Como um convite ao passado submerso de histórias pessoais atravessadas pelo regime ditatorial brasileiro nos anos 1970, com o objetivo de homenagear jovens mortos e desaparecidos da época, dois grandes documentários serão atração da abertura do 14º Conselho Nacional de Entidades de Base (CONEB), em Recife. “Repare Bem” e “Arquivo Honestino Guimarães” serão transmitidos dia 18 de janeiro, sexta-feira, durante o esperado lançamento da Comissão da Verdade da UNE, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

“Repare Bem”, da portuguesa Maria de Medeiros, tem noventa e cinco minutos e foi gravado no Brasil, Itália e Holanda, entre janeiro e outubro de 2011, resgatando a trajetória da família de Denise Crispim, sua filha Eduarda Ditta Crispim Leite e seu ex-companheiro Eduardo Leite, o “Bacuri”, torturado por 109 dias e assassinado duramente pelos militares. Os relatos e personagens da trama revelam os aspectos mais cruéis desse período da história brasileira, em um documentário que contribui para os crescentes debates sobre o resgate da memória no Brasil e a reparação das famílias brutalizadas pelo Estado à luz da época. (Mais informações aqui)

Já “Arquivo Honestino Guimarães”, de dezessete minutos, foi gravado em 2007 aqui no Brasil pela diretora Paula Damascena. O curta conta a história do triste desparecimento de Honestino Guimarães, líder estudantil e presidente da UNE nos anos 1970. Com música de Tom Zé, do grupo Face da Morte, “Arquvio Honestino Guimarães” mistura depoimentos, imagens de arquivo e imagens atuais, que revelam o caso de um dos 125 “desaparecidos políticos” no Brasil. (Mais informações aqui)

EDUARDO LEITE, O BACURI

Eduardo começou a militar desde adolescente na POLOP (Política Operária) e, depois de servir ao exército, em 1967, ingressou na militância e na luta armada como integrante da organização Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Bacuri, como era conhecido devido aos seus grandes e bonitos olhos azuis, também participou das ações da Aliança Libertadora Nacional (ALN), dirigida por Carlos Marighella.

Depois de participar da luta contra a ditadura e dos episódios dos sequestros do cônsul do Japão em São Paulo, foi preso por oficiais da ditadura em 1970, no Rio de Janeiro, e entregue à equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury. Bacuri era considerado pela repressão como o mais perigoso dos militantes e foi o preso político mais torturado da história do Brasil: durante 109 dias, foi constantemente levado a centros de repressão do DOI-CODI, prisões e casas isoladas.

Seu corpo, encontrado no litoral de São Sebastião, São Paulo, foi entregue à família em um caixão lacrado, na tentativa de esconder o que ele havia sofrido nas mãos dos que trabalhavam para o estado de exceção.

HONESTINO GUIMARÃES

Honestino Guimarães é um dos símbolos recentes da história política brasileira. Passou no vestibular para o curso de Geologia na Universidade de Brasília (UnB) em 1965, um ano depois da instalação de militares no Governo Federal, e começou a militar ativamente no movimento estudantil. Exemplo de persistência e ousadia, foi presidente da UNE em 1969, após seu antecessor, Jean Marc von der Weid, ser preso.

Ao terminar seu mandato, transferiu-se para o Rio de Janeiro e passou a viver na total clandestinidade. Continuou, contudo, coordenando encontros estudantis e lutando contra o regime militar até ser preso pela CENIMAR, em 10 de outubro de 1973.

Quase quarenta anos depois – sem que os estudantes tivessem notícia de seu paradeiro, sem que sua mãe pudesse enterrar seu corpo – graças à abertura de arquivos da ditadura militar, supõe-se que Honestino Guimarães tivesse sido morto no ano de 1974 e levado, junto com outros combatentes pela democracia, para ser enterrado às margens do Rio Araguaia, ao lado dos que tombaram na Guerrilha do Araguaia.

SOBRE O CONEB

Como atividade integrada à 8ª Bienal da UNE, Recife e Olinda receberão, nesse início de 2013, um dos principais fóruns do movimento estudantil brasileiro, o 14º Conselho Nacional de Entidades de Base (CONEB). São esperados cerca de quatro mil estudantes representando Diretórios Acadêmicos (Das) e Centros Acadêmicos (CÃS) de universidades de todo o país em uma programação de conferências, debates, grupos de discussão e plenárias entre os dias 18 e 21 de janeiro. O tema do 14º CONEB é “Reforma Universitária: de Córdoba aos dias atuais”.

SERVIÇO

O que? Doc “Repare Bem” e “Arquivo Honestino Guimarães”
Quando?
Dia da abertura do CONEB, 18 de janeiro, sexta-feira, a partir das 18h
Onde?
Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) , em Recife

 
Da Redação