Quando completaria 100 anos de vida, Luiz Gonzaga vem recebendo inúmeras homenagens, entre elas a da oitava Bienal da UNE, em Pernambuco. Foi agraciado em forma de shows como “Lua e Eu”, do conterrâneo Alceu Valença e celebrado na abertura do Festival do Rio com o filme Gonzaga – De Pai para Filho, de Breno Silveira. Porém, faltava ser eternizado pelo teatro. Essa responsabilidade caiu nas mãos de João Falcão, autor e diretor do espetáculo “Gonzagão – A Lenda”.
Desde que foi convidado pela produtora Andrea Alves, da Sarau Agência de Cultura Brasileira, há dois anos, para criar um musical sobre Luiz Gonzaga, ele se sentiu livre para tratar mais do mito do que do homem. “Era a lenda que eu queria registrar, não ser uma espécie de Wikipédia”, avisa ele, que evitou qualquer didatismo na construção do texto, embora tenha lido vários livros sobre um dos artistas mais importantes da música brasileira, morto em 1989.
Entre as mais de 50 canções que estão na peça, há sucessos como Cintura Fina, O xote das meninas, Qui nem jiló, Baião, Pau-de-arara e sua mais célebre criação, Asa Branca. “O mais doloroso foi ter que desescolher uma canção de Luiz”
Sobre o novo momento que o nordeste vive, Falcão foi enfático: “Esse processo de viver e ouvir Gonzagão, de voltar para a minha terra, me fez sentir como se eu fosse a própria volta da asa branca”.
Confira a entrevista completa com João Falcão:
Falcão, com todas as homenagens a Luiz Gonzaga no ano de seu centenário, o senhor foi o primeiro a faze-lo pelo teatro. Como recebeu o convite para fazer o espetáculo?
O momento em que eu recebi a proposta era uma época em que eu já havia planejado não pegar mais trabalho algum. Acontece que o tema é a minha área e foi irrecusável. Eu pensei; rapaz, esse trabalho tem que ser meu, eu que vou fazer isso. Porque me sinto com muita propriedade para isso. Eu me sinto tão a vontade com o tema que eu poderia reinterpretar Gonzagão sem problemas, com liberdade, e isso pra mim foi o fundamental para aceitar a proposta.
Como foi o processo da pesquisa do tema?
Durou muito tempo porque o projeto demorou para se concretizar. Tive que pesquisar muito, ler muitos livros, escutar todos os discos e resgatar o que eu já sabia.
Como foi feita a escolha do repertório musical? Foi baseado nas suas ou nas preferências do povo?
A escolha do repertório foi a parte mais difícil. Muita coisa boa, muitos clássicos, muita coisa menos conhecida, mas igualmente preciosa. É muito doloroso ter que desescolher uma canção do Luiz. Algumas não podiam deixar de ter, como Asa Branca e Baião; outras nem eu conhecia e eu tive que encaixar para o público conhecer. A gente chegou a ensaiar muito mais músicas no que tem na peça e a gente sempre sofre.
O que achou do resultado final da peça?
Gosto muito. Mas sou suspeito, meu envolvimento é enorme. Adoro o elenco, a equipe, as escolhas. Estou apaixonado. Mas, sempre falta coisas e a gente sempre vai adaptando para melhorar. Eu nunca paro de mexer no resultado final.
Você é natural do Recife. Qual a importância do São João na sua vida?
O São João sempre foi a festa mais importante, principalmente no interior, onde vivi infância e juventude. Era no São João que a minha casa virava um festão. E ainda é.
Está com outros projetos paralelos?
A estreia de “Gonzagão, a Lenda” coincidiu com a volta ao Rio de “Ensina-me a Viver”, no Imperator, e “Clandestinos”, no Teatro Ipanema. Ano passado ainda estreamos a segunda temporada de “Louco Por Elas” na TV Globo. Mas confesso que meu grande projeto paralelo no momento é descansar um pouco.
Você é nordestino. Como enxerga o novo momento da região?
Eu me sinto a própria Asa Branca voltando. Eu fui trabalhar em outro lugar e quando a gente estava apresentando a peça no teatro Santa Isabel eu vivi esse sentimento, me senti a própria volta da asa branca. Ainda temos muitos problemas, principalmente na área do teatro, mas acredito que estamos melhorando em muitos setores.
Patrícia Blumberg