pela comunidade e componentes da escola. O samba-enredo é bastante animado, eu fiquei honrada, mas não tive dedo nisso.

Leci, certamente, você é uma das pessoas que mais entendem de carnaval no país. Como você avalia a importância desse evento para o Brasil? Acha que antes o carnaval continha mais a alegria do povo e existia um significado maior na manifestação popular?

Eu acho que quando se fala em Brasil, em qualquer parte do mundo, as pessoas lembram imediatamente do carnaval e do futebol. São fatos que remetem à história do país, principalmente no que diz respeito as alegrias e conquistas. Eu sinto, hoje, uma imensa saudade da época em que o povo podia participar de fato do carnaval. Antes não existia ingresso pago, o povo ia se divertir, levava seu lanchinho e contemplava a festa. Eu sou saudosista, não tem jeito, e lembro desse fato toda vez que assisto a um desfile. Quase não há a presença do povão e isso é muito ruim. Nada contra quem quer pagar, não sou contra camarotes e preços altos para alguns setores privilegiados, mas deve haver um contrabalanço, uma arquibancada que acolha a nossa gente. Eles estão sumindo de uma festa que foi feita para todos.

As escolas, hoje, chegaram a um nível de excelência e tecnologia incontestável. Em contrapartida, as comunidades não se desenvolveram e ainda há muita falta de recurso e políticas públicas voltadas para a área. A senhora concorda com essa premissa?

Concordo e acho que deveria existir uma política pública que pudesse oferecer infraestrutura  para as escolas de samba, principalmente as que carecem de recursos e ajuda de patrocinadores. Mas, em contrapartida, essas escolas deveriam realizar ações sociais direcionadas à comunidade, como aulas no contra turno escolar, por exemplo. Funcionaria assim: o governo faria a proposta para a escola, mas a quadra de samba precisaria oferecer trabalho voltado para a cultura e a educação.

A senhora costuma dizer que o carnaval pertence ao sambista. Mas ele está, de fato, nas mãos do sambista?

O Carnaval hoje está nas mãos de um sistema comercial. Se você for observar, a própria Velha Guarda, que era quem antigamente fazia o papel de cerimonial da escola, que vinha à frente, hoje vem no final da escola. A Portela, aliás, até pouco tempo atrás fazia isso. A gente não vê a participação efetiva da comunidade nas escolas, quem manda, literalmente, são empresários, patrocinadores.

Leci, você é uma das poucas artistas nacionais que é atuante no processo de evolução política no Brasil. Consegue enxergar uma relação entre o carnaval e a luta do povo brasileiro?

O carnaval é o momento da alegria, da revelação. É quase uma epifania no meio daquilo que temos que fazer diariamente e que muitas vezes é maçante: o nosso trabalho. A avenida carrega consigo o poder do sonho. Se a dona de casa está vestida como rainha, ela vai se impor como rainha. Se o pedreiro está trajando uma fantasia de guerreiro romano, ele se comportará como tal. O carnavalesco faz jus a sua fantasia, é o momento do pirata, da bailarina. É até por isso, mas não só por isso, que eu prefiro enredos nacionais, porque o carnavalesco acaba criando a identificação com a própria fantasia, um  início de construção de um sonho. Isso explica não só a relação com a luta do povo brasileiro mas a minha paixão por esse grande evento.

Você tem um histórico de shows em atos políticos e gostaríamos que contasse um pouco isso. Sabemos que a UNE tem dedo nessa história…

Olha que coincidência, o primeiro show que fiz foi no prédio da UNE, lá no Rio de Janeiro, antes de ser incendiado pela ditadura militar. Uma triste história que não combina com carnaval. Depois disso, tornei-me artista profissional e nesse meio tempo, numa média de 37 anos, fui convidada pela UNE inúmeras vezes para me apresentar, até porque há uma marca da questão política e social nas letras que interpreto. Um fato que não esqueço foi quando fui convidada pela entidade para cantar em dois momentos importantíssimos para a história do Brasil, o comício das “Diretas já” e o “Fora Collor”. Nesse último, fiquei tão impactada com a atuação da juventude que fiz uma música para nossos caras pintadas. (* Leci se refere à música Atitude, de 1993)

Entrando no âmbito juventude e carnaval. Qual você acha que é a maior contribuição desse evento para os jovens do país?

A maior contribuição é quando as escolas de samba apresentam um enredo que traga consciência política para a nossa juventude, independentemente da classe social que esse jovem está inserido; quando, através de seus barracões, criam uma economia criativa dando oportunidades até de emprego para que os jovens possam desenvolver atividades; quando, por exemplo, usam o espaço da quadra para fazer ações esportivas, aula de teatro e de música. Além dessas ações objetivas, temos muito o que aprender com o espírito do carnaval. A juventude deve incorporar essa alegria e esperança para construir um mundo mais justo.

Arrisca algum conselho?

Sambem. Sambem bastante. Toquem, sapateiem. Mas, não deixem de estudar nunca, porque o saber é a única que se leva pro resto da vida.

Patricia Blumberg