Em meio ao crescente movimento pela investigação da violação de Direitos Humanos durante a ditadura militar brasileira, o movimento estudantil também passa sua história a limpo. A Comissão da Verdade da UNE, criada no início de 2013 para apurar perseguições, torturas e mortes de estudantes, apresentou a primeira parte dos seus trabalhos no dia 31, sexta, durante o Congresso da entidade em Goiânia.

“Esperamos que o material produzido sirva de subsídio para o relatório final da Comissão da Verdade Nacional, a ser apresentado ano que vem”, esclareceu Raisa Marques, pesquisadora e coordenadora da Comissão da UNE, durante ato especial de homenagem a Honestino Guimarães – expresidente da entidade – na praça que leva seu nome, setor universitário da capital de Goiás.

Segundo Raisa, será criado um grande movimento , junto a òrgãos e instituições ligados à memória e à verdade, na busca pelos restos mortais do estudante, que desapareceu no início dos anos 1970. “Onde está Honestino?”, perguntou. O historiador Carlos Virtude, que também coordena os trabalhos na Comissão, destacou algumas questões que o relatório compilou para seguir nas investigações como: o detalhamento das circunstâncias de desaparecimento de Honestino; desenvolvimento posterior do caso e outras comissões que estão no caso, como a de Goiás e da UNB.

Uma força tarefa da UNE para reivindicação de arquivos da ditadura do Cenimar – Centro de Informações da Marinha – onde ele esteve preso, além da identificação dos agentes que o prenderam estão entre os próximos passos. A sequencia de pistas já existentes sobre a localização do corpo – existem indícios de cemitérios clandestinos no Rio de Janeiro – é uma trilha a ser seguida.

 “Esse é mais do que um relatório técnico é político, não vamos deixar esse caso barato”, declarou Carlos.

“Nós não temos medo da verdade”

O presidente da UNE, Daniel Iliescu, declarou que o Brasil vive em uma nova fase “em que não é possível mais calar e vigiar a luta dos estudantes que hoje contamina os brasileiros em todo o país”, afirmou.

Gilney Viana, coordenador do projeto Direito à Memória e à Verdade da secretaria de Direitos Humanos, disse que a juventude atual resgata a sua esperança. Ele ressaltou que, infelizmente, ainda hoje existem agentes que não toleram a verdade. “Eles não passaram. Não é porque nós que sobrevivemos estamos dizendo, é pelo que vocês estão”, disse.

O secretário Nacional de Justiça e Presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão, disse durante o ato que não é fácil superar mais de vinte anos da cultura autoritária. “Estou convicto que esta geração é capaz”, afirmou. O coordenador da Ordem dos Advogados do Brasil de Goiás (OAB/GO), Ogmar de Oliveira, em sua fala cobrou avanços na punição dos torturadores. Abrão também se posicionou sobre a questão. “Os crimes contra a humanidade são imprescritíveis e inesquecíveis”, declarou.

Orgulho tenho demais, Honestino é de Goiás

Durante o ato o presidente da UNE, inaugurou a comenda Honestino Guimarães. Ele presenteou o Secretário de Justiça com a primeira medalha “por sua parceria nessa luta”, disse. Daniel saudou ainda todos os companheiros presentes que sobreviveram à ditadura. “Goiás sempre teve destaque no movimento estudantil e no movimento camponês”, disse. 

Cerimônia de Anistia

Luiz Carlos Orro de Freitas, Fábio Tokarski e Carol Stalin Pires Leal, militantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), foram anistiados após o ato. Em frente à plateia de estudantes e familiares dos perseguidos políticos, os requerentes tiverem um julgamento simbólico. Logo em seguida, o Secretário da Justiça fez um pedido de desculpas oficial em nome do Estado brasileiro.

A cerimônia fez parte da 70º Caravana da Anistia da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. Abrão lembrou a realização da 1ª Caravana da Anistia realizada dentro de um Congresso da UNE, há seis anos. “Foi quando rompemos nosso medo de falar do passado e reafirmamos que não temos medo da verdade”, destacou.

Cristiane Tada