No último sábado (02/08) a mesa Memórias do Cárcere: 50 anos do golpe, emocionou o público da 12ª Festa Literária Internacional de Paraty, (FLIP) um dos mais importantes encontros literários do país, que terminou neste domingo, na cidade de Paraty, no Rio de Janeiro.
Apesar do humor ter sido o tema principal desta edição do evento, que homenageia o multifacetado jornalista Millôr Fernandes, a programação abriu espaço para discussão sobre os 50 anos do Golpe Militar. Na mesa deste sábado os convidados foram o jornalista Marcelo Rubens Paiva, o jornalista Bernardo Kucinski, e Persio Arida. Três sobreviventes do período mais nefasto da nossa história que refizeram suas memórias de tempos que ainda não passaram.
Marcelo que é filho do deputado Rubens Paiva, cassado, perseguido e morto pela ditadura em 1971, começou sua fala lendo um texto seu publicado no jornal Estado de São Paulo. Com a voz embargada e parando seu relato durante vários momentos sem conter o choro ele falou que a verdadeira heroína da sua história foi a mãe. Eunice Paiva também foi presa durante o período, e depois do “desaparecimento” do marido virou uma verdadeira referência para outros perseguidos políticos e nunca deixou esmorecer a luta por notícias sobre o parlamentar. “Se a história é a narrativa dos vencedores, a literatura é a versão dos vencidos” lembrou citando Nicolau Sevcenko. Marcelo está escrevendo um livro sobre a mãe que hoje sofre de alzheimer. Ele foi aplaudido de pé pelo público presente na Tenda dos Editores.
Para ele o crime foi cometido contra a humanidade e não apenas contra a família Rubens Paiva.
O ex-professor da USP, Bernardo Kucinski, lançou em 2011 o romance K., onde mistura ficção e realidade contando a história da busca pela irmã, que também “desapareceu” durante a ditadura. Ele explicou que colocou na narrativa da busca de um pai por sua filha toda a angústia que sua família passou. Ele falou sobre o trauma que os “desaparecimentos” causavam na sociedade. “Era como se houvesse um demônio levando as pessoas embora e não se sabe para onde”, disse.
Já Persio lembrou de sua própria experiência como “desaparecido”. Militante da VAR-Palmares, organização política armada brasileira, ele apesar de ter ficado escondido, acabou preso e torturado.
Eles concordaram que apesar dos anos passados e da retomada da democracia a tortura pessoal de suas vidas ainda continua. “Mesmo que haja respostas, que haja a revisão da Lei de Anistia, você, a sua família e a história continuam sendo torturadas”, afirmou Paiva.
Kucinski afirmou que vivemos hoje a última estratégia da Ditadura. Para ele não houve uma revisão ou uma resistência que acabou com a Ditadura, ela se enfraqueceu e se metamorfoseou em outra coisa por vários outros motivos. “Os grupos dominantes que apoiaram o golpe são os mesmos de hoje. As Forças Armadas não se reciclaram, não foi substituída a Doutrina de Segurança Militar por uma civil. Substituíram a ditadura militar por uma midiática”, afirmou.
Cristiane Tada
Foto: Tatiana Lazzarotto