A UNE chega à 9ª edição da Bienal madura para refletir sobre a cultura brasileira e suas diferentes nuances. Mais do que uma junção de etnias, o Brasil é uma nação singular, ajustada em um território amplo para nele viver e fazer sua história. Foi essa gente composta de índios, brancos, negros, mulatos de muitos tipos que fundou esse país de todas as cores, sotaques, cheiros e sabores.

A diversidade faz parte do vocabulário brasileiro há tempos. Hoje, depois de muita luta, esses grandes mundos começaram a ser reconhecidos em diversas linguagens, entre elas a arte, ganhando forma e espaço. Se e o caminho é a diversidade e a bola da vez é o maior festival estudantil da América Latina, há como traçar por aí todos os percursos que a Bienal da UNE já percorreu nesses 15 anos de atividades.

O site da UNE irá relembrar, ao longo de oito semanas, as histórias e momentos marcantes das oito edições do festival. Como a semana é a da Consciência Negra, em homenagem à Zumbi dos Palmares, o site irá quebrar o protocolo linear dos fatos e publicar as lembranças da 5ª Bienal da UNE , que aconteceu no Rio de Janeiro e cujo tema foi “Brasil-África: um Rio chamado Atlântico”.

Esse tema conversava com a importância de se refletir os elementos que compõem a formação da cultura popular brasileira a partir da influência africana. Confira abaixo como foi o enredo da 5ª Bienal da UNE e se prepare com o que está por vir com a 9ª edição, que acontecerá também em terras cariocas, entre os dias 26 de janeiro e 1o de fevereiro de 2015. Confira aqui mais informações sobre o evento.

BRASIL E ÁFRICA: UM RIO CHAMADO ATLÂNTICO

“Nós, brasileiros, somos um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos viveu por séculos sem consciência de si… Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros…”
Darcy Ribeiro, em O Povo Brasileiro

Os estudantes brasileiros cruzaram o oceano e embarcaram nas paragens de Gana, Angola, Zaire. Em 2007, deu-se início a 5a Bienal de Cultura da UNE, que trazia na bagagem o tema “Brasil África: um Rio chamado Atlântico”.

Oito mil jovens se encontraram na histórica região da Lapa, no Rio de Janeiro, para participar  desta edição, que trouxe mais de 40 debates, oficinas e mostras universitárias. Gigante, a Bienal contou com a presença de cerca de 170 convidados, entre eles o célebre escritor angolano Ondjaki; o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães; os músicos Marcelo Yuka e B Negão; o cineasta da pesada Zózimo Bulbul; e os dramaturgos Amir Haddad e Augusto Boal.

Tiago Alves, na época coordenador geral da Bienal, lembra que a construção da 5ª Bienal se deu com uma certa antecedência,  o que garantiu um bom projeto, um prazo razoável para captação de recursos, a estruturação de uma equipe razoável operando da sede, tempo para articular todos os entes envolvidos e preparar a atividade com excelência:

“A secretaria inicialmente foi em um ambiente bacana, dentro do DCE da UFRJ na Praia Vermelha, com um buteco em baixo e roda de samba toda quinta a noite. Depois, passamos para  um andar na Fundição Progresso, o QG da atividade que também passou  pela Biblioteca Nacional, o Circo Voador, o Cine Odeon, e em diversos teatros e centros culturais da Lapa.”

O ministro da Cultura, Gilberto Gil e o diplomata africanista Alberto da Costa e Silva (autor do livro que deu título à Bienal) também participaram do encontro. A Bienal ainda homenageou grandes personalidades da cultura afro-brasileira, como o escritor, artista plástico e ex-senador Abdias do Nascimento; a entidade religiosa Mãe Beata de Iemanjá; e os sambistas Martinho da Vila e Dona Ivone Lara.

Beth Carvalho passou por lá, numa histórica apresentação gratuita nos arcos da Lapa, junto com Martinho da Vila, para mais de 15 mil pessoas, comemorando os 70 anos da UNE. A programação musical ainda contou com Lenine, Naná Vasconcelos, Los Sebosos Postizos, Ilê Aiyê, Mr Catra e Ponto de Equilíbrio.

Foram 1.304 projetos inscritos para as mostras universitárias, recorde em relação às edições anteriores. Classificaram-se 237 trabalhos, desenvolvidos por 440 estudantes de todo país. A passos largos, a Bienal mostrou a força da cultura estudantil e se firmou como um dos principais eventos culturais do país.

CULTURATA HISTÓRICA

A Culturata, que tradicionalmente encerra as Bienais da UNE, ganhou nessa edição um motivo a mais para reunir os estudantes. Depois de 43 anos, a UNE retomou a sua sede, demolida pela ditadura militar. Antes disso, cerca de 5 mil pessoas caminharam pelas ruas do Rio de Janeiro, colorindo a cidade com poesia, musica, teatro e circo.

Gustavo Petta, presidente da UNE na época do evento, recorda que o Rio de Janeiro foi um tempero especial para a realização dessa atividade: “Em pleno calorzão carioca, em janeiro, a UNE promoveu o maior festival estudantil da América Latina bem debaixo dos Arcos da Lapa. O interessante foi que no processo de escolha do Rio para sediar a 5a Bienal, já levávamos em conta a possibilidade de fazer um ato, uma atividade cultural ali na Praia do Flamengo, um show de protesto como parte da luta pela retomada do terreno da UNE”, recordou o atual deputado federal, que ainda acrescentou:

“A ideia foi amadurecendo e as condições sendo criadas para a ocupação. Conseguimos uma grande conquista, logo no início de 2007, em uma movimentação rápida, quando pressionamos a prefeitura para fechar o estacionamento. Isso foi criando condições, muitas ex-lideranças estudantis, ex-militantes, ativistas, artistas foram nos dando força, apoio para que isso realmente acontecesse. Acho que a soma de todos esses fatores nos levou a tomar a decisão de derrubar o portão, entrar na força e dar início a ocupação. Tudo isso dentro de uma Bienal, olha que loucura!”

Da Redação