O sábado(30/03) , segundo dia do EME, começou animado com a chegada das participantes de São Paulo e do Rio Grande do Norte. A mesa sobre “Feminismo: nossa força e nossa voz!”, começou às 10 horas e trouxe como convidadas Analú Faria da Marcha Mundial das Mulheres (MMM), Maria das Neves, diretora de Cultura da UNE e militante da União Brasileira de Mulheres (UBM) e Caroline Castro da diretoria de Mulheres da UNE.
Para Analú Faria participar do EME foi um momento de muita alegria e de ver o feminismo renovado em mais uma geração. Segundo ela pensar sobre a essência e a natureza da luta feminista, parte da constatação de que todas vivemos uma opressão por serem mulheres. “O que justifica e motivou é essa existência de opressão. Por isso não há como olhar a opressão das mulheres sem olhar os outros tipos de opressão”, destacou.
Analú destacou a articulação entre as várias opressões. “Precisamos entender o que é o patriarcado hoje, como ele atua?”, questionou.
Santas e putas, virtuosas e profanas, brancas e negras
Para a militante da Marcha Mundial das Mulheres o patriarcado está relacionado se as mulheres expressam ou não seu desejo. De acordo com ela o julgamento de santas ou putas não ter a ver com prostituição, “porque as mulheres não se prostituem por prazer”, destacou.“Temos que avaliar o quanto nosso corpo, nossa sexualidade, está a favor do capitalismo e dos homens”, ressaltou ainda.
Analú questionou a lei que propõe a legalização da prostituição. “A lei propõe que as prostitutas atuem de forma autônoma de cooperativa. Não tira da marginalidade, tira da complexidade o tema e ignora uma máfia e uma indústria do sexo”, afirmou.
De acordo com ela as mulheres continuam sendo vistas as negras como as gostosas e as loiras como as burras. A militante afirmou também que hoje, não se discute de forma mais coletiva o movimento feminista, fala-se muito na violência contra as mulheres pobres, e é claro que são em maior número, mas as ricas também sofrem e é preciso ter consciência disso.
Feminismo x capitalismo
De acordo com Analú ainda o capitalismo incorporou não só o patriarcado, mas o racismo, o paternalismo e a questão da sexualidade.
Caroline concordou também. “É importante entender o debate da luta feminista é anticapitalista. Sabemos que a opressão das mulheres é anterior ao capitalismo, mas o capitalismo se apropriou principalmente da construção de gênero, para sermos colocadas nas funções que nos foram destinadas. Nas tarefas de cuidado e de reprodução.”, ressaltou.
A estudante lembrou que até a criação da Secretaria de Políticas Públicas para Mulheres a luta era invisível. “Os avanços tem que ser no âmbito estrutural, avançar nos serviços públicos, porque nós somos as que mais precisamos deles”, afirmou.
Para Caroline é indissociável relacionar o feminismo com a divisão de classes. “A socialista que não é feminista carece de amplitude e a feminista que não é socialista carece de estratégia”, finalizou.
Maria também afirmou que a fragmentação das mulheres é tudo que o capitalismo quer. “Temos várias especificidades, negras, do campo, lésbicas, da periferia, mas a opressão é a mesma”, destacou.
A diretora da UNE disse que para mudar a realidade das mulheres hoje só eleger uma presidenta não basta, mas é necessário se estabelecer um programa contra a divisão sexual do trabalho.
Além disso, para ela estamos construindo mais uma página da nossa democracia. “Está muito errado quem pensa que a democracia no Brasil está muito garantida, ela ainda está sendo consolidada. Há apenas 81 anos garantimos nosso direito ao voto. Nós somos 51% do eleitorado e da população economicamente ativa e 10% do parlamento apenas. A reforma política é essencial”, afirmou.
União e bandeiras
Aberto para intervenções o debate esquentou entre argumentos e motivações para a luta feminista. Mas o consenso final foi o da união entre as mulheres da UNE. “Temos mais bandeiras que nos unifiquem do que nos desagreguem. A nossa mulherada tá na rua, nesse momento de mobilização das massas. Temos que sair daqui mais mobilizadas, mais feministas e mais unificadas, para dizer para o governo que nós queremos mais”, afirmou Maria.
Maria lembrou que as mulheres são as mais afetadas pela mazelas sociais e por isso são ela que precisam apontar para uma nova sociedade possível. “Somos nós que temos que dizer que essa nova sociedade é possível. Ainda sim, o feminismo é uma luta de todos. A luta de construir uma sociedade que homens e mulheres tenham direitos iguais não só no papel”, ressaltou.
Cristiane Tada