Com o pé na estrada, o Circuito Universitário de Cultura e Arte, o CUCA da UNE, traça objetivo ousado nesta Caravana: rearticular a rede cultural nas universidades para fundar novos movimentos e oxigenar os já existentes. Dessa forma, o CUCA tem promovido programação especial em cada cidade, realizando reuniões, exibições de filmes e envolvendo artistas regionais e estudantes em um mergulho profundo na identidade cultural brasileira.
Em parceria com os Pontos de Cultura, o Circuito Fora do Eixo e coletivos locais, essas reuniões são orientadas pelo tema “Cultura em rede: Conexões culturais no Brasil” e tem desenhado ações conjuntas que pensem a cultura nacional em suas diversas óticas.
Em Belém, o encontro da Caravana com a cultura regional se deu no dia 17 de abril, uma terça-feira, na Universidade Federal do Pará, a UFPA, instituição criada em 1957 e que hoje com cerca de 40 mil alunos parece flutuar às margens do Guamá.
Após um dia cheio de atividades, a chuva onipresente do Pará chegou, molhou e batizou a noite para o que viria a ser uma catarse de alegria, troca de experiências e respeito à natureza. Bem em frente ao rio foi montado o palco e aos poucos os mais de 200 estudantes presentes começaram a ocupar o tradicional espaço de convivência da universidade, o Vadião. Ali, o “combo paraense de música brasileira” estava por marcar para sempre a presença da UNE naquela instituição. Quem presenciou, sabe. Esse dia ficará para a história.
Dj Lady Green arrasa corações e mentes

Elida Braz é a Dj Lady Green. Até aí, tudo bem, certo? Ela é a primeira “Dj carbono neutro do país” e nasceu na cidade de Monte Alegre, um pequenino município do paraense com pouco mais de 50 mil habitantes. Começou a atuar em teatro com 14 e hoje é provocante no auge dos 32. Já dançou com cobras jibóias e onças pintadas. A moça com traços indígenas leva também a alcunha de a “musa da sustentabilidade”. Bem poderia ser da sensualidade, artifício que ela sabe muito bem usar para brincar com os sentidos e defender com papo sério o meio ambiente. Surpresa? E nem começamos a falar de sua xará, a “Lady Gaga do Pará”.
Elida manda bem nas pick-ups e elaborou para a apresentação na Caravana UNE Brasil+10 um line-up especial de rock e músicas brasileiras que lembraram o passado para os mais de 200 estudantes presentes poderem pensar esse país diferente que querem realizar em um futuro próximo. Mas a sua pegada é mesmo house e tribal, vertentes da música eletrônica.
Vestida como uma índia-high-tech-do-pará, bem à vontade no palco, com luzes toscas piscando em seu figurino e defumadores exalando essências ao lado do palco, Lady Green bombou. Fez uma apresentação que podemos dizer foi histórica para o Vadião e para a UFPA. Só mesmo quem se auto-intitula uma artistas verde, desenvolve projetos na área e guarda uma inocência de Tainá, despede-se do público com uma voz suave e sorriso no rosto: “Gente, vamos reciclar, reutilizar, vamos cuidar do nosso lixoooo, reciclaaaar é tuuudo!”. Nem Elida escapa do brega.
A fusão do Pará com o mundo

O segundo show da noite levou ao palco o pessoal gente boníssima do Carimbó Fusion Dub Club, banda de integrantes com as camisas coloridas mais legais da música brasileira.
O Vadião da UFPA já estava mais cheio, o rio Guamá mais bonito e iluminado, e tudo ficou mais animado com a mistura de ritmos regionais, como o carimbo e as guitarradas paraenses, com um pegada de reggae que agradou e colocou o público para dançar do jeito bem paraense: coladinho. Teve gente que colou juntinho e teve gente que foi beber cerveja ainda suspirando e reciclando na mente a performance de Lady Green.
O Pará das Ladys

O “combo” paraense que presenteou a passagem da Caravana da UNE por Belém reservava ainda uma grata surpresa. Faltava o Tecno Brega. Opa! Tecno Melody, como a banda “Só no Batidão” define o som que fazem. E já que uma Lady se sente mais a vontade atrás das pick-ups, basta chamar a outra, essa original de fábrica.
Destaque à parte, a “Lady Gaga do Pará”, de peruca e luvas rosa, mostrou como é que se faz. A mulher tomou o pequeno palco e levada por sua banda com solos de teclados e guitarradas a mil, não poupou aberturas de pernas, agacha e levanta, paradinhas sensuais e caras e bocas. Ela até cantou. E muito bem. Mostrou que no Pará artistas são de verdade e não celebridades.
De Belém, Rafael Minoro
Fotos: Fábio Bardella e Ivan Russo