Na manhã da última quarta-feira (4), São Paulo amanheceu com um colorido diferente. Por volta das 8h já era possível notar o aumento no fluxo de carros e ônibus que traziam para a zona sul da cidade os personagens principais de um acontecimento memorável. Ali, próximo à Assembleia Legislativa, milhares de estudantes já iniciavam a Jornada Nacional de Lutas, mobilização realizada anualmente pela UNE, UBES E ANPG, tendo como principais pautas a redução das altas taxas de juros e a melhoria da educação no país.
Sob as palavras de ordem “É ou não é/piada de salão/ tem dinheiro pra banqueiro, mas não têm pra educação’’, membros das entidades estudantis animavam o ato que pedia por mais investimentos no setor.
Para a presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas, Manuela Braga, a Jornada de Lutas demonstra toda a força dos jovens. “A juventude é irreverente, é alegre, canta, dança e beija na boca. E a juventude também sai às ruas por menos juros e mais educação’’, entoava do carro de som.
Para o presidente da UEE-SP, Alexandre Silva, a mobilização na capital econômica do país é de grande importância. “O Brasil precisa de investimentos em educação para se desenvolver cada vez mais. Não é com juros altos que conseguiremos isso’’, salientou.
“TRABALHADOR É MEU AMIGO, MEXEU COM ELE, MEXEU COMIGO”
Após esse primeiro ato, os estudantes seguiram em marcha até o estacionamento da Assembleia Legislativa, somando-se ao movimento “Grito de Alerta – em defesa da produção e do emprego”, com a presença das centrais sindicais (CUT, CTB, UGT, FORÇA SINDICAL) e de entidades industriais como a FIESP e ABIMAQ.
Entre as reivindicações do movimento, estão o problema da desindustrialização que afeta gravemente o setor produtivo nacional, o controle do câmbio, os altos juros brasileiros e a competição desleal com os produtos importados, que em muitos estados recebem incentivos fiscais do próprio governo.
“Hoje, os estudantes se juntam aos trabalhadores para lutar contra as taxas indecentes de juros praticadas no país, para fazer com que o Brasil invista mais em educação. Esse Brasil que ultrapassou a economia da Inglaterra, sendo hoje a sexta maior economia do mundo, não pode ter uma indústria que representa apenas 15% do seu PIB’’, declarou o presidente da UNE, Daniel Iliescu.
Na última terça-feira (3), a presidente Dilma Roussef anunciou uma série de medidas para estimular a indústria nacional, como a diminuição da taxa PIS/COFINS para 1%, redução da alíquota ICMS interestadual, estímulos ao investimento em infraestrutura para portos e ferrovias, com desoneração do IPI para produtos sem similar nacional, entre outras. No entanto, para os trabalhadores as medidas tomadas não foram suficientes.
‘’As medidas foram positivas, mas ainda é preciso ir além para sanar o problema da competitividade com os produtos importados. Por isso, esse movimento, por isso digo que é de grande sensibilidade do movimento estudantil se juntar a essa luta, um grande ato de cidadania’’, pontuou o presidente da FIESP, Paulo Skaff.
Segundo o presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Vagner Gomes, é necessário que o governo deixe de abastecer os bolsos dos banqueiros. ‘’Eles (os banqueiros) já tem muito dinheiro, já chega. O Brasil precisa de investimentos pra produzir, precisa dar preferência ao produto nacional”, destacou.
O intuito da junção dos movimentos, estudantis, sindicais e industriais é o de sensibilizar o governo e a sociedade em relação efeitos negativos da falta de competitividade imposta à indústria brasileira no próprio mercado interno.
De acordo com o deputado federal e presidente da Força Sindical, Paulinho da Força, a unidade dos movimentos é fundamental para pressionar o governo. ‘’O movimento estudantil é parte importante nessa mobilização, pois eles serão os trabalhadores de amanhã. Solucionar o problema na indústria agora é uma forma de garantir empregos no futuro’’, afirmou.
A Jornada de Lutas em São Paulo ficará marcada na história por unir estudantes e trabalhadores em um só objetivo, lutando pela educação e pelo emprego, em defesa do desenvolvimento nacional.
PRÓXIMOS ATOS
O Movimento Grito de Alerta também percorrerá outras cidades brasileiras. Durante as próximas semanas, estão previstas manifestações para Belo Horizonte (12 de abril), Manaus (13 de abril) Salvador (a definir), Recife (a definir) e Brasília (10 de maio). Além disso, as comemorações do 1º de Maio Unificado deste ano terão como pauta principal o problema da desindustrialização.
Renata Bars