Quem esquecer um pouco a porta dos fundos, dar um passo atrás e quiser adentrar a história do rap pela da frente, basta digitar no Youtube “Sistema Negro – Verão na VR”. Quase vinte anos depois, uma das mais importantes músicas do rap nacional (a clássica faixa 8 do álbum A Jogada Final, de 1997) está lá, com nova roupagem nas bases e, agora, também vestida em um vídeo clipe inédito que, finalmente, apresenta ao público a famosa personagem Vila Rica.

A VR –como ficou nacionalmente conhecida depois de a música ser exaustivamente tocada na programação da 105 FM, a rádio de Jundiaí (SP) que fez história dando espaço para o rap e a música negra–, foi o primeiro bairro projetado de habitação popular do interior do Estado de São Paulo no final da década de 1960.

Ou seja, é a primeira vila da Companhia Metropolitana de Habitação, a Cohab, fora da capital. Lugar em que “o bom e velho banco se encontra no mesmo lugar” e “pretos de todas idades e tamanhos assistem seus filhos e netos tomarem aquele banho de mangueira”. Mas, também, onde “as barcas já fazem parte da paisagem” e “assusta os usuários sempre de passagem”.

Gravado em apenas cinco dias do mês de novembro de 2011, a pegada documental do vídeo clipe tem a sua verve no diretor Fábio Bardella, jovem cineasta ligado a produções e projetos independentes com essa característica, inclusive, alguns deles em parceira com a UNE (veja aqui e aqui).

SANTO FORTE


Com uma equipe enxuta e orçamento zero, Bardella conta que todo o processo de filmagem foi ambiente fértil de troca, dedicação e confiança mútua entre todos os envolvidos. “Depois de uma jornada como essa, você sai mais referenciado, querendo se aprofundar no universo do rap, que muito tem a ser explorado”, diz.

Tanto é que ele meteu as fuças na recém lançada biografia do músico Sabotage. Do livro, saiu aquela historinha mística a ser contada aos filhos e netos. No último dia 18 de setembro, a caminho do Pará, onde Verão na VR concorria no Festival de Audiovisual de Belém, leu uma passagem quase profética sobre a música e o grupo Sistema Negro, referências para o maestro do Canão e o rap brasileiro. O vídeo levou os prêmios de melhor clipe júri popular, melhor roteiro e menção honrosa de fotografia.

Bardella lembra também do último dia da filmagem, a cena final, da festa na quadra da Vila Rica, com a molecada, as tias, os tios e vários moradores que foram prestigiar. Tudo pronto e lá em cima o céu cinza, carregado, nervoso. Foi gravar o último take, falar corta, e a água caiu. No fim, tudo deu certo. “O santo do rap é forte”, reza o diretor.

A VILA DE CADA UM DE NÓS


Uma curiosidade é o fato de quase 20 anos depois a Vila Rica parecer manter a sua essência de que “união e amizade são os aliados para vencer qualquer barreira”, como diz a letra de Verão na VR. Para o produtor, Felipe Koehler, um dos responsáveis pela ideia de gravar o clipe, é também esse caráter atemporal da música que torna o vídeo especial. “São as mesmas famílias que moram lá. Todos lutadores brasileiros”, conta, destacando a participação e colaboração dos moradores. “Mas os problemas ainda são presentes”, observa.

Um prova desta atemporalidade da música está na premiação pelo júri popular no Festival de Belém. O público é bem distante da realidade de Campinas, não conhece a Vila Rica e, talvez, sabiam um pouco sobre o grupo Sistema Negro. O central, no entanto, na visão de Koehler, são que “as imagens remetem a algum ponto da vida de cada um de nós”.

E lá estão as crianças, as pipas, o pião, a bike e as bolas de gude, o grafite, a sinuca, as fachadas simples e coloridas das casas, a Dona Maria dos conselhos, a igrejinha e o churrasco da turma. Toda a Vila sendo revisitada quase 20 anos depois em um encontro de gerações guiado pela participação especial de Rappin Hood e a frequência da rádio 105 FM.

ASSISTA AO CLIPE DE “VERÃO NA VR”

Rafael Minoro