Poderia ser no corredor do Congresso Nacional ou até mesmo em uma conversa distraída numa mesa de bar. Mas, o atual presidente da UNE, Daniel Iliescu, e o senador e ex-presidente da entidade, Lindberg Farias, relembraram alguns dos principais momentos do movimento estudantil em uma atividade que representa, em seu contorno e conteúdo, o novo Brasil que já vem sendo traçado há alguns anos.
O 2º Encontro Carioca de Estudantes Cotistas e do ProUni, que aconteceu este fim de semana (26 e 27 de maio) revelou que os jovens brasileiros, filhos de trabalhadores e empresários, pobres e ricos, compõem juntos, hoje, a nova elite intelectual do país. E esta nova configuração é resultante, sobretudo, da institucionalização das políticas de inclusão, como o Programa Universidade para Todos (ProUni) e o Sistema de Cotas. O aumento do universo de estudantes majoritariamente nas classes C, D e E evidencia o importante papel dessas políticas na democratização do acesso à universidade.
Embora Lindberg e Iliescu tenham vindo de gerações distintas dentro do movimento estudantil, compartilham da mesma opinião de que a democratização do acesso à universidade, assim como sua permanência, sempre foram eixos fundamentais para fazer da educação um fator de desenvolvimento e emancipação social. “Há 20 anos atrás, com a ideia do Estado Mínimo gerenciando as ações políticas no Brasil, essa conquista jamais seria findada”, avaliou Lindberg.

A LUTA DE ONTEM
Lindberg foi eleito presidente da UNE no último fim de semana de maio, em 1992. Paraibano de João Pessoa, há exatos 20 anos, liderou os estudantes em um momento histórico para o Brasil e para o movimento estudantil. A UNE, a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), DCE’s, centros acadêmicos e grêmios livres se uniram e organizaram um gigantesco protesto exigindo o impeachment do então presidente Fernando Collor. Os estudantes saíam às ruas, com as caras pintadas de verde e amarelo, e engrossavam uma campanha que recebia o nome de “Fora Collor”.
Fruto da indignação popular em relação ao grande esquema de corrupção, do congelamento das contas bancárias e da alta inflação, o protesto se espalhou por todo Brasil. “A maior delas aconteceu em 25 de agosto. Estudantes pularam muros de escolas para se reunir em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp), e dali seguir para o Vale do Anhangabaú”. Números oficiais estimaram que a manifestação reuniu entre 400 mil e 500 mil pessoas.
A campanha eleitoral dizia: “abater a inflação com um só tiro”. Para essa tarefa se concretizar, o Plano Collor foi implantado no início de sua presidência, cuja a plataforma seria a adoção do sistema neoliberal, extinguindo órgãos públicos, demitindo em massa os funcionários e dando início ao processo das privatizações.

“Essas mobilizações não foram importantes só pela tirada do presidente, mas, sobretudo, pelo amadurecimento político de toda uma geração. Cada dia me convenço de que, se não existisse essa vontade de construir um novo país, essa vontade de derrubar as ideias neoliberais através da resistência dos estudantes, o Brasil, hoje, teria um novo cenário. A gente interrompeu a aplicação de todo um processo teórico baseado nos costumes elitistas da sociedade. E se não tivéssemos essa postura de desarticulação, talvez teríamos embarcado no mesmo navio que a Argentina e outros países da América Latina”, analisou Lindberg, que ainda finalizou:
“Eu fico muito satisfeito em voltar 20 anos depois e ver que o Brasil teve transformações incisivas. Hoje, 40 milhões de pessoas que migraram para classe média e 28 milhões deixaram a pobreza absoluta. No meu tempo de dirigente da entidade, não havia possibilidade de discutir ações afirmativas. Muito pelo contrário, o que existia era uma reserva de vagas para a classe elitista. Estamos construindo uma grande democracia popular e essas políticas são fundamentais neste processo”.
A LUTA DE HOJE
Para o presidente da UNE, cada geração deve estar a altura de seus desafios. Enquanto muitos estudantes tiveram que derrubar projetos contra a educação e até organizar passeatas contra a administração de todo um governo, como aconteceu quando Lindberg dirigia a UNE, a geração de agora, a chamada geração 10, luta por um Brasil de qualidade, um Brasil em sintonia com os novos desafios e com o desenvolvimento em todos os setores.
“O Fora Collor é muito importante nesse sentido. Aqueles estudantes fizeram o que tinha que ser feito naquele momento. Não esmoreceram frente a batalha e lutaram até colherem os frutos de uma nova primavera. Hoje, sabemos da importância que tem o grito de cada estudante que luta, que reivindica por melhorias na escola, no material didático, no transporte”, avaliou Iliescu.
E embora haja crescimento concreto 20 anos após o “Fora Collor”, a educação superior no Brasil ainda se debruça em um cenário preocupante. Apenas 14% da juventude brasileira tem acesso às universidades e, desses, só 25% (1,6 milhão) estudam em uma universidade pública. Para complementar esses dados, é importante assinalar que o Brasil é a sexta economia do mundo, posição tomada recentemente da Inglaterra, mas, ao mesmo tempo, ocupa apenas a 88ª posição no ranking das Nações Unidas na área da educação.
Por isso, a entidade realiza hoje uma série de mobilizações, como a tradicional Jornada Nacional de Lutas, para reivindicar avanços no setor. Bandeiras como o desvio de 10% do PIB e 50% do Fundo Social do Pré-sal para educação também são amplamente debatidas em todas as passeatas, atos públicos ou congressos.

“É inadmissível, por exemplo, desviar a verba da educação para pagamento da dívida pública, drenada para bancos que não têm comprometimento com o Brasil e que podia muito bem ser utilizada para melhorar a qualidade de ensino no país. Lindberg tem ajudado muito essa discussão e está certo quando afirma que hoje temos um espaço de diálogo muito mais amplo. Que o ‘Fora Collor’ sirva de espelho para conquistarmos nossas bandeiras e avançarmos ainda mais nesse debate”, analisou Iliescu.
Patricia Blumberg