Da Casa do Estudante do Brasil às ruas
Homenagem aos 76 anos de lutas pelo que nos UNE!
No dia 11 de agosto (dia nacional dos estudantes) comemoramos o aniversário de uma das mais importantes entidades do movimento social brasileiro e do movimento estudantil, a União Nacional dos Estudantes – UNE.
E homenagear a UNE é, sobretudo, homenagear o Brasil, pois a história contemporânea do país se confunde profundamente com a história e formação da própria UNE. As raízes da UNE são, sem sombras de dúvidas, as raízes do próprio Brasil.
A gloriosa aniversariante nascida em 1937, no Rio de Janeiro, surgiu do seio da Casa do Estudante do Brasil, na luta por mais condições de moradia, assistência e passe livre estudantil. Ela nasceu em um dos momentos políticos mais importantes da história, em plena Era Vargas, no início do Estado Novo (1937-1945).
Era um momento de grandes debates e de uma profunda transformação social e política do país e do mundo, em que se estabeleciam frentes das mais variadas ideias e concepções de mundo no qual enriqueceram a idealização da fundação da que seria a mais importante entidade do movimento estudantil durante os anos seguintes.
A conjuntura mundial com a eminente eclosão da Segunda Guerra Mundial, pelo fortalecimento dos regimes autoritários e perversos do Nazi-Fascismo na Europa, e por outro lado uma dicotomia entre o capitalismo liberal imperialista norte-americano e o comunismo soviético, inspirou uma grande parte da juventude por idealizarem grandes debates na academia e na sociedade.
Esta conjuntura influenciou os estudantes brasileiros a comporem grandes blocos em defesa do Brasil, do nacionalismo e da democracia.
Os estudantes do Brasil foram às ruas lutar pela defesa da Soberania Nacional, do Patrimônio Nacional (petróleo) e do fortalecimento do Estado como agente indutor de desenvolvimento econômico e social. Assim nasce a UNE. Lutando pelo Brasil.
Como uma entidade plural e de vocação democrática a UNE sempre abrigou em seu seio as teses divergentes, movimentos com as mais diversas concepções e a cada Congresso elegia uma direção e uma plataforma que daria ao longo dos anos uma multiplicidade de formas de atuação. Mas, nos momentos mais importantes do povo brasileiro e dos estudantes do país a UNE estava presente, seja na legalidade ou na clandestinidade que marcou a entidade durante os anos de chumbo da ditadura militar.
Durante o período ditatorial do Brasil, em que os grandes interesses imperialistas e capitalistas dos EUA estiveram marcando posições no país, a UNE foi colocada na clandestinidade pelo AI nº5 (Ato Institucional), alegando-se uma organização subversiva. A UNE se orgulha de ter sido considerada subversiva pela ditadura, preocupante seria se não a tivesse sido. Pois naquele momento a UNE aderiu à máxima de que “prefiro ser inimigo de quem é inimigo da classe trabalhadora e do povo do que ser amigo”, sendo este o norte que guiou a UNE às ruas contra o regime militar. Tombou naquele momento Honestino Guimarães, nosso eterno presidente, sempre presente! Presente nas Diretas Já, na Constituinte e no Fora Collor, momento em que pela primeira vez na história do país um presidente é deposto democraticamente por má condução do governo federal.
Durante o período neoliberal de Itamar e FHC os estudantes do Brasil – a UNE, estiveram nas ruas também contra o FMI (Fundo Monetário Internacional), contra os leilões do petróleo, contra as privatizações, contra o sucateamento da educação superior e contra as mazelas do Brasil, como fome, a falta de investimento no SUS e falta de políticas públicas para os mais diversos seguimentos.
Já no período pós-neoliberal a UNE não se furtou à luta, promovendo em todo país grandes discussões e caravanas para debater um projeto de nação almejada. Foram grandes discussões sobre a reestruturação do ensino superior público, a democratização do acesso, as cotas sociais e raciais, a cultura, o esporte e o direito a cidade. Realizando grandes jornadas de lutas em todo país com a UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas) e outras entidades a UNE pautou grandes temas para discussão do país, como o financiamento da educação, 10% do PIB para educação pública, plano nacional de educação, recursos do petróleo para educação, democratização dos meios de comunicação, reforma política e o estatuto da juventude.
A UNE comemora seus 76 anos na semana da maior conquista da juventude brasileira, que foi a sansão da Lei nº 12.852/2013 “Estatuto da Juventude”. Esta conquista está no DNA da UNE e associar ela a este momento é crucial para entendermos o último grande período de mobilizações e lutas da juventude brasileira, que no último mês de junho foram às ruas lutar por mais educação pública de qualidade, saúde pública de qualidade, transporte público e mobilidade urbana de qualidade e com tarifa zero, ou seja, lutar por mais Estado, mais avanços, mais soberania mais desenvolvimento nacional e mais democracia.
Da Casa do Estudante às ruas e de lá nunca mais saiu, pois sabemos que a UNE é o Brasil nas ruas, e o Brasil nos UNE.
* Fabrício Paz é estudante de Ciências Sociais UFMT e diretor de Memória da UNE