Grande letrista, ativista social e flamenguista, o carioca Marcelo Yuka ficou nacionalmente conhecido quando a banda do qual era baterista, O Rappa, estourou nas rádios com a música de sua autoria “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”. Em 2000, aos 34 anos, Yuka voltou tragicamente a ser destaque na imprensa brasileira quando levou 9 tiros nas costas e ficou paraplégico.

Mais de uma década depois, no próximo dia 30 de novembro, estreia no cinema nacional o documentário “Marcelo Yuka no Caminho das Setas”, da cineasta Daniela Broitman, que, nas palavras da diretora, faz um retrato de “anti-herói” de Yuka.

“Fiquei muito tempo conversando com ele sobre isso, mas o Yuka tinha bastante resistência. Quando ele foi baleado, a grande mídia fez um retrato equivocado dele como herói. Estava tendo um assalto e quando ele deu a ré, começaram a atirar nele, ele não estava lá para salvar a garota”, contou a cineasta, que também é jornalista e amiga pessoal de Yuka, sobre o processo de convencimento do músico a fazer o filme.

Com o projeto do filme, Daniela recebeu a bolsa John Simon Guggenheim Memorial Foundation, que possibilitou à diretora aprofundar as pesquisas para o documentário, cuja filmagem e captação de imagens durou 8 anos. Em seguida, no final de 2010, Marcelo Yuka no Caminho das Setas foi um dos vencedores do Programa Cultural Petrobras e, depois, um dos quatro longas-metragens selecionados no edital da Filme Rio – Rio Film Commission, alcançando o prêmio de Melhor Montagem no Festival do Rio 2011.

O filme está com estreia confirmada nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Florianópolis, Salvador, Palmas e Brasília e traz cenas inéditas ou pouco vistas, como os bastidores da saída de Yuka do hospital logo após ter sido baleado, entrevistas antigas e cenas extra-oficiais do Rappa, ensaios e gravações do grupo F.UR.T.O – formado pelo artista após o incidente – e imagens domésticas e bastante íntimas do seu dia-a-dia, além das participações de músicos como BNegão, Manu Chao, Apollo Nove, Aleh Ferreira, Pedro Bernardes e Cibelle.

Daniela diz estar dedicada integralmente à promoção e divulgação do documentário, que para ela “é como um filho”. Na entrevista a seguir, a diretora falou ao site oficial da UNE sobre sua amizade e identificação com Yuka, o processo de filmagem e as diversas temáticas abordadas no filme.

Como você conheceu o Marcelo Yuka?

Em 2003, muita gente me falava que eu tinha que conhecer o Yuka, mas eu tinha acabado de voltar ao Brasil e não tinha ideia de quem estavam falando. No mesmo ano, quando finalmente o conheci, eu mostrei para ele um projeto que estava fazendo, o filme “Meu Brasil”, sobre líderes comunitários de favelas. Naquele momento, nos identificamos muito, ele sempre teve um grande engajamento com projetos sociais. De cara eu senti uma identificação com ele muito profunda em termos de ideais e princípios.

A partir desse encontro surgiu a ideia de fazer um filme sobre ele?

A iniciativa foi minha. Pensei em fazer um filme sobre ele, pois achava que estaria falando de causas que me importam. Ficamos muito tempo conversando sobre o assunto, mas o Yuka tinha bastante resistência.

Por quê?

Sua experiência anterior com a mídia não tinha sido nada positiva. Quando ele foi baleado, a grande mídia, de modo geral, fez um retrato equivocado dele como herói. Estava tendo um assalto e quando ele deu a ré começaram a atirar nele, ele não estava lá para salvar a garota.

Como você o convenceu a topar o projeto?

A gente sempre conversou muito, e uma das coisas que eu propus foi fazer um filme que retratasse o lado dele de anti-herói. Acho que é um filme que mostra esse outro lado do Marcelo, que desmistifica o mito do herói, de uma pessoa que é superguerreira, não sofre e está sempre disposta. Não é bem assim… ele é um ser humano como outro qualquer. Todos temos nossos momentos de dor, de tristeza de não ter autoestima forte. É claro que ele é especial, ele tem muitas facetas: artista, poeta, ativista…

O que o Yuka achou do retrato dele construído por você no Caminho das Setas?

Ele já me disse que fui muito generosa…

O documentário aborda diversos temas como tratamento com células tronco, o trabalho social de Yuka e sua carreira de músico. Para você, qual é o tema predominante no filme?

Acho que não é um filme de um tema só, é um filme cheio de camadas, com muitas texturas, cores, sentimentos. No filme, o Marcelo é um porta voz , mas o que está por traz é algo que ultrapassa qualquer cultura, são as ideias que eu acho que tem que se propagar pelo mundo. Acho também que é um filme que fala de transformação, que é o que nossa sociedade está precisando.

Você pensou em atingir um público específico quando fez o documentário?

Quando eu faço um filme, não consigo pensar para quem é direcionado o filme. Acho muito complicado fazer um trabalho tão autoral pensando em números, em público… Para mim o importante é tocar as pessoas. Sei que tem um público jovem que é muito fã do Yuka, é um público que realmente fica muito impactado, são pessoas que tem muita garra, energia. E, curioso, até agora as pessoas que mais vêm falar comigo são jovens e estudantes. Eles me dizem que querem fazer algo pra mudar o mundo.

A elaboração do documentário durou 8 anos. Como foi esse processo?

Ele só deu “ok” oficial para o filme em 2006. Mas eu já tinha captado umas imagens dele desde 2004, pois já tinha essa vontade e já conversava com ele sobre isso. Às vezes saíamos e eu levava a câmera para fazer alguns registros.

Ele parece ser uma pessoa de personalidade muito forte, tiveram algum momento difícil durante o processo?

Tiveram momentos difíceis. No começo, por exemplo, quando ele ainda tinha muita dor e muitas questões sobre as quais não queria falar. Ao mesmo tempo, no começo, também tínhamos muitos momentos de conversa e de trocas de ideias, passávamos a madrugada no skype! Esses papos eram divertidos, ele é um cara muito inteligente. A dificuldade que enfrentamos agora é fazer a promoção do filme… Enfrentamos uma batalha muito dura com as grandes distribuidoras quando as produções são independentes.

Você já está com algum próximo projeto?

Estou focada nesse filme, que é um filho para mim. Agora estou empenhada em dar todo carinho e amor para que tudo aconteça da melhor maneira possível, estou me dedicando muito de corpo e alma.

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Camila Hungria
Foto Jaqueline Machado