Aos 71 anos de idade e já tendo rodado um bocado dessa estrada da vida, José Domingos de Morais é uma dessas pessoas que tentam não chamar muita atenção, mas são inevitavelmente contrariadas pelo próprio talento. Sanfoneiro ícone do Brasil atualmente e apadrinhado do mestre Luiz Gonzaga, Dominguinhos, como é chamado, tenta desconversar, nessa entrevista para o documentário acadêmico “Inspirações do Fole”, sobre o tamanho de sua importância para a música brasileira e internacional:
“A cantora Elba Ramalho disse que você é o maior acordeonista do mundo. Como você reage?”, pergunta a reportagem. “Eu recebo bem porque não sou. (risos) Acho que ela enche a minha bola”, responde o músico, escorregando como manteiga.
Mas escorregar não é tão fácil. Não é apenas a importante opinião de Elba que desafia a modéstia desse pernambucano, nascido em Garanhuns em uma família de 16 filhos e que chegou ao saguão dos imortais da música brasileira. Vencedor de um prêmio Grammy, quatro prêmios Sharp e um prêmio Shell de música, com mais de 30 álbuns gravados e 50 anos de carreira, reverenciado por Gilberto Gil, Chico Buarque, Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Veloso e todos os nomes máximos da MPB, Dominguinhos não cabe atrás de si mesmo.
Ainda assim, a humildade transborda quando se trata de relembrar a própria vida a jovens estudantes de jornalismo, como fez no conteúdo que vai logo abaixo. Dominguinhos diz sobre a sua relação com a sanfona – instrumento musical e de redenção da infância pobre – e conta como foi apadrinhado por Luiz Gonzaga:
“Meu pai resolveu vir para o Rio de Janeiro atrás de Gonzaga, Nessa época a gente tocou muito por lá.. Depois que a gente conheceu Gonzaga, todo dia eu ia para casa dele e ele não se incomodava. Eu estava com 13 anos,. Eu ficava vendo ele tocar, ensaiar com o grupo dele e todo feliz, novo. Eu ficava ali no meio, escutando aquilo tudo, e tocava a sanfoninha também. A partir daí, a vivência com Gonzaga foi para a vida toda”, relembra.
O site da UNE publica essa entrevista para o documentário acadêmico “Inspirações do Fole”, no dia do centenário de Luiz Gonzaga. A entidade homenageará o rei do baião em sua próxima Bienal, entre os dias 22 e 26 de janeiro, no Recife, com o tema “A Volta da Asa Branca”.
Leia a entrevista abaixo:
A cantora Elba Ramalho disse no programa Altas Horas da Rede Globo que você é o maior acordeonista do mundo. Como você reage a essa afirmação?
Eu recebo bem porque não sou. (risos) Acho que ela enche a minha bola. Acho que muita gente enche a minha bola, mas tem muita gente tocando. Eu sou hoje em dia um veterano do instrumento, aí todo mundo respeita, todo mundo tem carinho. Eu gravei muitos discos e esses discos chegaram nas mãos dos mais jovens que tocam sanfona, que tocam minha música, quase todos eles tocam melodias minhas, então isso me deixa em uma posição boa. Isso tudo me ajudou e continua me ajudando, a Elba é uma amiga de muitos anos.
Estamos no centenário de Luiz Gonzaga. Como é viver este momento?
Para mim é extraordinário porque estou participando. Estou com 71 anos, sou de 1941 e estou conseguindo ver tudo isso, participando, viajando, tocando um pouco de sanfona, cantando essas coisas todas. Então, sou uma pessoa bafejada pela sorte, que alcançou tudo isso e viu o maior sanfoneiro de todos os tempos. Cantador como Gonzaga não vi igual, voz daquela, nunca vi. Ele tocava muita sanfona, era muito bom solista, tinha umas coisas boas no pé de serra, que é um xote e em uma espécie de chorinho. Ele deixou um manancial de choros, de valsas. O Gereba, que é um compositor baiano, pediu para vários compositores botarem letras nas valsas de Gonzaga.
Conte um pouco da sua trajetória
Bem, eu sou de Garanhuns, uma cidade a 200 kilometros de Recife , é um agreste meridional frio. Eu nasci com um bocado de irmãos, éramos 16 , minha mãe, meu pai. Naquela época era tudo muito difícil, meio parecido com hoje em dia ainda, mas hoje temos mais coisas. Eu, com 9 anos, conheci um moço sem saber que era Luiz Gonzaga, no Hotel Tavares Gouveia . Era um hotel tradicional e aquele homem deu um dinheiro para tocarmos para ele, estávamos eu, Moraes e Valdomiro, que são meus irmãos.
Aí nós pegamos um caminhão, em 1954, e foram 11 dias de viagem para Nilópolis (Rio de Janeiro). Quando chegamos, meu pai quis ir imediatamente pra casa de Luís Gonzaga. Tínhamos o endereço que ele tinha deixado, guardado por mais ou menos cinco anos. Gonzaga estava em casa, recebeu a gente, nem quis conversar deu dois minutos já foi lá dentro, pegou uma sanfona de 80 baixos e entregou a meu pai. Seu Chicão ficou foi satisfeito que tudo que a gente queria na vida era uma sanfona, ninguém tinha. Aí pronto.
Depois que a gente conheceu Gonzaga, todo dia eu ia para casa dele e ele não se incomodava. Eu estava com 13 anos,. Eu ficava vendo ele tocar, ensaiar com o grupo dele e todo feliz, novo. Eu ficava ali no meio, escutando aquilo tudo, e tocava a sanfoninha também. A partir daí, a vivência com Gonzaga foi a vida toda.
O que a sanfona te trouxe?
Tudo. Se eu comprei uma casa, criei três filhos, tudo foi a sanfoninha. Como sanfoneiro tive oportunidade de trabalhar com muita gente boa. Gravei com muitos artistas.
É difícil tocar?
É. Mas você começando novinho, como eu comecei, fica tão craque no instrumento que até o peso você não sente. Aí vai se acostumando, normalmente você consegue um bom resultado quando você tem um dom também. Muita gente estuda e não toca bem, lê música, lê tudo, mas não consegue desenvolver, fica meio durão sabe?
O que você gostaria de ler e ouvir sobre você?
Bom, enquanto eu estiver vivo eu quero ver coisas que me estimulem um pouco, críticas construtivas, porque é muito bom quando um crítico escuta um trabalho seu e faz um reparo construtivo. Lógico que todo mundo gosta de ser elogiado, mas eu dei uma sorte com os jornalistas, que parecem ter uma amizade comigo (risos).
Fale sobre suas lembranças de Luiz Gonzaga
Para Gonzaga cantar foi uma luta, ninguém deixava. Diziam que você tinha de ser só sanfoneiro, tinha só que acompanhar as pessoas que cantam. Mas deu certinho para ele, depois o sucesso foi muito grande e não puderam mais esconder. Diziam que o Gonzaga tem voz de cana rachada. Aquele negão, de chapéu de couro, de alpergata, de gibão, tocando sanfona, era uma afronta dançando chachado, aquelas coisas todas. Não queriam reconhecer mas foi aos pouquinhos, ele foi vencendo, levou muita borduada. Depois eu cheguei e levamos umas borduadas juntos também. Mas ficou tudo certinho. Ele foi considerado o homem do século e nós estamos festejando o centenário dele.
José Afonso, José Valentim e Thatiane Ferrari