O crescimento assustador e desregrado do número de instituições privadas de ensino superior marcou os últimos anos. Acompanhando essa expansão, cada vez mais os estudantes têm se organizado para reivindicar melhorias na qualidade de seus cursos. O primeiro semestre de 2012 ficou marcado por uma série de atos públicos e protesto, que encabeçavam a campanha “Educação não é mercadoria”.
Em todas as manifestações observadas ao longo do ano, há uma consonância em relação às reivindicações dos estudantes, que levantam suas vozes contra o sucateamento da universidade e pedem melhorias de infraestrutura, professores bem pagos e qualificados.
Como resultado dessa pressão, foi instaurada no Rio de Janeiro uma CPI das universidades privadas, que deve retomar seus trabalhos em 20 de dezembro com nova sessão pública, às 10h30, na sala 311 do Palácio Tiradentes.
“Além de mobilizar os estudantes e organizar protestos, a UEE-RJ juntamente com os DAs, DCEs e CAs das universidades privadas estão preparando um dossiê com fotos, documento e depoimentos, comprovando irregularidades apontadas em cada instituição para entregar ao relator da CPI, o deputado Robson Leite (PT)”, informou o presidente da UEE-Rj, Igor Mayworm.
Falta de pagamento para professores e infraestrutura precária
Dentro desse contexto de protestos e luta por melhorias, o estado do Rio de Janeiro presenciou uma série de manifestações, entre eles a primeira ocupação de reitoria de uma instituição privada. No dia 2 de maio, cerca de duzentos estudantes, liderados pela UNE e UEE-RJ, ocuparam durante seis horas o prédio do Grupo Galileo Educacional, mantenedor das Universidades Gama Filho e UniverCidade, reivindicando melhores salários para os professores.
Na Universidade Cândido Mendes, além de problemas de infraestrutura, os estudantes também defendem seus educadores, que estão sem receber seus 13ºs há dois anos. Há cerca de um mês, os estudantes organizaram uma passeata pacífica e reuniram mais de 300 membros para protestar contra a indicação de um novo diretor, que iria assumir o campus contrariando a vontade dos estudantes. “A manifestação teve resultado positivo, pois a indicação caiu”, contou Renato Lyra, presidente do D.A do campus Méier.
O curso de medicina da Universidade Gama Filho foi um dos mais afetados pelo processo de sucateamento. Ao que tudo indica, os problemas se agravaram quando o Grupo Galileo passou a ser a instituição mantenedora da universidade.
“Houve a quebra dos convênios com os hospitais referência onde os estudantes aprendiam. Como resultado, agora temos um curso de medicina no qual os estudantes saem formados sem nunca terem atendido nenhum paciente”, indignou-se Rafael Collado Iwamoto, presidente do C.A do curso de medicina da Universidade Gama Filho.
Outra queixa de Rafael diz respeito ao aumento de 40% no custo da mensalidade do curso. “O aumento foi ilegal, aprovado no conselho universitário sem que houvesse consulta à comunidade acadêmica”, ressaltou o estudante.
CPI e a luta pela regulamentação das privadas
Até o momento, na CPI, já foram realizadas treze audiências e colhidos depoimentos de representantes do Sindicato dos Professores e dos Médicos, da União Estadual dos Estudantes, do Ministério do Trabalho (MTE), da direção da Cândido Mendes (UCAM), da Estácio de Sá e do Grupo Galileo.
Para o presidente da UEE-RJ, a CPI inspira seriedade e tem procurado investigar a fundo as denúncias. “Esperamos que ela possa se desdobrar em ações concretas, que o ministério público se posicione e que sirva para fomentar o debate da regulamentação do ensino privado”, pontuou.
Rafael Collado, presidente do C.A do curso de medicina da Universidade Gama Filho ressalta a necessidade urgente de regulamentar o ensino privado e coloca em primeiro plano a fiscalização das mantenedoras dessas instituições. “A expectativa é que o MEC fique atento às mantenedoras. Temos que saber os reais interesses dos grupos financiadores da educação”.
Da Redação