Na presença de familiares, amigos e estudantes da Universidade de Brasília, o ex-presidente da UNE Honestino Guimarães foi oficialmente anistiado nesta sexta-feira (20/9) na capital do Brasil. A cerimônia fez parte da 73ª Caravana da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça do Brasil que homenageou também funcionários e estudantes da UnB, onde o líder estudantil cursou geologia há 40 anos.

A filha do ex-presidente da UNE, Juliana Guimarães disse como se sentia afortunada por ser filha de quem honrou sua militância, seu mandato na UNE, e de cidadão. Ela tinha 3 anos quando o pai não voltou pra casa. “Me pouparam naquele momento. Sabia no entanto que ele tinha desaparecido da minha vida”, contou. Ela também cobrou mais esclarecimentos sobre a circunstância de morte do pai. “É como cidadã brasileira e filha eu peço uma resposta: o que aconteceu com meu pai e onde ele está?”, questionou.

O sobrinho Matheus Guimarães lembrou que o tio foi muito mais que um líder político. “Sobretudo o que o levou à luta era o seu profundo amor pelas pessoas e pela vida. Penso que ele estaria muito mais preocupado em que sociedade estamos vivendo hoje, se de fato é uma democracia e se de fato somos livres. Nesse momento o Estado não está pedindo perdão apenas para o Honestino, mas a uma série de brasileiros que entregaram a sua vida a uma causa”, disse ele.

A presidenta da UNE, Virgínia Barros, lembrou da tentativa da ditadura de silenciar os estudantes brasileiros desde o incêndio da sede logo após o início do regime em abril de 1964. Lembrou também que foi durante o 50º Congresso da UNE em julho de 2007durante o que foi realizada a primeira Caravana da Anistia fora do Ministério. “Hoje voltamos à UnB neste momento como de reencontro da justiça brasileira com os estudantes”, destacou.

A líder dos estudantes também falou sobre a importância do “nosso querido presidente desaparecido” na lembrança de uma geração que já nasceu na democracia.

Vic pediu ainda a revisão da lei da anistia, abertura de arquivos da ditadura, e reforçou o pedido de Anistia.

“Se é verdade que o Honestino não reconhecia a justiça da sua época, nós também não a reconhecemos em alguns aspectos. Reforçamos o pedido da Anistia e que não cesse a busca pelos seus restos mortais. Onde está o Honestino?”, disse ela muito emocionada.

O Secretário Nacional da Justiça, Paulo Abraão, lembrou da mãe do anistiado, Maria Rosa Monteiro, falecida já há um ano, mas que durante muitos anos lutou e esperou o paradeiro dos restos mortais do filho.

Ele lembrou que a reparação a Honestino Guimarães tem um caráter simbólico e moral. A família do ex-presidente da UNE não solicitou qualquer valor.

“Isso permite à gente reencontrar a história e permite a produção de uma memória que esteja amparada na narrativa das vítimas, e não exclusivamente nos documentos oficiais produzidos pela repressão, que muitas vezes continham dentro de si informações inverídicas para justificar a violência do Estado contra as pessoas”, concluiu.

Junto à declaração de Anistia, e o pedido de desculpas oficial do Estado brasileiro também foi encaminhada uma retificação do atestado de óbito incompleto do ex- presidente da UNE, entregue à família em março de 1996. O espaço em branco no documento que prova a morte do jovem de 26 anos perseguido pela ditadura, deve finalmente constar a verdade agora, apenas 40 anos depois. Causa da morte: dependente de tortura e atos de violência orquestrados pelo Estado.

Cristiane Tada