Quem não gosta do Chico bom sujeito não é. Então na semana em que um dos maiores compositores da nossa MPB completou 70 anos a coluna faz uma homenagem para ele que é ‘disciplina’ obrigatória em qualquer universidade. Como a obra é muito vasta, a gente fez uma enquete das prediletas na redação da UNE além das contribuições da nossa diretora de Cultura e da nossa presidenta. E você? Tem uma preferida? Dá uma conferida nas nossas dicas ;-)

YURI SALVADOR – JORNALISTA 

Minha canção favorita do Chico é “Construção” (1971) , pois além do incrível jogo de palavras, faz crítica ao egoísmo da sociedade moderna. A canção mostra como excluímos determinados indivíduos, os submetendo a uma condição mecanizada, onde não se pensa, não se sente, apenas se faz. Essa condição se aplica inclusive nas atitudes pessoais, nos sentimentos do personagem. 

Ao morrer o cidadão só é notado por “atrapalhar o trânsito” e as engrenagens do sistema onde ele é apenas uma pecinha, um tijolo dessa imensa construção.

“Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir

A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir

Por me deixar respirar, por me deixar existir

Deus lhe pague” 

PATRÍCIA MATOS – DIRETORA DE CULTURA DA UNE 

Existe uma característica comum nas obras do Chico: a descrição do cotidiano. Seja ao falar de amor ou nas canções carregadas de crítica social, o Chico consegue com ternura e acidez descrever a vida cotidiana dos amores, da gente sofrida e do carnaval. Eleger a melhor música de Chico é uma tarefa quase impossível, mas talvez a que melhor represente essa característica de suas composições seja a já consagrada “Construção”. Ele consegue de maneira brilhante falar do cotidiano acompanhado de um arranjo lindíssimo  e, “sem forçar a barra” – debochando da métrica engessadora ao que os mais pedantes costumam se prender -, termina todas as palavras dos seus versos em proparoxítonas.

  PATRÍCIA BLUMBERG – JORNALISTA  

A minha é “Biscate” (1993) pela genialidade das rimas. Só na estrofe “Quem que te mandou tomar conhaque Com o tíquete que te dei pro leite Quieta que eu quero ouvir Flamengo e River Plate”, o Chico consegue fazer barulho de batuque com as palavras “tíquete que te dei para o leite” e ao mesmo tempo construir uma frase com a rima do time de futebol River Plate. Quem mais poderia?! 

 VIC BARROS – PRESIDENTA DA UNE 

Minha música preferida do Chico é “As Vitrines” (1981). Acho a mais sensível de todas. O eu-lírico sobre a mulher mostra uma admiração e entrega sincera e linda demais. E o arranjo da música é legal. É difícil escolher uma só música, mas se tiver que apontar só uma, fico com essa. 

 RAFAEL MINORO – JORNALISTA 

A minha predileta é “Jorge Maravilha”. A história da música tem toda uma polêmica. Foi escrita pelo Chico com o pseudônimo de Julinho Adelaide para burlar a censura que andava marcando em cima das composições dele durante a Ditadura Militar. Suspeitou-se que a letra tinha sido feita para o general e então presidente Ernesto Geisel, cuja filha Amália Lucy havia declarado ser grande fã da obra de Buarque. Vide o verso “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta”.

Mas de acordo com o próprio Chico Buarque, o verso irônico e a música referiam-se a uma situação vivida por ele durante o regime militar no país. Em uma declaração para a Folha de S.Paulo, em 1977, o cantor deu o seguinte veredicto:”Aconteceu de eu ser detido por agentes de segurança (do Dops), e no elevador o cara pedir autógrafo para a filha dele. Claro que não era o delegado, mas aquele contínuo de delegado”.

CRISTIANE TADA – JORNALISTA 

Bom, sem conseguir escolher entre uma das muitas músicas do nosso ‘muso’, resolvi falar do seu quarto romance, lançado em 2009. Que ele já era meu compositor predileto já sabia, quis provar então sua veia de romancista. Apesar do enredo triste, o domínio da linguagem do Chico é inquestionável. Leite Derramado é protagonizado por um velho moribundo que relembra sua vida na aristocracia carioca enquanto está no seu leito de morte. A narrativa é caleidoscópica e através de idas e vindas, descobrimos verdades, vontades e intertextos. Achei um barato me perder no Rio de Janeiro da época do Império e da primeira República nas ‘viagens’ do narrador. Achei um “que” de Machado de Assis quando ele fala a respeito da mulher Matilde, e o enredo me lembrou muito “Malone morre”, de Samuel Beckett. Enfim, literatura de primeira.  

 RENATA BARS – JORNALISTA 

Escolher uma música favorita do Chico Buarque é uma tarefa árdua. Contudo, escolhi uma de suas mais recentes composições. ”Tipo um Baião” faz parte do disco lançado em 2011, intitulado ”Chico” e é a minha eleita pois mostra que os anos passam e a genialidade continua a mesma. Por que “outra história de amor esta hora”? Ora! Porque ela está “tipo a fim”. E sim, estamos todos ainda a fim de Chico! 

Cristiane Tada